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História de Ester (e dos seus diários)

Ester, chamada Etty, nasceu numa família de intelectuais judeus, aberta a amplos interesses culturais. Preferiu a literatura e a língua russa, que aprendeu com a mãe, que trazia as cicatrizes de um progrom do qual tinha conseguido escapar; amou os clássicos dos quais o pai estava impregnado, professor de latim e grego, enquanto que os dois irmãos lhe desvelaram a música e a medicina. O ambiente familiar não é sereno nem lhe transmite segurança, a educação que se imprime nela está saturada de modernidade e livre de qualquer esquema. Durante a adolescência iniciam as aventuras amorosas que a destroem devido ao excessivo investimento psicológico e nunca saciado. Licencia-se em Amesterdão (para grande surpresa de todos escolhe jurisprudência), dá-se conta que apenas com 27 anos já está a sucumbir: o seu sentir psíquico e psicológico não está equilibrado. O conhecimento do ecléctico Spier – cantor, editor, banqueiro e quirólogo formado na escola de Jung – conduzi-la-á lentamente ao domínio de si, livrando nela um amor verdadeiro e desinteressado. É a Spier que devemos os Diários . Ele entendeu que a veia de escritora de Etty deveria ser despertada, pois só escrevendo ela teria dado os passos capazes de a curar. De «novelo emaranhado» a fio doado e suave ajuda aos judeus perseguidos. Foi um feito enorme. Para nós constitui um documento em directa, não tanto das infâmias nazis (escreve Etty «não sinto dela a necessidade», referindo-se a uma possível documentação para ser deixada para a posteridade), mas de uma luz que atravessa as trevas de um período histórico dos mais sombrios da história europeia. Luz que a transfigurou e que vai transfigurando quem se aproxima das oitocentas páginas que constituem o diário, dez cadernos que escaparam, graças à dedicação dos amigos, à fúria da guerra e do Shoah. A partida definitiva de Etty para o campo de trânsito de Westerbork, por onde passaram 107.000 judeus holandeses (sobreviveram 5.200), primeiro passo para aquela grande vala comum que se chama Auschwitz, não foi uma captura mas um espontâneo entregar-se para partilhar o destino do seu povo. Na última tarde de liberdade, a amiga Maria Tuinzing viu-se confiar a preciosa carga para a passar ao outro amigo, o escritor Klaas Smelik. A ida sem volta era para Etty uma realidade da qual estava consciente, portanto entregou-se a si própria, fechada nos cadernos, a Smelik para que providenciasse à sua publicação. Por causa da guerra, chegaram-lhe às mãos somente em 1946 (ou 1947), junto com uma colecção de cartas, e procurou um editor. Os tempos ainda não estavam prontos? Não foi entendido o valor daqueles cadernos? É estranho que, pelo contrário, as cartas escritas por Westerbork já tivessem sido impressas em 1943, o mesmo ano em que Etty foi assassinada em Auschwitz, no dia 30 de Novembro. A gestação do que viria a ser o Diário foi trabalhosa. Em 1979 o filho de Smelik entregou nove cadernos ao editor J. G. Gaarland, que soube apreciar a sua beleza. Chegou-se assim à publicação em 1986. Quem sabe se o sétimo caderno surgirá de um arquivo qualquer. Por enquanto não se encontra.

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18 de Agosto de 2019

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