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Isabel, a palavra influente

· A santa do mês narrada por Elisabetta Rasy ·

Em 1995 um artista nova-iorquino com pouco mais de quarenta anos, Bill Viola, considerado o mestre de uma nova arte que estava a conquistar os museus do mundo, a videoart , apresentou uma série de cinco obras intituladas Buried Secrets , que lhe garantiram, depois da afirmação internacional, sucesso e fama também na Itália. Em particular uma obra surpreendente: The Greeting . Nela três figuras femininas em práticas vestas hodiernas um pouco casual e um pouco étnicos (saias compridas, blusas amplas e lenços coloridos) davam nova vida a uma imagem da arte e da história sacra que atravessou os séculos: a Visitação. A fonte directa era o bonito e célebre quadro que o mais extravagante dos maneiristas dedicou a este tema, Jacopo Pantormo, na Pieve di San Michele em Corsignano, mas também Giotto degli Scrovegni não estava distante.

Neste vídeo, Bill Viola desenvolve numa acção a epifania do encontro entre Maria e a sua prima Isabel, do qual o pintor quinhentista captava a intensidade do momento: num tempo dilatado por um ralenti que transforma qualquer movimento, gesto e olhar por ocasião da meditação, na presença de uma terceira figura feminina – a testemunha que encarna cada um de nós – duas mulheres, uma jovem e uma mais idosa, encontram-se. A mãe do Baptista, uma figura fundamental mas humilde e secreta sobre a qual só o Evangelho de Lucas narra, depois de ter atraído o olhar dos artistas de todos os tempos volta portanto na tecnologia expressiva da mais recente modernidade com o mesmo pathos cheio de significado.

Não há muitas notícias sobre ela: Ilisheba, esposa do sacerdote Zacarias, era prima de Nossa Senhora talvez da parte materna. A cidade de Judá onde se dá o encontro foi identificada pela tradição em Ain Karim na qual, num monte diante da aldeia, surge o santuário da Visitação. Mas Lucas narra com poucas palavras o essencial desta santa cheia de poder e de mistério.

Com efeito, desde a primeira página do seu Evangelho Isabel progride rumo ao leitor com a sua história de mulher comum e ao mesmo tempo extraordinária. Assim chegamos a conhecer que ela e o seu marido eram «justos diante de Deus, observavam todas as leis e prescrições do Senhor», mas compreendemos imediatamente também que não eram felizes, porque «Isabel era estéril e os dois eram idosos». E ainda: não só Isabel não tinha tido a alegria da maternidade, mas envergonhava-se da sua esterilidade. Também Zacarias devia ter dentro de si um pouco de cólera, um tormento que lhe obscurecia o coração porque não acredita no arcanjo Gabriel que lhe anuncia a futura paternidade: eu e a minha esposa somos idosos, diz-lhe desanimado diante do anúncio divino. Não podemos deixar de sentir o sofrimento humano desta resposta, é a voz da velhice, a idade na qual por vezes tudo parece estar perdido. Pelo seu desânimo o homem torna-se mudo, mas na narração evangélica, na qual tudo é manifestação divina e ao mesmo tempo extraordinariamente humana e muito próximo de nós, também Isabel, quando compreende que está grávida, se fecha num silêncio reservado mesmo sabendo reconhecer a obra do Criador: «Eis o que fez para mim o Senhor nos dias em que se dignou libertar-me da minha vergonha perante os homens». Não se quer orgulhar por aquela gravidez concedida pelo Céu mas considera-a uma oportunidade de recolhimento: Isabel afasta-se por cinco meses do olhar do mundo. Foi mais perspicaz do que o marido ao reconhecer a graça recebida, mas o seu comportamento é também o de uma qualquer mulher idosa, bastante sábia para se vangloriar e saber cultivar na privacidade a alegria.

É agora, no Evangelho de Lucas, enquanto a idosa prima está escondida, que tem lugar o Anúncio a Maria. O anjo para dissipar a sua admiração conta-lhe, quase com uma confidência afectuosa, a gravidez de Isabel. Imediatamente Maria se põe a caminho para ir encontrar a prima e dá-se o encontro entre as duas na casa onde a mais idosa se tinha retirado, a visita que nós chamamos Visitação e que na Igreja Oriental se chamou também Aspasmos , saudação, como no vídeo de Bill Viola. E é aqui, no encontro entre as duas, que a fisionomia da santidade de Isabel se esclarece, porque ela vem ao nosso encontro das páginas de Lucas como santa do pensamento que se faz palavra. Quando o menino que espera lhe salta no seio, ela fala a Maria com a célebre frase: «Bendita és tu entre as mulheres». Portanto ela é figura da ajuda entre mulheres, da solidariedade e da confiança feminina, mas é também aquela que pensa (compreendeu que foi Deus quem lhe concedeu o dom da gravidez), que decide (decidiu retirar-se do mundo) e que fala, e fala para anunciar a Salvação. É a primeira santa da palavra feminina influente. E falando com influência dá lugar à palavra de Maria, que lhe responde com a bonita oração do Magnificat . Não é só um encontro, o que se deu entre as duas primas, mas também um diálogo, um diálogo de importância fundamental.

Os artistas compreenderam isto, compreenderam o significado sagrado e humano desta relação peculiar entre mulheres. Na densa iconografia da Visitação, dos mosaicos mais antigos até Luca Della Robbia, de Raffaello a Mantegna, tem-se a percepção do sentido profundo daquela expansividade respeitadora e afectuosa da mais idosa das duas mulheres como expansão do Espírito e ao mesmo tempo da inteligência feminina do mundo. Mas no que Lucas nos narra com arrebatamento e exactidão e que atraiu a sensibilidade de tanta pintura através dos séculos há ainda algo mais: a imagem, que se torna ícone sagrado, de um inédito protagonismo feminino, na história da Salvação e na história humana.

Entre as obras da escritora Elisabetta Rasy recordamos La lingua della nutrice (Edizioni delle donne, 1978); La prima estasi (Mondadori, 1985); Il finale della battaglia (Feltrinelli, 1988); L'altra amante (Garzanti, 1999); Mezzi di trasporto (Garzanti, 1993); Ritratti di signora: tre storie di fine secolo (Rizzoli, 1995); Posillipo (Rizzoli, 1997; Premio Selezzione Campiello, Premio Napoli); L'ombra della luna (Rizzoli, 1999; Premio Donna Città di Roma); Tra noi due (Rizzoli, 2002; Premio Flaiano); La scienza degli addii (Rizzoli, 2005); L'estranea (Rizzoli, 2007); Memorie di una lettrice notturna (Rizzoli, 2009); Figure della malinconia (Skira, 2012).

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18 de Agosto de 2019

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