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​Hospedeiras e cortesãs

· Mulheres nos jubileus entre a era medieval e a moderna ·

O primeiro jubileu da história da cristandade foi o de 1300, proclamado como se sabe pelo Papa Bonifácio VIII. Uma enorme afluência de peregrinos chegou a Roma, a ponto que a cidade, que não possuía estruturas de acolhimento, hospedarias e albergues, não conseguia recebê-los. A multidão era tal que, como recorda Dante no XVIII canto do Inferno, foi introduzida a circulação alternada para atravessar a Ponte Sant'Angelo. Nos séculos seguintes, será ainda pior, e os peregrinos pertencentes a diversas confrarias confrontam-se à mão armada na ponte para terem direito de precedência.

Foi por ocasião do jubileu de 1300 que os romanos se improvisaram albergadores transformando as suas casas em hospedarias, um costume que teria continuado por muito tempo, até aos nossos dias. Nesta obra de acolhimento, as mulheres desempenharam um papel fundamental quer naquela época, no primeiro jubileu, quer nos sucessivos. Menos numerosas que os homens no papel de peregrinas – considerando os riscos e as dificuldades dos longos percursos a pé através de lugares desconhecidos e cheios de perigos não só para a sua bolsa mas também para a sua castidade – as mulheres souberam ao contrário, em Roma, tornar-se albergadoras, hospedeiras, enfermeiras e aliviar as fadigas dos peregrinos com alimentos, bebidas, quartos quentes e camas confortáveis. Muitas vezes, se não na realidade pelo menos no receio das autoridades da cidade, entre todas estas mulheres hospedeiras podiam esconder-se também prostitutas, e as autoridades desconfiavam das hospedarias sem letreiro e procuravam, em vão, controlá-las e desencorajá-las.

Mattius Meyvogel, «Caritas Romana» (1628)

Até meados do século XVI o jubileu representou um verdadeiro negócio para os albergadores, dado que o acolhimento era a pagamento e os peregrinos tinham que ficar em Roma pelo menos quinze dias para cumprir repetidas visitas às basílicas a fim de lucrar a indulgência plenária. Quinze dias durante os quais precisavam de dormir e comer. Mas a partir da segunda metade do século XVI, em clima de crescente disciplinamento religioso, o aspecto mercenário do acolhimento durante o jubileu atenua-se fortemente porque a rede de hospedarias e albergues mais ou menos improvisados é substituída pela rede de hospitais e confrarias que desempenham o seu papel de assistência gratuitamente, como dever religioso.

A peregrinação assume um crescente carácter de grupo, diminuem os peregrinos isolados, aumenta o papel das confrarias laicas. O papel das mulheres é também aqui muito importante, em particular o das mulheres das camadas superiores, aristocráticas e da alta burguesia, que se prodigalizam no acolhimento, lavam os pés aos peregrinos, servem-nos à mesa. São elas as responsáveis da organização do acolhimento, recolhem fundos, financiam as hospedarias e os hospitais.

Mas sigamos um pouco mais de perto este percurso. Se o jubileu de 1300 se caracteriza pelo surgimento de albergues e hospedarias, um pouco como os bed and breakfast de hoje, também nos sucessivos o problema de como alojar, alimentar e assistir um número tão elevado de peregrinos permaneceu aberto. Sobretudo no importante jubileu de 1450, que pareceu marcar o final da decadência de Roma depois do cativeiro em Avinhão e do grande cisma e dar início à grande estação urbanística que lhe teria mudado o aspecto, Roma atraiu um número incrível de peregrinos, a ponto que nela se contavam 1022 albergues oficiais, ou seja, munidos de regular letreiro, e muitos outros não oficiais, isto é, casas transformadas em hospedarias. O problema da hospitalidade a dar aos peregrinos era um dos mais urgentes entre os que caracterizaram aquele ano santo: muitos dormiam ao relento, e mesmo tendo aumentado muito o seu número, hospedarias e albergues não eram suficientes em relação à procura.

