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​A história aberta

No dia do vigésimo quinto aniversário da ordenação episcopal o Papa quis celebrar com os cardeais na capela Paulina, na qual o idoso Michelangelo representou a conversão de Paulo e a crucificação de Pedro. E neste lugar que honra com uma elevadíssima expressão artística a vicissitude dos dois apóstolos, desde a chamada até ao ápice do testemunho, o Pontífice meditou sobre a sua vocação e a de quem é chamado sobretudo a servir, na vigília da sua quarta criação cardinalícia, na festa dos padroeiros da Igreja de Roma.

O que inspirou a reflexão de Francisco foram três palavras de Deus a Abrão, «três imperativos que delineiam o caminho» futuro do patriarca, mas «também o modo de agir, a atitude interior: levanta-te, olha, espera». Fruto, como de costume, de uma longa meditação, a homilia improvisada do Papa evocou a dimensão do caminho, do «não ficar parado» como sinónimo da missão, caraterística da sua vida e da tarefa dos seguidores de Cristo e da sua Igreja. E como símbolo Bergoglio usou a tenda: «Abrão nunca construiu uma casa para si, pois havia o imperativo: Levanta-te! Só elevou um altar: a única coisa, para adorar aquele que o mandava levantar-se, pôr-se a caminho, com a tenda».

Depois, comentando o segundo imperativo de Deus («olha»), o Pontífice descreveu «a mística do horizonte», um horizonte sem muros: isto é, a dimensão que leva a «ampliar o olhar, alongá-lo para a frente, caminhando rumo ao horizonte». Por fim, a esperança na promessa, uma perspetiva impossível para o olhar humano: «E isto, dito a um homem que não podia deixar herdeiros, quer pela sua idade quer pela esterilidade da esposa».

Neste contexto interpretativo colocou-se a atualização da Escritura, já praticada no judaísmo antigo com o método do pesher, e aplicada pelo Papa a si mesmo e aos cardeais: «Esta palavra de Deus é dirigida também a nós, que temos uma idade como a de Abrão», e «diz-nos que a nossa história ainda está aberta: permanece aberta até ao fim, aberta com uma missão». Mas com uma reivindicação clara: não somos uma gerontocracia, exclamou o Pontífice. Aliás «somos avós para os quais os nossos netinhos olham, avós que devem dar-lhes um sentido da vida com a nossa experiência, não avós fechados na melancolia da nossa história» mas «chamados a sonhar e a oferecer o nosso sonho à juventude de hoje», que tem muita necessidade disto e receberá «dos nossos sonhos a força para profetizar e levar em frente a sua tarefa». Como o velho Simeão e a profetisa Ana que falaram a José e Maria.

A quarta criação cardinalícia do pontificado de Francisco deve ser interpretada à luz desta meditação. As suas escolhas neste âmbito, segundo uma tendência iniciada não por acaso poucos meses depois da segunda guerra mundial por Pio XII, dão um ulterior impulso à dimensão internacional do colégio e, portanto, ao seu alcance universal. Com um acento de evidente significado pastoral: os cardeais criados nesses anos por Bergoglio são em larguíssima predominância bispos residenciais.

g.m.v.

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18 de Agosto de 2019

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