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Guiado pelo seu entourage feminino

· Teilhard de Chardin e as mulheres ·

A maioria das pessoas conhece Pierre Teilhard de Chardin como cientista e sacerdote, mas poucos sabem que ele foi também um grande amante. Como cientista, ele tornou-se célebre pela sua teoria da evolução. Como sacerdote jesuíta, ofereceu-se completamente a Deus. Entrou na Companhia de Jesus em 1899, foi ordenado presbítero em 1911 e emitiu os votos solenes em 1918. Não obstante as provações que teve de enfrentar durante a sua vida tumultuosa, ele nunca pôs em questão a sua vocação original. Permaneceu por toda a sua vida um sacerdote e um cientista. O universo apresentava-se a Teilhard como uma realidade viva, dinâmica e pessoal. Ele repetia com frequência que o universo possui um espírito, um coração e um semblante. No final, este rosto tornar-se-á para ele a face de Cristo. Inspirado pelo Eterno feminino, representado pela Beatriz de Dante, Teilhard desenvolveu a sua teologia de um princípio unitivo. Beatriz é por ele interpretada como Maria. Sucessivamente, esta beleza concretizar-se-á em várias mulheres.

Jesuíta, sacerdote e cientista, como uniu Teilhard de Chardin o amor a Deus com o amor por uma mulher? Como tirou ele proveito desta experiência amorosa?

Para Teilhard, o universo não é um Ele, mas um Tu, que se preocupa comigo e se compromete num diálogo comigo. No seu Hino à matéria lemos: «Saúdo-te, Ambiente divino, repleto de poder criador, Oceano movido pelo Espírito, Barro misturado e animado pela Palavra encarnada (…). Se quisermos possuir-te, é necessário que te sublimamos na dor, depois de te apertar voluptuosamente nos nossos braços». Para Teilhard, a ascensão espiritual era uma comunhão com Deus através da Mãe Terra. A fé no Senhor Ressuscitado levou-o à noção de Cristo cósmico, cheio de amor-energia, para renovar o cosmo. Nesta investigação mística, Teilhard de Chardin foi acompanhado, estimulado e, aliás, até guiado pelo seu entourage feminino.

A Divina Comédia de Dante e o Eterno feminino de Goethe, na segunda parte de Faust, inspiraram Teilhard a descobrir o Eterno feminino. No prefácio das suas Letters, Thomas King escreve: «Em Março de 1918 Teilhard redigiu um ensaio intitulado O Eterno feminino. Nele, explica que “quando o homem ama uma mulher, imagina antes de tudo que o seu amor se dirige somente para alguém como ela, que a abraça com o seu poder e que se une livremente a ela”. Mas é depressa surpreendido pela violência das forças que se desencadeiam nele, e “treme ao compreender” que não se poder unir ao feminino, sem “se tornar escravo de um trabalho de criação universal”. Deste modo, o Feminino é sentido como uma força que convida o homem a sair de si mesmo para entrar na Vida. O Evangelho recomendou a virgindade, mas isto não significa de modo algum que o Feminino devia perder o seu poder. A Virgindade não devia exilar o amor do coração do homem: “Pelo contrário, o seu dever consiste em permanecer fundamentalmente um homem”».

Segundo Henri de Lubac, o motivo pelo qual Teilhard mudou o nome de Beatriz em Beatrix porque queria transformar o ideal virginal presente em Dante numa Virgem cristã em particular, Maria. A primeira, vagamente identificada, encoberta com um véu como símbolo, não pode revelar o mistério do Feminino na sua essência mais pura. Ao contrário, Nossa Senhora, como Mãe do Verbo Encarnado, é uma pessoa real. Através de Maria, Teilhard reflectiu a sua vocação e o modo como devia levar a sua vida no celibato consagrado.

