Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Isabel rainha de paz

A santa do mês apresentada por Oddone Camerana

“Uma santa mulher”, “um santo”, assim são definidas e recordadas as pessoas que carregam, ou carregaram, a cruz em silêncio, que sofreram canseiras, abusos, perseguições, injustiças, tormentos sem se queixarem e com espírito de sacrifício.

Uma figura do passado, mas também do presente, reconhecível hoje em quem tolera as adversidades ou carrega as dos outros. Excepto que, em relação à santa deste mês, Isabel de Aragão (1271-1336), é evidente que a santidade é outra coisa e não viria à mente de ninguém definir Isabel uma “santa mulher”.

Filha de Pedro III de Aragão e de Constança, descendente do imperador Frederico II rei da Sicília, Isabel era uma nobre que praticava a santidade com a oração, com a religiosidade, mas também com a generosidade devida à sua posição. Tornando-se rainha ao casar-se com Dinis, rei de Portugal, na corte real não abandonou os bons hábitos de uma santidade activa. Não descuidou os seus deveres de esposa, continuou a levantar-se cedo para ir à capela ouvir a missa de joelhos, comungar e ler o ofício da Virgem e dos mortos. Espírito contemplativo, prestava muita atenção às obras de pública necessidade e não houve, de facto, igrejas, hospitais e mosteiros para os quais ela não contribuísse com real generosidade.

Além de rainha e religiosa, a santidade de Isabel encontrou o modo de exprimir-se também como mãe. Deu ao marido dois filhos, Constança e Afonso, herdeiro ao trono, Isabel manifestou, de facto, o seu carácter e a sua têmpera de mulher enérgica e activa não só suportando de modo heróico os amores ilícitos do marido, mas cuidando também da educação dos filhos naturais dele como se fossem seus.

Mas é no papel de pacificadora e de reconciliadora que as virtudes de Isabel assumiram tons heróicos e shakespearianos, quando a rainha sentiu que devia intervir na luta entre o filho e o pai, alinhando-se com este último e depois repagada com o desterro numa fortaleza. Mas não foi esta a única obra de paz em que se empenhou Isabel. Outras disputas, como aquela entre o marido e o cunhado ou entre os influentes e ambiciosos pajens da corte, viram o esforço da rainha santa, orientado para enfrentar, sob a inspiração do sentido do dever e da paz, os opostos exércitos alinhados e para desfazer as obscuras intrigas da corte e os ciumes.

Pronta para se adaptar à mudança das situações e dos contextos nos quais vivia, Isabel encontrou o caminho da santidade também depois da morte do marido. A este ponto, Isabel renunciou ao mundo, cortou os cabelos, vestiu o hábito das terciárias franciscanas e foi em peregrinação a Santiago de Compostela, onde regressou no último ano da sua vida depois de, entretanto, se ter retirado num mosteiro para rezar, conversar com as religiosas e conceder audiência aos pobres, aos doentes e aos pecadores que a ela recorriam. Nunca deixou de colocar as suas capacidades de mediadora entre os familiares em disputa, como procurou fazer entre o filho e o neto em guerra entre eles, se não tivesse sido impedida por uma febre que a levou à morte.

De acordo com o espírito do tempo e com o contexto onde se encontrou, Isabel foi protagonista de milagres marcados pela cortesia e pela gentileza, como o da transformação em vinho de um jarro de água para remédio das penitências e dos jejuns aos quais fazia participar o pessoal da corte ao seu redor; ou as curas obtidas tocando os enfermos com as suas mãos. Fala-se também de uma aparição de Maria e para a fazer sentar, ao lado do seu leito de morte, Isabel pediu que lhe oferecessem uma cadeira.

Mas ainda mais espectacular e, ao mesmo tempo, mais ligado às suas acções de paz foi o milagre que aconteceu durante a guerra entre o filhos ilegítimo do seu marido Dinis e o herdeiro do trono, o futuro Afonso IV, quando Isabel se colocou entre os dois exércitos alinhados e milagrosamente divididos por uma barreira luminosa que surgiu com a sua passagem.

De Isabel ficaram dois retratos relativos à sua dupla natureza de rainha e de religiosa. No primeiro caso ela aparece ao lado do marido com a coroa depois oferecida, juntamente com outros dons, ao santuário no qual se retirou. No segundo, vemo-la com vestes de religiosa, tendo o crucifixo na mão direita e na esquerda o véu onde se encontram os objectos que fazia para as igrejas pobres.

Mas como seria Isabel hoje? Como se moveria num contexto tão diverso seu? Como poderia Isabel manifestar a sua generosidade e exercer a sua santidade? Confesso que sinto uma espécie de confusão. Prevalecem os sentimentos de distância, sinal do empobrecimento no conceber o bem e o altruísmo hoje. Os gestos, os comportamentos e as escolhas de Isabel com muita dificuldade servem para indicar a estrada da virtude.

É já muito se evitamos o risco de confundir a santidade com a tentação de submeter-se e com a inclinação para a obediência. Isabel não nos pede que a imitemos, mas que consultemos o “tribunalzinho” interior da nossa consciência. Lá é necessário escavar. Esperemos conseguir.

Oddone Camerana, nasceu em Turim em 1937, trabalhou durante muito tempo no mundo das grandes indústrias e naquele mundo desenreda-se uma grande parte das suas obras. Entre estas L’enigma del Cavalier Agnelli (Serra e Riva 1985, Passigli 2011), La notte dell’Arciduca (Rizzoli 1988), I passatempi del Professore (Einaudi 1990), Contro la mia volontà (Einaudi 1993), Il centenario (Baldini e Castoldi 1997, finalista do Premio Viareggio), Racconti profani (Passigli 1999), L’imitazione di Carl (Passigli 2002), Vite a riscatto (Lindau 2006). Colabora com «L’Osservatore Romano» e «La Stampa».

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

21 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS