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Identificou-se com a Igreja e por isso pode ser a sua voz

· Quando o cardeal Joseph Ratzinger explicava quem era João Paulo II ·

Do volume «Giovanni Paolo II pellegrino per il Vangelo» (Cinisello Balsamo — Torino, Edizioni Paoline — Editrice Saie, 1988), publicamos na íntegra o artigo em que o cardeal Joseph Ratzinger repercorria e fazia sobressair os aspectos fundamentais dos primeiros dez anos de pontificado de Karol Wojtyła.

Sem dúvida, João Paulo II é aquele que, nos nossos tempos, se encontrou pessoalmente com o maior número de seres humanos. São incontáveis as pessoas às quais ele apertou a mão, com as quais falou, com as quais rezou e que abençoou. Se o seu elevado ofício pode criar uma certa distância, a sua irradiação pessoal cria ao contrário proximidade. Nem as pessoas simples, incultas e pobres têm dele uma impressão de superioridade, de intocabilidade ou de temor, aqueles sentimentos que atingem com tanta frequência os indivíduos que se encontram nas salas de espera dos poderosos, das autoridades. Além disso, quando elas mantêm contactos pessoais com ele, é como se já o conhecessem há muito tempo, como se falassem com um parente próximo, com um amigo. O titulo de «Pai» (= Papa) não se parece apenas com um título, mas com a expressão daquele relacionamento real que se experimenta verdadeiramente diante dele.

Todos conhecem João Paulo II: o seu rosto, o seu modo característico de se mover e de falar; a sua imersão na oração, a sua alegria espontânea. Algumas das suas palavras ficaram gravadas de maneira indelével na memória, a começar pela apaixonada evocação com que ele se apresentou no início do seu pontificado: «Escancarai as portas a Cristo, não tenhais medo dele!». Ou então estas: «Não se pode viver por prova, não se pode amar por prova!». É em palavras como estas que se resume todo um pontificado. É como se ele quisesse abrir em toda a parte caminhos de acesso a Cristo, como se desejasse tornar acessível a todos os homens o caminho rumo à vida verdadeira, rumo ao amor autêntico. Se, como são Paulo, o encontramos incansavalmente sempre a caminho, até «aos confins da terra», se quer permanecer próximo de todos e não perder qualquer ocasião para anunciar a Boa Nova, não é por finalidades publicitárias, nem por sede de popularidade, mas porque nele se realize a palavra apostólica: Charitas Christi urget nos (cf. 2 Cor 5, 14). Quem está ao seu lado sente isto: ele ama o homem, porque ama a Deus.

Muito provavelmente conhecemos melhor João Paulo II quando concelebramos com ele e nos deixamos atrair pelo silêncio intenso da sua oração, mais do que quando analisamos os seus livros ou os seus discursos. Pois é precisamente participando na sua oração que compreendemos aquilo que é próprio da sua natureza, para além de qualquer palavra. A partir deste centro explica-se também por que motivo ele, embora seja um grande intelectual, que no diálogo cultural do mundo contemporâneo possui uma voz que lhe é própria e importante, conservou também a voz da simplicidade, que lhe permite comunicar com cada pessoa individualmente.

É aqui que se manifesta também outro elemento daquela sua grande capacidade de integração, que distingue o Papa vindo da Polónia: o facto de ter trocado o clássico «nós» do estilo pontifical com o «eu» pessoal e imediato do escritor e do orador. Uma semelhante revolução de estilo não deve ser subestimada. À primeira vista, pode parecer-nos óbvia a eliminação de um uso antiquado, que já não condizia com os nossos tempos. Todavia, não podemos esquecer que este «nós» não era apenas uma fórmula de retórica cortesã. Quando o Papa fala, não o faz em seu próprio nome. Naquele momento, em última análise, nada contam as teorias ou as opiniões particulares que ele elaborou durante a sua vida, por mais elevado que possa ser o seu nível intelectual.

O Papa não fala como um homem douto individual, com o seu eu particular ou, por assim dizer, como um solista no cenário da história espiritual da humanidade. Ele fala haurindo do «nós» da fé da Igreja inteira, por detrás do qual o eu tem o dever de desaparecer. Vem-me ao pensamento, a este propósito, o grande Papa humanista Pio ii, Enea Sílvio Piccolomini, que como Papa às vezes devia dizer, haurindo precisamento do «nós» do seu magistério pontifício, coisas que estavam em contradição com as teorias daquele doutro humanista que, precedentemente, ele mesmo tinha sido. Quando lhe eram indicadas semelhantes contradições, ele costumava responder: Eneam reicite, Pium recipite («Esquecei Enea e recebei Pio, o Papa»).

