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História da diferença biológica

· ​Em noventa mil carateres ·

Épocas diversas expressaram diversas visões científicas das diferenças entre homem e mulher, visões elaboradas com base nos conhecimentos do momento mas também inspiradas pelas conceções dominantes da família e das organizações sociais, e marcadas em geral por uma forte orientação ideológica «masculinocêntrica», tendente a fundar cientificamente a inferioridade feminina.

No século XX os antropólogos estudavam os seres humanos analisando e medindo formas e órgãos do corpo: por conseguinte afirmavam que o cérebro das mulheres é mais semelhante aos dos macacos antropomorfos do que ao do macho da espécie humana, chegando assim a demonstrar que as mulheres têm menores capacidades intelectuais. Também a fisiologia percorria este caminho: o alemão Carl Vogt afirmava que as mulheres apresentavam com mais frequência do que os homens carateres animalescos, como o maxilar saliente, e partilhava com muitos outros cientistas a opinião segundo a qual as mulheres ocupavam na escala evolutiva um lugar intermédio entre o macaco e o homem.

uma cena do filme «2001: odisseia no espaço» de Stanley Kubrick (1968)

Nos últimos decénios daquele século Cesare Lombroso desenvolve a sua teoria sobre o atavismo de algumas formas de comportamento humano e afirmava, entre outras coisas, que mulheres, animais e crianças mostram uma tolerância mais elevada à dor, considerando esta caraterística não como um dado positivo, mas como uma caraterística próxima dos animais.

No mesmo período Darwin argumentava ao contrário a superioridade masculina em termos evolucionistas, fazendo do homem, mais ativo, inventivo e propenso à mudança, o motor da evolução. Sobre esta hipótese a ciência orientou por muitos decénios as pesquisas sobre as diferenças, cognitivas e não só, entre homens e mulheres.

No início do século XX tornou-se dominante a teoria metabólica do sexo, elaborada por Patrick Geddes e John Arthur Thomson, os quais julgaram fundar esta mesma dicotomia masculino/feminino-mutação/conservação fundando-se unicamente na biologia experimental e sobre as leis mecanicistas da fisiologia. Geddes e Thomson pensavam que o desenvolvimento em sentido feminino ou masculino dependesse do estado metabólico: supunham que as mulheres conservassem a energia produzida pelos processos celulares, enquanto que os homens dela utilizassem o excedente. No momento da determinação do sexo, o seu desenvolvimento num sentido ou no outro dependia do tipo de metabolismo adotado, também em relação às condições ambientais: em condições de alimentação abundante predominava o fenótipo feminino, em condições adversas o masculino. Na visão dos dois cientistas o estado metabólico tinha influência também sobre os aspetos psicológicos e comportamentais, sendo as mulheres passivas, conservadoras, pouco interessadas pelo social e pela política, e os homens empreendedores, ativos, orientados para a dimensão pública.

Um novo modelo, o hormonal, que se afirmou nos anos vinte do século passado, alimentou uma grande fileira de pesquisa que, contudo, não produziu resultados unívocos. As hormonas sexuais dos esteroides são produzidos por testículo e ovários, que representam o dimorfismo sexual mais importante, mas estão presentes em ambos os sexos, mesmo se com perfis de expressão diferentes. E a ação das hormonas sexuais é de tipo específico, masculinizante ou feminilizante, independentemente do sexo do indivíduo no qual eles agem.

Remonta ainda ao início do século XX a descoberta da ordem diversa dos cromossomas X e Y nos dois sexos, que obteve contudo a máxima atenção só por volta dos anos cinquenta, com o estudo das anomalias cromossómicas. Nos decénios seguintes a pesquisa das diferenças sexuais nos cromossomas X e Y levou a atribuir aos machos XYY a síndrome do super-macho, fundada no pressuposto que um duplo cromossoma Y redobrava a masculinidade e, influindo diretamente sobre o comportamento, induzisse a uma sexualidade mais ativa e agressiva. Depois de alguns anos de publicações importantes sobre o argumento, um cuidadoso estudo epidemiológico demonstrou o não fundamento da atribuição ao macho XYY de um comportamento «geneticamente» violento.

Em 2001 deu-se a viragem fundamental: foi publicada toda a sequência do genoma humano, e desde então está orientada para a identificação de diferenças medíveis nos genomas masculinos e femininos que possam evidenciar a influência do sexo e do género sobre a fisiologia (incluídas as diferenças cognitivas), a fisiopatologia e a patologia humana. É evidente que um incremento dos conhecimentos neste âmbito teria consequências profundas não só em âmbito médico.

