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Judite, a salvadora

Judite é uma heroína, uma guerreira: o seu perfil evoca o mito e o arquétipo do herói, mas em versão feminina. Não é um acontecimento novo, nem na Bíblia nem algures, no mundo atual, onde continua a aumentar o número de heroínas nas bandas desenhadas, no cinema, nas séries televisivas e nos romances. A Judite bíblica dá o nome ao livro que narra a sua história, como acontece com alguns homens, profetas (Isaías, Ezequiel e Jonas), ou com personagens do mundo sapiencial (Job), e com outras mulheres (Rute e Ester).

Judite é apresentada como filha de Merari e viúva de Manassés. O narrador acrescenta uma genealogia de dezasseis gerações, uma das mais longas da Bíblia hebraica. A genealogia, ou elenco dos antepassados, serve para sublinhar a importância de uma personagem. Os grandes heróis bíblicos, como Abraão, os reis e numerosos chefes têm uma sua genealogia, mas é bastante raro que seja atribuída a uma mulher. A genealogia faz de Judite uma personagem que pode medir-se com os grandes heróis bíblicos.

Francisco Goya, «Judite e Holofernes»  (1819-1823)

Il nome Judite deriva do feminino hebraico yehûdit, que quer dizer judaica. Não se trata de um nome bíblico comum, mas também não é insólito. Chama-se Judite inclusive a esposa de Esaú, filha de um hitita denominado Beeri. A possibilidade de que Judite seja um nome simbólico, ou uma metáfora do povo, é confirmada por outros nomes contidos no livro, como aquele da cidade Betúlia, desconhecida para os estudiosos, não obstante o texto a situe ao norte de Jerusalém. Betúlia poderia ser um pseudónimo de Betel, ou então uma representação metafórica do povo judaico. É provável que o topónimo Betúlia derive de betulah, termo hebraico que significa virgem, ou donzela.

Holofernes, um general do exército de Nabucodonosor, procura conquistar Israel. Já invadiu outros países, alcançando um sucesso notável, mas na sua ofensiva militar depara-se com a resistência de uma pequena cidade judaica chamada Betúlia. Pronto para a destruir, submete-se a um duro assédio. Betúlia encontra-se em grave dificuldade e começa a perder a esperança. Quando os seus habitantes, de acordo com os seus chefes, estão prontos para se render, aparece uma jovem viúva, Judite, que desafia todos em nome do Senhor e traça um plano para derrotar o inimigo. Servindo-se da sua beleza e da sua astúcia, Judite infiltra-se no acampamento de Holofernes e, conquistando a sua confiança, mata-o cortando-lhe a cabeça. Deste modo, Judite provoca a fuga do exército inimigo e obtém a vitória de Betúlia, que a aclama como grande heroína e dá graças a Deus.

Giovanni Francesco Romanelli, «Judite e Holofernes»

Se nos ativermos ao nosso conceito atual de história, o livro, assim como o tema e a personagem, não é histórico. Ele é definido sobretudo como uma pequena história, como um romance breve ( folktale), no qual se narram as gestas exemplares de uma viúva piedosa que toma a decisão corajosa de derrotar o inimigo, sustentada pela sua fé religiosa. Alguns acreditam que se trata de uma espécie de narração folclórica e épica, que combina a história da esposa fiel com aquela da mulher guerreira. Mas Judite quer ser um livro histórico, visto que inclui alguns dados bem conhecidos, unidos a outros absolutamente desconhecidos, embora não improváveis, relativos à etnia, às pessoas, aos lugares e aos nomes. Por outro lado, o seu argumento é perfeitamente credível e verosímil. Na narração está ausente qualquer intervenção milagrosa de Deus. Não são nem sequer os ritos, as orações frequentes e o jejum os fatores que influem em maior medida sobre a vitória, mas acima de tudo a coragem da heroína e do seu povo, para derrotar o inimigo. Por conseguinte, considera-se que a narração pode conter um núcleo histórico, uma história de assédio e de vitória sobre o inimigo por obra de uma mulher, ocorrida na época persa, no tempo de Artaxerxes iii, período em que se inserem temporalmente tais acontecimentos. Contudo, o livro contém um grande número de «erros», provavelmente deliberados, mas muitos deles cheios de ironia. Na realidade, a ironia permeia a obra inteira, o seu tema, os discursos e os personagens. Por exemplo, Holofernes é um personagem apresentado de modo irónico porque, depois de ter conquistado todo o oeste, não consegue submeter uma pequena cidade como Betúlia, e nem sequer dominar uma mulher, que o mata com a sua próxima espada.

Judite é concebida e tratada como uma personagem paradoxal: viúva sem filhos, é ela que dá vida física ao seu povo, derrotando o inimigo, e vida espiritual restituindo-lhe a fé e a esperança em Deus. Formosa e desejável, vive como solteira. Mulher rica, passa a maior parte da sua vida em jejum. De aparência frágil e muito feminina, é capaz de matar brutalmente com as suas próprias mãos o chefe de um exército muito poderoso. O relacionamento de Judite com o restante dos homens é também ele profundamente irónico, ironia que alcança o seu ápice na relação com Holofernes, sobretudo quando o autor utiliza termos eróticos para descrever o assassínio brutal.