Por conseguinte, num certo sentido não é um fenómeno inócuo se o «eu» substitui o «nós». Mas quem tiver a paciência de estudar atentamente todos os escritos do Papa João Paulo II, compreenderá depressa que este Papa sabe distinguir muito bem entre as opiniões pessoais de Karol Wojtyła e o seu ensinamento magisterial como Papa; mas, ele também sabe reconhecer que estas duas coisas não são reciprocamente heterogéneas, mas reflectem uma única personalidade impregnada da fé da Igreja. O eu, a personalidade, passou inteiramente ao serviço do «nós». Não degradou o «nós» no plano subjectivo de opiniões particulares, mas conferiu-lhe simplesmente a densidade de uma personalidade toda plasmada por este «nós», dedicada de maneira completa ao seu serviço.

Na minha opinião esta fusão, amadurecida na vida e na reflexão de fé, entre o «nós» e o «eu» une de modo essencial a fascinação desta figura de Papa. A fusão permite-lhe mover-se neste seu sagrado ofício de maneira inteiramente livre e natural; consente-lhe ser, como Papa, inteiramente ele mesmo, sem ter medo de fazer decair demasiado o seu ofício na subjectividade.

Mas como cresceu esta unidade? De que modo um caminho pessoal de fé, de pensamento e de vida conduz a tal ponto, ao centro da Igreja? Trata-se de uma interrogação que vai muito além da simples curiosidade biográfica. Uma vez que, precisamente esta «identificação» com a Igreja, sem qualquer véu de hipocrisia ou de esquizofrenia, parece hoje impossível para muitos homens, que se angustiam pela fé.

Na teologia tornou-se, entretanto, como que uma relutância do momento mover-se a uma distância crítica em relação à fé da Igreja e fazer com que o leitor sinta que ele, o teólogo, não é tão ingénuo, tão acrítico e tão servil a ponto de dedicar o seu pensamento inteiramente ao serviço desta fé. Deste modo, enquanto a fé é desvalorizada, as propostas apressadas destes teólogos não obtêm disto qualquer reavaliação; envelhecem depressa, como depressa nasceram. Então nasce de novo um grande desejo não só de reconsiderar intelectualmente a fé de modo leal, mas também de a poder viver de uma maneira renovada.

A vocação de Karol Wojtyła amadureceu quando ele trabalhava numa empresa de produção química, durante os horrores da guerra e da ocupação. Ele mesmo definiu esse espaço de quatro anos, vivido no ambiente operário, como a fase formativa mais determinante da sua vida. Em tal contexto, ele estudou filosofia, aprendendo-a duramente dos livros, e o saber filosófico apresentava-se-lhe à primeira vista como uma selva impenetrável.

Iniciou com a filologia, o amor pelas línguas, combinada com a aplicação artística da linguagem, enquanto representação da realidade numa nova forma de teatro. Deste modo nasceu aquela espécie particular de «filosofia» característica do Papa actual. É um pensamento em dialéctica com o concreto, um pensamento fundado na grande tradição, mas sempre em busca da sua verificação na realidade presente. Um pensamento que brota de um olhar artístico e, ao mesmo tempo, é orientado pelo cuidado do pastor: dirigido ao homem, para lhe indicar o caminho.

Parece-me interessante rever por um momento a série cronológica dos autores determinantes que ele encontrou ao longo do percurso da sua formação. O primeiro tinha sido, como ele mesmo refere na entrevistaa que concedeu a André Frossard, um manual de introdução à metafísica. Enquanto os estudantes procuram compreender de certo modo só a lógica inteira da estrutura conceitual exposta no texto e fixá-la na mente em vista do exame, nele teve início, ao contrário, a luta por uma compreensão real, ou seja, para compreender a relação entre conceito e experiência, e depois de dois meses de árduo empenhamento, acendeu-se efectivamente a chamada «lâmpada»: «Descobri como era profundo o sentido de tudo o que antes eu tinha vivido e pressentido».

Em seguida, chegou o encontro com Max Scheler e, sucessivamente, com a fenomenologia. Este ramo filosófico tinha a preocupação, depois das controvérsias infinitas a respeito dos confins e das possibilidades do saber humano, de ver de novo simplesmente os fenómenos do modo como eles se manifestam, na sua variedade e na sua riqueza. Esta exactidão do ver, esta inteligência do homem, não a partir de abstracções nem de princípios teóricos, mas procurando captar no amor a sua realidade, foi e permaneceu decisiva para o pensamento do Papa.