A partir de então a pesquisa move-se nas disciplinas da genética, da genómica e da epigenética (o estudo das alterações hereditárias que mudam a expressão genética, mas não a sequência do Adn). A pesquisa das diferenças sexuais no genoma humano, denominado «sexoma», propõe-se descrever as diferenças conhecidas com a linguagem da genética, mas também de descobrir diferenças ainda hoje desconhecidas.

A importância do novo campo de estudos deu origem a instituições específicas: a Society for Women's Health Research, fundada em 1989 por uma associação de obstetrícias e ginecólogos americanos, escolheu como missão não se ocuparem unicamente da saúde das mulheres em relação à produção, mas de ampliar os objetivos da própria pesquisa às diferenças de género face ao surgimento e à cura de condições patológicas em geral. Este trabalho produziu como primeiro resultado o report Exploring the contribution to human heath: does sex matters?, publicado em 2001: nele afirma-se que o sexo tem um efeito profundo sobre a função de células e órgãos e que é necessário compreender a sua influência sobre a biologia, do nível molecular até ao do inteiro sistema, inclusive a interação com o ambiente.

Em 2005 a revista «Nature» publicou um artigo que reproduzia o sequenciamento do cromossoma X humano e avançava a hipótese de que a diferença nos dois genomas, masculino e feminino, fosse muito mais elevada de quanto se pensava até àquele momento, até mais elevada do que a diferença entre o genoma humano e o do chimpanzé. Sucessivamente, esta diferença foi fortemente reelaborada, mas sobretudo compreendeu-se que o estudo da influência dos genes em determinar os caracteres sexuais é muito mais complexo, porque diz respeito não só à ordem de cromossomas e genes, mas também aos mecanismos moleculares e epigenéticos que controlam a expressão genética. Além disso, a ação dos genes deve ser contextualizada num sistema fisiológico no qual se possa observar os seus efeitos: o mesmo gene, expresso igualmente em machos e fêmeas, poderia ter efeitos diferentes.

À luz das novas descobertas voltou-se portanto a estudar o cérebro: uma controvérsia ainda atual verte sobre o possível dimorfismo entre cérebro masculino e feminino, ou seja, sobre a possibilidade que exista um dualismo das estruturas cerebrais relacionado com o sexo, dualismo sobre o qual se instauraria uma configuração psicológica sexo-específica. Disto são exemplo as pesquisas sobre o corpo caloso, uma estrutura cerebral que por muito tempo foi estudada por ser um elemento capaz de explicar as diferenças entre machos e fêmeas no comportamento e nas capacidades cognitivas.

Num artigo publicado em 2015, Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic, os autores enfrentaram a questão do funcionamento do cérebro nos dois sexos quantificando as diferenças estruturais nos cérebros de um elevado campeão de sujeitos através dos dados de ressonância magnética. Os resultados obtidos mostram que os cérebros humanos não pertencem a duas classes, «masculina» e «feminina», mas que as diferenças relacionadas com o sexo são descritíveis como um mosaico de caracteres, alguns mais frequentes nas mulheres, outros mais difundidos nos homens, outros ainda igualmente expressos. De novo, nenhuma resposta certa e unívoca.

Portanto, a visão biológica das diferenças sexuais mudou com o tempo, seguindo as teorias e as ideologias dominantes em cada contexto histórico, e os interesses da pesquisa médica. Para identificar e definir a essência da diferença sexual foram chamados em causa os órgãos reprodutivos, a cor e a densidade do sangue, a grandeza e a lateralização do cérebro, as hormonas. Hoje, em sociedades «progredidas» nas quais o conceito masculino/feminino é fluido e controverso, é privilegiada a linguagem da genómica para explicar e descrever as diferenças de sexo e de género. Mas permanece aberta a pergunta sobre quanto estas diferenças, diversas das que se relacionam com a reprodução ou que estão sob a influência das hormonas sexuais, estejam radicadas na biologia e quais sejam os seus determinantes biológicos.

A força desta pergunta consiste na autoridade que se reconhece ao método científico de fornecer respostas objetivas: diferenças que estivessem radicadas na constituição biológica dos sexos seriam por isso categorias universais e naturais. O determinismo biológico tem implicações muito sérias: por exemplo, poderia justificar o recurso a categorias como a de hierarquias sexuais, e por isso é necessária muita cautela ao avaliar dados científicos que se proponham como fundamento e explicação mono-causal das diferenças entre homens e mulheres.

Mariella Balduzzi

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17 de Agosto de 2019

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