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Imagem do ecumenismo

· Isabel e Maria, duas vozes em uníssono para anunciar a salvação ·

«Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas até às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel» (Lucas, 1, 39-40).

Por que razão Maria, assim que o anjo lhe anunciou o acontecimento insólito e extraordinário que a esperava, se pôs a caminho para ir ao encontro de Isabel? Tinha ela necessidade de uma presença materna ou feminina? Desejava confidenciar os segredos e as experiências que se compartilham entre mulheres grávidas? Prestar-lhe assistência na fase final da sua gravidez? Ou talvez averiguar a vericidade da afirmação do anjo, segundo a qual Isabel já estava no sexto mês? 

Longe de querer fazer uma psicologia feminina, o autor do Evangelho segundo Lucas põe em evidência uma mensagem teológica central: é o encontro de dois cumprimentos de promessas feitas por Deus. A de uma mulher idosa que se encontra com uma jovem é uma imagem significativa: a antiga esperança do povo de Israel vê finalmente o cumprimento da própria expetativa, certamente ainda em gestação, mas tão próxima a ponto de fazer com que a antiga aliança possa tocar e abraçar a nova aliança. O Antigo Testamento vê-se abraçado pelo Novo Testamento, e os dois «frutos» da promessa, os dois filhos, representarão juntos a profunda unidade desta aliança estipulada, na qual Deus dá continuidade à sua obra. João Batista, o último dos profetas do povo de Israel, exorta o seu povo à conversão a fim de preparar o caminho rumo «Àquele que há de vir». Em conformidade com a expressão de Lucas, Jesus leva a salvação de Jerusalém «até aos extremos confins da terra».

Entre as duas mulheres (e entre os dois filhos em gestação), entre os dois tempos da história com Deus, não existe competição alguma, nenhum aviltamento, mas simplesmente um decurso, uma história, uma cronologia: primeiro Isabel, mãe do último profeta, e depois Maria, mãe de Jesus.

Como seu marido, Isabel é uma «justa», epíteto utilizado de bom grado na tradição judaica para descrever os crentes fiéis. A narração de Lucas apresentou em simetria o anúncio do anjo Gabriel a Zacarias e em seguida o anúncio a Maria, um bom método para pôr em evidência o destino paralelo dos dois filhos. Reconhecer-se-ão um ao outro, as suas mensagens corresponderão uma à outra e ambos acabarão como mártires políticos, não obstante as suas missões tenham sido diferentes.

Maria é a «cheia de graça» e é ela que toma a iniciativa, é ela que vai visitar a sua prima.

A primeira mãe será a voz reveladora, compreendendo que a segunda já é portadora daquele que mudará o destino do mundo. A mesma repartição das funções caberá também depressa aos respetivos filhos. João Batista, de família sacerdotal, homem justo, representa a lucidez e a radicalidade do anunciador de uma obra da qual Jesus, que provém de uma vida comum, será o cumprimento. Sem ele não existe salvação; mas sem João Batista não existe intérprete.

Isabel reconhece que estão prestes a cumprir-se as promessas feitas ao seu povo. E ela está cheia de «carisma». No entanto, o verdadeiro protagonista é o Espírito Santo, que colma Isabel, que leva aquele que será o profeta a sobressaltar de alegria, o qual permite que todos sintam (não obstante não o entendam) o incrível acontecimento. Sem o Espírito Santo, Jesus não pode ser reconhecido como Cristo.

«E exclamou em alta voz: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. De onde me advém esta honra de vir a mim a mãe do meu Senhor? Pois assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio”» (vv. 42-44).

O Espírito Santo permite-lhe professar que o filho de Maria é o Senhor! Sem dúvida, hoje os historiadores asseveram que João Batista tinha os seus discípulos e uma sua mensagem de conversão, e que não era tão «pequenino» em relação a Jesus como o mostravam os Evangelhos. Mas todos os Evangelhos, desde o início, sublinham com insistência o papel preeminente de Jesus para a salvação. Aqui, Isabel desempenha a mesma função do seu filho: profetiza que Jesus já é o Senhor!

«Bem-aventurada és tu que creste, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!» (v. 45).

Isabel transmite uma bênção que dá força e coragem a Maria: fruto desta bênção é o Magnificat! Maria canta e louva, mas sobretudo profetiza, como no passado os grandes profetas, abrindo deste modo uma chave de leitura da Bíblia inteira: Deus olha para os pequeninos, eleva as pessoas humildes e comuns.

Ambas se oferecem reciprocamente o dom de Deus, antes de o anunciar a quantos as circundam. É através delas que se remata a obra, a qual em última análise é visitação de Deus, a plenitude do cumprimento da obra trinitária para a humanidade.