Finalmente, ele descobriu bastante cedo, antes da vocação ao sacerdócio, a obra de são João da Cruz, através da qual se lhe abriu o mundo da interioridade, «da alma amadurecida na Graça». Os elementos metafísico, místico, fenomenológico e estético, unindo-se uns aos outros, arregalam os olhos para as múltiplas dimensões da realidade, tornando-se no final uma única percepção sintética, capaz de se comparar com todos os fenómenos e de aprender a compreendê-los, precisamente transcendendo-os.

A crise da teologia pós-conciliar é em ampla medida a crise dos seus fundamentos filosóficos. À filosofia apresentada nas escolas teológicas faltava a riqueza perceptiva; faltavam-lhe a fenomenologia e também a dimensão mística. Mas quando os fundamentos filosóficos não são esclarecidos, à teologia vem a faltar o terreno debaixo dos pés. Porque então já não é claro até que ponto o homem conhece verdadeiramente a realidade, e quais são os fundamentos a partir dos quais ele pode pensar e falar.

Assim parece-me que foi uma disposição da Providência que, nesse tempo, subiu à cátedra de Pedro um «filósofo», que aplica a filosofia não seguindo-a à letra, mas partindo da labuta necessária para fazer valer, diante da realidade e do encontro com o homem que procura e que interroga.

Wojtyła foi e é o homem. O seu interesse científico foi cada vez mais caracterizado pela sua vocação de pastor. Daqui, compreende-se que a sua colaboração para a Constituição conciliar sobre a Igreja no mundo contemporâneo, cujo texto se distingue de modo fulcral pela preocupação pelo homem, se tornou uma experiência decisiva para o futuro Papa.

«O caminho da Igreja é o homem». Esta temática, extremamente concreta e radical na sua profundidade, encontrou-se sempre e ainda hoje se encontra no centro do seu pensamento, que é ao mesmo tempo acção. O resultado disto foi que a questão da teologia moral se tornou o âmago do seu interesse teológico. Também esta era uma importante predisposição humana para a tarefa do Sumo Pastor da Igreja. Pois a crise da orientação filosófica manifesta-se, sob o ponto de vista teológico, sobretudo como crise da norma teológico-moral. É aqui que se encontra a ligação entre filosofia e teologia, a ponte entre a investigação racional sobre o homem e a tarefa teológica, e ela é tão evidente, que não é possível evitá-la.

Onde a antiga metafísica desaba, também os mandamento perdem o seu nexo interior: então, torna-se grande a tentação de os reduzir unicamente ao plano histórico-cultural. Karol Wojtyła tinha aprendido de Scheler a investigar, com uma sensibilidade humana até então desconhecida, a essência da virgindade, do matrimónio, da maternidade e da paternidade, a linguagem do corpo e, por conseguinte, a essência do amor. Ele assumiu no seu pensamento as novas descobertas do personalismo, mas precisamente assim aprendeu a compreender que o próprio corpo fala, que a criação fala e que nos delineia os caminhos a percorrer: o pensamento da era moderna descerrou para a teologia moral uma nova dimensão, e Wojtyła compreendeu-a numa contínua implicação de reflexão e de experiência, de vocação pastoral e especulativa, e entendeu-a na sua unidade com os grandes temas da tradição.

Outro elemento também foi importante para este caminho de vida e de pensamento, para a unidade de experiência, pensamento e fé. Toda a batalha deste homem não foi combatida dentro de um círculo mais ou menos particular, unicamente no espaço interno de uma fábrica ou num seminário. Ela foi circundada pelas chamas da grande história.

A presença de Wojtyła na fábrica foi uma consequência do aprisionamento dos seus professores universitários. O tranquilo curso académico foi interrompido e substituído por um duríssimo estágio no meio de um povo oprimido. A pertença ao seminário maior do cardeal Sapieha já era, enquanto tal, um gesto de resistência. E assim a questão da liberdade, da dignidade e dos direitos do homem e da responsabilidade política da fé não penetrou no pensamento do jovem teólogo como um simples problema teórico. Era a necessidade, muito real e concreta, daquele momento histórico.

Mais uma vez, a situação particular da Polónia, situada no ponto de intersecção entre leste e oeste, se tinha tornado o destino daquele país. Os críticos do Papa observam com frequência que ele, como cidadão polaco, conhece verdadeiramente apenas a piedade tradicional e sentimental do seu país, e portanto não pode compreender plenamente as complicadas questões do mundo ocidental.