Foi somente depois da longa formação, que se concluiu em 1911 com a sua ordenação, quando já tinha trinta anos e estava a especializar-se em paleontologia em Paris – que ele viveu a sua primeira experiência amorosa. Este episódio teria influenciado a sua visão do Feminino. Marguerite Teilhard-Chambon, distante prima de Pierre, seis meses mais velha do que ele, tinha crescido também ela em Clermont-Ferrand. Quando eram crianças, compartilharam muitas experiências. Em seguida, Marguerite transferiu-se para Paris, onde obteve a habilitação em filosofia e ensinou numa famosa escola. O seu encontro, depois de um longo período de separação, tornou-se uma etapa importante na educação sentimental de Teilhard. O encontro entre o jovem sacerdote e a sua prima foi, em todos os sentidos, um verdadeiro encontro de amor. Assim Ursula King descreve a história: «Teilhard só descobriu o pleno poder do “ideal feminino” e da “beleza inalterável” quando voltou a encontrar a sua prima Marguerite como mulher adulta, culta, dotada de espírito delicado, cheia de fascinação e muito gentil, munida de profunda fé e devoção. Encontraram-se nas vésperas da guerra e apaixonaram-se. Ela foi a primeira que se pôs a ouvir o desenvolvimento das suas ideias, mas foi também a sua primeira leitora, assim como o seu primeiro crítico. Entre eles havia uma colaboração espiritual e intelectual, mas Marguerite foi inclusive a primeira mulher que o amou como homem, e foi ainda graças a ela que Teilhard se encontrou plenamente a si mesmo. A descoberta do seu amor por Marguerite e a resposta amorosa desta última teriam mudado tudo. Era precisamente a energia da qual ele tinha necessidade para que as suas ideias fermentassem e se organizassem de modo completo» (Spirit of Fire).

Dezembro de 1914: Teilhard alista-se no exército. Da frente escreve a Marguerite muitas missivas e entende que o celibato não exclui uma certa intimidade com o outro sexo. No seu elogio ao Eterno feminino, leva a mulher a dizer: «Quem ouve o chamamento de Jesus não deve afugentar o amor do seu coração. Pelo contrário, tem o dever de permanecer essencialmente humano. Portanto, ainda precisa de mim para sensibilizar as suas forças e despertar a sua alma para a paixão pelo divino». Num dos seus últimos livros, O coração da matéria, Teilhard diz que ninguém, não obstante se tenha dedicado à causa de Deus, pode encontrar um caminho rumo «à maturidade e à plenitude espiritual, para além de qualquer influência sentimental que nele possa sensibilizar a inteligência e estimular, pelo menos inicialmente, a força de amar. Não mais de quanto possa renunciar à luz, ao oxigénio ou às vitaminas, nenhum homem pode renunciar ao Feminino».

Depois de Marguerite, Teilhard estabeleceu um profundo relacionamento com Léontine Zanta, Ida Treat, Lucille Swan, Rhoda de Terra, Claude Rivière, Jeanne Mortier e outras mais, contudo sem nunca se desviar da sua finalidade: cada amor por uma mulher é por Deus, com Deus e, em última análise, deverá convergir em Deus. O seu amor por cada mulher foi uma relação «a três termos: o homem, a mulher e Deus». Esta forma triangular de amor, ou de amor-a-três, foi em Teilhard o princípio do amor não apenas para ele e para os religiosos, mas para toda a humanidade. «Em breve para vós só restará Deus, num Universo inteiramente virginizado. Em mim, é Deus que vos espera!».

Vejamos agora que maravilhosa amizade uniu Teilhard e Lucille Swan, e o preço que ele pagou para manter este relacionamento. Encontraram-se pela primeira vez em Pequim, em 1929. A sua lua de mel na cidade proibida durará doze anos. Teilhard desenvolveu em grande parte o seu poder criador, graças aos diálogos com Lucille. A sua correspondência, encetada em 1932, continua durante vinte e três anos. O falecimento desta americana transtornou os seus princípios do amor-a-três.

Lucille era escultora, divorciada e tinha acabado de chegar a Pequim, proveniente de Iowa. Conheceu Teilhard através do doutor Grabau, um geólogo norte-americano, no Outono de 1929. Teilhard tinha quarenta e oito anos, Lucille nove a menos. Os dois tornaram-se bons amigos. Em 1932 Lucille realizou o primeiro busto de Teilhard. No seu estúdio, quando ele posava como modelo, continuavam as suas longas conversas. No Outono daquele mesmo ano, Teilhard partiu para a França e ausentou-se por seis meses. Do navio, escreveu a sua primeira carta a Lucille (30 de Agosto de 1932). No ano seguinte, foi aos Estados Unidos e as missivas tornaram-se mais frequentes, com intervalos de seis ou treze dias. Lucille ateou nele um fogo muito intenso, que ardeu durante todos os anos da sua maturidade. A sua família, os seus amigos e os seus admiradores só conheceram o poder do seu amor recíproco, a sua intimidade e o seu compromisso, a sua separação, a sua desilusão e o seu sofrimento, muitos anos depois da morte de ambos. Com efeito, a sua relação foi muito mais do que uma simples amizade. Não compartilharam apenas as mesmas ideias, mas também a própria vida, até nos mínimos detalhes.

Em 1950 Teilhard, com sessenta e nove anos, escreveu O coração da matéria, a sua autobiografia, que se conclui com estas palavras: «Nada se desenvolveu em mim, a não ser sob um olhar e sob uma influência de mulher». Enviou uma cópia do volume a Lucille, dizendo: «Desde há cerca de vinte anos você ajuda-me a elevar-me a Deus, cada vez mais luminoso e mais ardente». No entanto, Lucille não era apenas a companheira de trabalho de Teilhard, mas tornou-se uma parte da sua personalidade. «Você tornou-se uma parte da minha vida mais profunda» (17 de Julho de 1936). O itinerário místico de Teilhard foi facilitado pela ajuda de uma mulher, que o acompanhou: Lucille. Era uma mulher que tinha necessidade de amor e que ousava amar.

A sua agonia começou quando estabeleceram uma relação de amor mais profunda. Enquanto Teilhard sonhava um caminho de virgindade ou de amor-a-três que conduzisse a uma convergência, Lucille procurava algo mais. «A amizade é indubitavelmente a forma mais nobre do amor, e também a mais difícil. Os meus instintos de mulher são tão fortes. Aprender a controlar este amor é tão difícil».

Um anos depois do fim da segunda guerra mundial Teilhard regressou à Europa. De Paris fez diversas viagens a Nova Iorque e à África do Sul. Em Dezembro de 1951 emigrou para os Estados Unidos, onde se estabeleceu definitivamente. Naquele decénio foi Rhoda de Terra quem permaneceu constantemente ao lado de Teilhard, quer em Paris quer em Nova Iorque, e também durante as duas viagens à África do Sul. A sua presença constante ao seu lado suscitou uma crise assustadora em Lucille. Depois do ataque cardíaco de Teilhard em 1947, a pouco e pouco Rhoda tornou-se a sua enfermeira-secretária. Quando, em Dezembro de 1951, Teilhard se transferiu para os Estados Unidos, estava muito debilitado mas sempre muito comprometido na pesquisa académica. Lucille deslocava-se de vez em quando a Nova Iorque para o visitar. Teilhard pediu-lhe que diminuísse as suas visitas, que lhe escrevesse e telefonasse com menos frequência, porque se sentia muito frágil. Ao mesmo tempo, Rhoda estava constantemente ao seu lado, suplantando completamente, ao que parece, Lucille. Teilhard estava plenamente ciente do sofrimento que causava às pessoas que tinha amado. Thomas King escreve: «Em Paris, em Julho de 1954, Teilhard releu o final de O coração da matéria. Começou a chorar “ao recordar todas as Beatrizes cheias de reprovações que involuntariamente tinha ferido”. Uma delas era Lucille».

Alguns dias mais tarde, Teilhard em Nova Iorque caiu na rua durante um passeio. No hospital perguntou por Lucille. Ela chegou imediatamente e tranquilizou-o acerca do seu amor. Em seguida Teilhard regressou à residência jesuíta onde escreveu uma carta para lhe agradecer: «Converjamos, vós e eu, corajosa e jubilosamente, para a nova face de Deus que nos atrai um ao outro». Na sua última carta a Lucille (30 de Março de 1955), diz: «Sinto deveras a necessidade da vossa presença, da vossa influência na minha vida (…). Nós estamos sempre aqui um para o outro». Na noite do domingo de Páscoa de 1955, a 10 de Abril, Teilhard faleceu enquanto falava com alguns hóspedes na casa de Rhoda de Terra em Nova Iorque.

A criatividade intelectual de Teilhard de Chardin precisava de afecto. A sua experiência de amor com Marguerite foi fonte de novas ideias que desembocaram nalguns artigos importantes durante a guerra, entre os quais o imperecível Eterno feminino. Segundo esta teoria, as pessoas castas têm, também elas, a possibilidade de viver uma experiência amorosa com Deus e com o outro sexo. Inscreve-se aqui o amor-a-três, profundo e casto. Para Teilhard um amor casto ou virginal libertará da Matéria um Fogo novo. É uma nova espécie de energia. O amor virginal é um estádio superior do amor humano. Depois de Margherite, Teilhard encontrará outras mulheres. O seu calor e fascínio passaram, gota a gota, para o sangue das suas ideias mais queridas.

Bosco Lu

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14 de Outubro de 2019

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