Esta visitação poderia ser também uma ilustração da dádiva do ecumenismo, uma vez que o ecumenismo constitui o movimento que põe a caminho uma Igreja rumo a outras. A mais jovem rumo àquela com mais experiência, ou vice-versa? Sempre houve na história do ecumenismo um primeiro movimento, a iniciativa de uma Igreja que se abriu com confiança a outras, esperando que a segunda aceitasse o diálogo. A iniciativa deriva de um lado, mas espera-se o acolhimento do outro.

Mas existe uma assimetria ainda mais importante: a aceitação das diferenças. No encontro, é necessariamente alguém «outro» que vem, outra vida, outro pensamento, outra cultura, porventura tanto alheia quanto o Novo Testamento podia ser para os justos do Antigo Testamento.

Permitirá o Espírito Santo o reconhecimento de uma Igreja diversa, como portadora de uma fé autêntica? Será possível acolher os frutos da fé da «outra» Igreja? Sem o reconhecimento não existe a abertura à novidade. Isabel demonstra que o Espírito reconhece o acontecimento novo: a partir da promessa feita ao seu povo, a partir de uma memória ativa e da confiança criadora de Deus. Não se trata de uma interrupção da antiga aliança, mas de uma mudança de categoria. Aquele que há de vir não é um novo profeta, mas o Completamente Outro, sem dúvida da «família» de Israel, mas ao mesmo tempo de outra origem. Certamente de uma normal família humana, mas contemporaneamente de outra genealogia. Sem dúvida, portador das tradições e da fé do seu povo, mas ao mesmo tempo de uma mensagem renovada.

É a finalidade própria dos «diálogos» permitir discernir as diferenças que poderiam dividir daquelas que são aceitáveis, ou que talvez constituam um enriquecimento para cada uma das Igrejas. Neste encontro poderia verificar-se uma surpresa divina! Do mesmo modo como Isabel e Maria, também as Igrejas experimentaram nos diálogos ecuménicos a assistência oferecida pelo Espírito Santo, o qual permite reconhecer a fé que leva ao Coração de Jesus como Cristo e Senhor inclusive na outra Igreja, uma fé verdadeira e justa, expressa com diferentes palavras e formas de coerência.

Zilda, «A Visitação» (mural, Nápoles)

O ecumenismo é também um intercâmbio de riquezas. A complementaridade destas duas histórias que se unem na aliança com Deus, como a diferença complementar entre as duas mulheres, pode constituir inclusive a imagem da complementaridade, que pode enriquecer as Igrejas com diferentes confissões e histórias. Algumas tinham necessidade de voltar a encontrar a centralidade da soberania de Jesus Cristo; outras tiveram que descobrir a importância da realidade pneumatológica; todavia, todas juntas chegaram ao Pai de toda a verdade. As Igrejas têm necessidade de Cristo como seu Senhor, mas também do Espírito Santo, que permite reconhecê-lo e testemunhá-lo com esperança.

Fortalecida pela segurança recebida de Isabel, Maria entoa o seu empowerment! É o melhor dom recíproco que as Igrejas se podem oferecer umas às outras: a força do testemunho. No movimento ecuménico, o testemunho beneficia da força de ser corroborado por várias vozes, com diversos acentos, numa unidade da fé que professa Jesus Cristo Senhor. É assim que se produz um intercâmbio de forças: as grandes Igrejas sustentam as mais pequeninas, conferindo-lhes uma voz e prestando-lhes ouvidos.

Imaginemos que a visitação tenha ocorrido de um modo diferente. E se a inveja recíproca daquelas mulheres tivesse tornado impossível o diálogo, se o tivesse carregado de repreensões ou de críticas, de reações suscitadas pela competição?

Se aquelas duas mulheres conseguiram reconhecer-se tão bem, e principalmente se souberam reconhecer o filho do qual eram portadoras, ou seja, o futuro da fé dos pais, foi porque souberam beneficiar-se de um único dom, do mais improvável! Uma era demasiado idosa, a outra demasiado virgem para estar grávida! E no entanto o Senhor tornou-as capazes de dar vida, ou ainda melhor, o futuro do seu povo e da humanidade.

Talvez o ecumenismo se realizasse, se todas as Igrejas reconhecessem que beneficiam de uma mesma dádiva, incrível e improvável: ser portadoras do futuro da proclamação da salvação? Por aquele fruto precioso, não valeria a pena superar o medo por si mesmo, pelos próprios privilégios, pelo próprio futuro?

A força do ecumenismo é que as Igrejas compreendam que podem oferecer-se reciprocamente a visitação de Deus.

Elisabeth Parmentier

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21 de Outubro de 2019

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