Nada é mais insensato do que uma observação semelhante, que atraiçoa um desconhecimento completo da história. É suficiente ler a Encíclica Slavorum apostoli para ter a ideia de que precisamente desta herança polaca o Papa tinha necessidade para poder pensar no âmbito de uma multiplicidade de culturas. Sendo a Polónia um ponto de confluência de civilizações, de modo particular das tradições germânicas, românicas, eslavas e greco-bizantinas, a questão do diálogo das várias culturas na Polónia é, sob numerosos aspectos, mais ardente que alhures. E assim, este é um Papa autenticamente ecuménico e deveras missionário, preparado de forma providencial também neste sentido para enfrentar as problemáticas do tempo sucessivo ao Concílio Vaticano II. Evoquemos mais uma vez o interesse pastoral e antropológico do Papa. «O caminho da Igreja é o homem». O significado autêntico desta afirmação, muitas vezes mal entendida, contida na Encíclica sobre o Redentor do homem», só pode ser verdadeiramente compreendido, se nos recordarmos que para o Papa, o «homem» em sentido pleno é Jesus Cristo. A sua paixão pelo homem nada tem a ver com um antropocentrismo auto-suficiente. Aqui, o antropocentrismo está aberto para o alto.

Todo o antropocentrismo que vise eliminar Deus como concorrente do homem já se transformou há muito tempo em tédio do homem e para o homem. O homem já não pode considerar-se centro do mundo. Ele tem medo de si mesmo, por causa do seu próprio poder destruidor. Quando o homem é colocado no fulcro, excluindo Deus, o equilíbrio global permanece alterado: então, é válida a palavra da Carta aos Romanos (cf. 8, 19.21-22), na qual se afirma que o mundo é arrastado para a dor e o gemido do homem; corrompido em Adão, está desde então à espera do aparecimento dos filhos de Deus, da sua libertação. Precisamente porque o Papa ama o homem, ele gostaria de lhe abrir as portas a Cristo. Uma vez que, só mediante a vinda de Cristo os filhos de Adão podem tornar-se filhos de Deus, e o homem e a criação alcançam a sua liberdade.

Portanto, o antropocentrismo do Papa é, no seu núcleo mais profundo, teocentrismo. Se a sua primeira Encíclica concentrou-se sobre o homem, as suas três grandes Encíclicas coordenam-se naturalmente entre si num grande tríptico trinitario: no Papa, o antropocentrismo é teocentrismo, porque ele vive a sua vocação pastoral a partir da oração, faz a sua experiência do homem na comunhão com Deus e a partir daqui aprendeu a compreendê-la.

Uma última observação. O profundo amor do Papa por Maria é sem dúvida, antes de tudo, uma herança que lhe advém da sua pátria polaca. Mas a Encíclica mariana demonstra como esta piedade mariana foi nele biblicamente aprofundada na oração e na vida. Do mesmo modo em que a sua filosofia se tinha tornado mais concreta e vivificada mediante fenomenologia, ou seja, através do olhar dirigido para a realidade aparente, assim também a relação com Cristo não permanece para o Papa no abstracto das grandes verdades dogmáticas, mas torna-se um encontro humano concreto com o Senhor, em toda a sua realidade e, desta maneira, logicamente, também um encontro com a Mãe, no qual Israel crente e a Igreja orante se tornaram pessoa.

Mais uma vez, é sempre e só a partir desta proximidade concreta, em que se vê o mistério de Cristo em toda a riqueza da sua plenitude divino-humana, que a relação com o Senhor recebe o seu calor e a sua vitalidade. E, naturalmente, é algo que se repercute em toda a imagem do homem, o facto de que esta resposta da fé adquiriu uma figura para sempre numa mulher, em Maria.

O que quero dizer com tudo isto? A minha finalidade consistia em demonstrar a unidade entre mistério e pessoa, na figura do Papa João Paulo II. Ele «identificou-se» realmente com a Igreja e, por conseguinte, também pode ser a sua voz. Tudo isto não é dito para glorificar uma criatura humana, mas para demonstrar que o crer não extingue o pensar, e não tem necessidade de excluir a experiência do nosso tempo. Pelo contrário: somente a fé confere ao pensamento a sua abertura, e à experiência o seu significado. O homem não se torna livre, quando se faz solista, mas quando consegue encontrar o grande contexto ao qual pertence.

Dez anos de pontificado de João Paulo II. A amplitude da sua mensagem já parece ser incalculável, imensa. Desejei referir-me com poucos traços às energias portadoras que constituem a sua força profunda e, ao mesmo tempo, tornar deste modo mais compreensível a meta que ele nos indica. O Senhor queira conservar-nos este Papa ainda por muito tempo, a fim de que ele nos sirva de guia ao longo do caminho rumo ao terceiro milénio da história cristã.

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23 de Setembro de 2019

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