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Qualquer terra é pátria para quem é forte

· História de Olímpia ·

Um rosto com traços regulares e de um redondo perfeito, olhos grandes, aveludados e um olhar um pouco melancólico, como se visse a vida que tinha diante. No retrato que ficou dela, Olímpia tem um vestido sumptuoso com uma gorjal segundo a moda espanhola da época. Para dissolver a rígida preciosidade do conjunto, sobre os cabelos suavemente recolhidos um delicado penteado, feito de pequenas flores que descem sobre o rosto quase a acariciando-o. É a Olímpia da primeira juventude, a jovem precoce e talentosa, que entrou a fazer parte do ambiente culto, elegante e faustoso da corte astense.

Filha de Fúlvio Peregrino Morato e de Lucrécia Gozzi, Olímpia nasceu em Ferrara em 1526. Do pai, homem de letras e mestre de latim, recebeu a primeira educação humanista e através dele, seduzido pelo pensamento de Erasmus e convencido da necessidade de uma profunda renovação da Igreja, aproxima-se da doutrina da Reforma. A entrada na corte, como companheira de estudos de Ana d’Este, primogénita de Hércules II duque de Ferrara e de Renata de França, é para a jovem Olímpia uma extraordinária oportunidade: mestres excelentes, uma biblioteca riquíssima e contactos com tantos homens de cultura.

E’ um tempo feliz feito de estudo apaixonado e de muitas descobertas. Olímpia, que já domina o grego e o latim com desenvoltura, começa a compor: poemas, comentários a autores clássicos, traduções que no estilo ainda demonstram uma certa rigidez escolástica, mas revelam cultura, sensibilidade e uma surpreendente capacidade de análise. Olímpia descobre que possui talento e não se lamenta, como acontecia então a tantas mulheres que, destinadas ao “governo da família” ou ao convento, sentiam o talento não como um dom mas como um castigo. Ela, pelo contrário, reclama com força a liberdade, apesar de ter nascido mulher, de viver entre “os prados florescidos das Musas”. O fuso, a agulha e o tear, instrumentos símbolo da restringida vida feminina, não exercem sobre ela alguma atracção. Para Olímpia, que segue as infinitas vozes contidas nos livros, o rumor deles é somente “silêncio”.

O ambiente familiar antes e o da corte depois, favorecem a adesão de Olímpia à Reforma. A duquesa Renata tinha fundado um requintado cenáculo que acolhia humanistas reformados e exules franceses suspeitados de heresia. Uma pequena corte no coração da corte astense onde foi também hospedado Calvino, que chegou a Ferrara em 1536 com um falso nome.

Em 1548 dá-se o ponto de viragem. Olímpia deixa a corte para assistir o pai moribundo e nunca mais poderá retornar, junto com outros é afastada por Hércules, decidido a combater aquele vento de heresia que ameaçava o seu esplêndido mas frágil ducado, feudo do Estado da Igreja. Dois anos depois casa-se com Andreas Grunthler, um jovem médico alemão que tinha aderido à Reforma e para escaparem das perseguições os dois decidem de partir para a Alemanha. Na Europa incendiada pelas lutas de religião, Olímpia faz da sua vida um testemunho. Dedica-se ao estudo das Escrituras e medita sobre temas como a liberdade de consciência, a dignidade feminina, a força da fé capaz de “vencer o mundo”.

Ma saudade pungente dos afectos a literatura torna-se escritura epistolar: à família, às amigas, aos humanistas, aos teólogos protestantes em um diálogo intenso e envolvente que celebra juntos o amor humano e o divino.

Convencida «que qualquer terra é pátria para quem é forte» enfrenta com coragem as etapas do seu triste exílio: Kaufbeuren, Würzburg e por fim Schweinfurth onde vivem o longo cerco da cidade e salvam-se graças a uma aventurosa fuga.

Coberta por farrapos e devorada por uma febre ardente Olímpia chega finalmente à douta cidade de Heidelberg. Não possuem mais nada, até os livros e os manuscritos se perderam, mas os dois estão salvos. Parece que finalmente inicia um período de paz: Andreas obtém uma cátedra de medicina na universidade, Olímpia ensina latim e grego e rescreve o que recorda das suas obras que se perderam.

No entanto a doença vai piorando. A última carta é para o humanista Célio Segundo Curione, amado como um segundo pai, o mestre que acreditava na tolerância religiosa e no valor do conhecimento para chegar “da sombra das coisas” às “coisas”. Olímpia morre de tuberculose em 26 de Outubro de 1555. Tinha só 29 anos.

Francesca Romana de’ Angelis

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20 de Setembro de 2019

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