Inclusive os personagens menos relevantes são apresentados numa luz irónica: Aquior, guerreiro de profissão, desmaia diante da cabeça degolada de Holofernes; homem de ação, revela-se um sábio; pagão amonita, demonstra mais fé no Deus de Israel do que os próprios israelitas, do que os mestres hebreus em Betúlia. Ozias, em conformidade com o estereótipo feminino, esconde-se atrás dos muros da cidade, enquanto Judite, segundo o estereótipo masculino, sai para enfrentar abertamente o inimigo. Portanto, o livro inteiro parece permeado por uma inversão irónica, o seu eixo hermenêutico.

A história sobre o modo como o livro e a personagem de Judite foram interpretados é complexa. Os hebreus tiveram dificuldade de o aceitar como um livro inspirado, e não foi fácil inseri-lo nem sequer no cânone cristão. Algumas dificuldades estão ligadas à personagem de Judite, considerada como moralmente questionável, porque ela exerce a violência, e perigosa porque se trata de uma mulher livre e autónoma. A dúvida moral em volta da violência está arraigada na sua condição de mulher, visto que sob o ponto de vista moral muitos personagens bíblicos masculinos violentos não foram postos em discussão.

O livro de Judite apresenta uma rica intertextualidade bíblica, uma espécie de condensação de alusões, evocações, temáticas, modelos, personagens e situações. Aqui mencionamos unicamente a intertextualidade feminina, que faz pensar em Judite como uma espécie de antologia de textos bíblicos que se ocupam de mulheres. Deste modo, contra o pano de fundo da personagem e das suas ações, encontramos Miriam, Débora, Jael, Sara, Rebeca, Raquel, Tamar, Noemi, Rute, Abigail, Betsabé e outras. Por exemplo, Judite recorda a astúcia de Sara, Rebeca, Tamar e Dalila para alcançar a própria finalidade com o engano inteligente. E assim como elas, acaba por ter uma influência enorme sobre a história do seu povo, sobre o futuro de Betúlia e de Israel.

Judite é uma viúva sem filhos, como o eram Noemi, Rute, Abigail e Betsabé. Assim como elas, demonstra uma particular habilidade ao abrir um caminho para ela mesma e para o povo inteiro. O que a diferencia daquelas mulheres é a maternidade porque, enquanto Betsabé e Rute — e através dela, também Noemi — mais cedo ou mais tarde têm filhos biológicos, Judite, mais próxima da figura de Débora (cf. Juízes 5-7), é mãe do povo.

Existem analogias inclusive entre Judite e Rute, a outra viúva sem filhos, em passagens que se parecem com um eco do livro de Rute: Holofernes diz a Judite: «O teu Deus será o meu Deus», as mesmas palavras que Rute diz a Noemi, e lê-se que «todas as mulheres de Israel se reuniram para a admirar, dedicando-lhe grandes elogios e dançando em sua honra», eco daquilo que acontece no final do livro de Rute. Depois, se recordarmos que o nome de Judite evoca aquele da esposa hitita de Esaú, a analogia com Rute parece ainda mais evidente, visto que esta última era moabita. Judite é judia, mas ironicamente recorda e evoca duas mulheres estrangeiras, que contribuíram para construir ou edificar a casa de Israel. Além disso, assim como Rute fez com Boaz, Judite acomoda-se aos pés de Holofernes, e não nos esqueçamos de que, na conclusão do cântico que as mulheres dedicam a Judite, são mencionadas as sandálias que evocam a ratificação do rito de Boaz como go’el.

Dignas de menção são também as analogias com a história de Débora e Barac, e de Jael e Sísera. Judite acaba por eclipsar Aquior, assim como Débora faz com Barac. Contudo, o paralelismo mais interessante encontra-se na função profética de ambas as mulheres, em relação aos chefes do povo. Assim como Débora faz com Barac, também Judite repreende os chefes do povo por causa da escassez da sua fé. E, lendo sobre as façanhas de Judite, é impossível deixar de recordar Jael (e também Dalila). Assim como ela, também Jael conquista a confiança de um general inimigo, sedu-lo e engana-o, para depois o derrotar facilmente. Assim como Judite, também Jael tinha sido louvada pelas mulheres e, se Judite proporciona uma paz duradoura à Israel, de Jael afirmava-se que ao povo tinha oferecido quarenta anos de tranquilidade.

Concluímos, mencionando mais uma característica de Judite, em relação aos papéis de género. Aquior, homem atípico, desenvolve-se como personagem rumo a uma progressiva feminização, enquanto Judite, mulher atípica, em determinados momentos adapta-se ao protótipo feminino utilizando-o como instrumento de ação. Ambos manifestam um certo grau de transgressão. Ambos inserem-se no limiar do género que culturalmente lhes é atribuído, superando os limites socialmente estabelecidos.

Mercedes Navarro Puerto

A autora

Ensinou Antigo Testamento e Psicologia da religião na Pontifícia Universidade de Salamanca e é professora honorária do Departamento de estudos hebraicos e aramaicos da Universidade Complutense de Madrid. Atualmente é diretora para a língua espanhola da coletânea internacional e multilíngue «La Biblia y las mujeres». A sua publicação mais recente é Violencia, sexismo, silencio. In-conclusiones en el libro de los Jueces (Evd, 2013).

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24 de Outubro de 2019

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