No jubileu de 1500 desempenhou um papel importante na organização do acolhimento Vannozza Caetani, a amante do cardeal Rodrigo Borgia que subiu em 1492 ao sólio pontifício, mãe dos seus quatro filhos. Quando deixou de ser a favorita de Alexandre VI, Vannozza transformou-se numa hábil mulher de negócios e tornou-se entre outras coisas hospedeira, aproveitando-se da circunstância do jubileu para assumir a gestão de cinco hospedarias, entre as quais a da Vacca, uma das melhores a cidade, onde ao que parece, além de cama e comida, eram oferecidas aos peregrinos também cortesãs e prostitutas. Neste caso, com a indulgência plenária que seria lucrada nos dias seguintes seriam cancelados todos os seus pecados. O modelo comportamental seguido pela ex-favorita do papa é o mesmo das mulheres do povo romanas, mas praticado a um nível superior. Vannozza investe, ganha, alarga os seus negócios com o ano santo, aproveitando também do tratamento de favor que contudo as autoridades não podiam deixar de ter em relação àquela que era a mãe dos filhos do pontífice. Com efeito não está isenta da suspeita de usura e de lenocínio.

É em meados do século XVI, no clima de renovado fervor devocional, que o acolhimento de peregrinos se torna também e sobretudo uma forma superior de piedade religiosa. As confrarias, que aumentam sempre mais, apetrecham-se para receber gratuitamente os peregrinos. São Filipe Néri funda em 1548 a arquiconfraria da Santa Trindade dos peregrinos. Na hospedaria da Santa Trindade, como na das confrarias, homens e mulheres são acolhidos separadamente. Aumenta o número das peregrinas, talvez nem sequer tão baixo desde o início como se costuma pensar, dado que temos testemunhos que nos revelam uma notável presença feminina.

Mas é na assistência que o papel feminino se torna deveras dominante. Nasce a iconografia da Piedade romana, uma mulher impudente a amamentar um velho, que encontramos em muitas pinturas da época, de Caravaggio a Rubens, num simbolismo totalmente barroco. O papel feminino desenrola-se sobretudo a nível das camadas sociais superiores, no envolvimento das mulheres da nobreza na obra das confrarias e na assistência. Luxuosamente vestidas, as mulheres nobres romanas servem os peregrinos à mesa e depois lavam-lhes os pés, empoeirados pelo caminho longo. Aconteceu também que entre estas damas nobres conseguisse infiltrar-se alguma cortesã de alto nível, para desempenhar também ela a tarefa, gratificante e honrada, de cuidar e aliviar os peregrinos.

Nesta espécie de purificação, na qual o luxo mais desenfreado se aproximava da miséria, as sedas coloridas de roupas consumidas e sóbrias dos peregrinos, participou no jubileu de 1675 também Cristina, a rainha da Suécia convertida ao catolicismo e que se transferira para Roma. Personagem bastante fora do comum, Cristina pretendia um papel primário não só na assistência mas até na gestão do jubileu. Era a rainha de Roma, ou pelo menos assim era considerada pelos romanos. Na cerimónia de abertura da Porta Santa, contra qualquer etiqueta, a sua voz um pouco rouca e masculina elevou-se em alto som para reprovar alguns gentil-homens protestantes ingleses que não se tinham ajoelhado. Todos a ouviram, inclusive o papa, mas todos fizeram de contas que não a ouviram. Com ela, assim como com outros personagens femininos da época, também a caridade do acolhimento se tinha transformado num teatro barroco, com a aparente finalidade de ser exemplo e com aquele nem sequer tão escondido de brilhar acima dos outros, e sobretudo das outras mulheres.

A era das mulheres hospedeiras e a das damas caritativas que se prodigalizam no acolhimento termina com a modernidade, com a crise da Igreja no século XVIII, com o fim do poder temporal dos papas. Homens e mulheres exercem uns ao lado dos outros a tarefa religiosa da peregrinação do ano santo. A rede das paróquias, das confrarias, das instituições religiosas substituirá – mesmo se não completamente – a medieval das casas transformadas em hospedarias. As prostitutas, fechadas nos bordeis até a anos bastante recentes, deixarão de se infiltrar, com roupas vistosas, entre as mulheres nobres intencionadas a exercer a caridade cristã. Confundi-las já não é possível.

A peregrinação, de momento arriscado de passagem de um limiar, transforma-se numa viagem, que já não é feita a pé como nos séculos da Idade Média e da primeira idade moderna, mas de comboio, de autocarro, munido de algum conforto. As mulheres ainda são hospedeiras? Talvez sim, mas como proprietárias ou empregadas das agências imobiliárias, sem misturar a piedade religiosa com a vontade de lucros ou de mundanidade.

Anna Foa

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21 de Outubro de 2019

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