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​A grande rede da irmã Lea

· Desde 1985 o projecto Solwodi ajuda as mulheres vítimas do tráfico no Quénia e na Alemanha ·

A irmã Lea Ackerman é a religiosa mais famosa na Alemanha. Desde há trinta anos que luta ao lado de mulheres privadas dos seus direitos, vítimas do tráfico e da prostituição forçada. É uma mulher com carácter alegre e combativo, uma «santa recalcitrante», como foi definida.

Lea nasceu em Saar em 1933. Depois de ter trabalhado como bancária, entrou na Ordem das irmãs missionárias de Nossa Senhora de África. Licenciou-se em pedagogia com uma tese sobre a educação e a formação no Ruanda. Em Mombasa, no Quénia, fundou em 1985 o projecto Solwodi (Solidarity with women in distress), uma obra de assistência para mulheres vítimas da prostituição. Hoje Solwodi tem dezenas de centros em África e na Alemanha.

A revista feminista «Emma» certa vez definiu-a uma «irmã furiosa»: o que a faz enfurecer, perguntamos-lhe. «A injustiça incrível e a brutalidade em relação a mulheres e crianças. Ocupo-me destas mulheres há trinta anos e vejo que essa situação lhes causa danos e traumas, que são feridas no corpo e na alma, que têm muitas doenças. É monstruoso que até seja reconhecida como uma profissão e definida como trabalho».

Egon Schiele, «Moça sentada» (1917)

A irmã Lea refere-se à lei de 2002 que legalizou completamente a prostituição na Alemanha. Esta lei é válida para as mulheres livremente ocupadas nos prostíbulos; a prostituição forçada, obviamente, continua ao contrário a ser proibida. Mas é deveras possível separar as duas coisas? «Na Alemanha, de dez prostitutas nove provêm do estrangeiro», explica-nos. «Muitas não compreendem a nossa língua e não conhecem ninguém a quem se dirigir. Se forem acompanhadas por muito tempo – por três, quatro ou dez anos – e ajudadas a inserir-se, contarão toda a sua história. Através de Solwodi encontrei milhares de mulheres. Em trinta anos não encontrei nenhuma que dissesse: fui eu que escolhi esta vida, foi uma minha decisão livre».

Desde há muito tempo na Alemanha a irmã Lea é a porta-voz não oficial das prostitutas forçadas e das vítimas do tráfico. Mas o que deu o impulso ao seu compromisso? «Uma vez visitei um Carmelo nas Filipinas. Diante do edifício havia um tronco de árvore no qual estava gravado com letras grandes: “Dedicado aos sonhos do Pai”. Perguntei às carmelitas o significado daquela frase. “Nós cristãos – explicou-me – acreditamos que Deus é o criador de todos os homens, pai e mãe de todos os homens. E nós carmelitas dizemos que queremos ser o amor no coração de Deus; então devemos fazer com que os sonhos se realizem para todos os seus filhos. E há filhos de Deus, sobretudo filhas, que são filhos de Deus privados de oportunidades”. E sabe uma coisa? Foi a minha segunda conversão. Já estava no convento há vinte anos, mas naquele momento pensei: certo! Formei professoras, mulheres que já tinham tido uma oportunidade. Contudo há filhas de Deus privadas de oportunidades».

Depois, em 1985, chegou a fundação de Solwodi. «A minha comunidade — descreve a irmã Lea — enviou-me para Mombasa, no Quénia. Ali vi massas de turistas do sexo. Uma prostituta de 16 anos disse-me: já não sou jovem, já tenho um filho de três anos, mas lá atrás, no quartinho, há uma adolescente de 14 anos; ontem ela deu à luz a uma criança e afogou-a na latrina. Então, não se pode humilhar a moça, mas é necessário perguntar: que fim farão aquelas crianças? Estes turistas, que se podem permitir de dar a volta ao mundo, chegam a Mombasa, vêem a miséria e a necessidade destas mulheres e destas crianças, e compram-nas por pouco dinheiro para a sua mesquinha diversão. Perguntei às mulheres como se sentiam. Responderam-me com raiva, interrogando-me por sua vez: pensa que é divertido ir com cada imbecil que aparece? Apanhar doenças? Às vezes ter dinheiro, outras não? Então, para mim tornou-se claro: reflictamos juntos sobre o que se poderia fazer de diferente. Naquela época, eu disse ao bom Deus: quero comprometer-me a favor destas tuas filhas, privadas de oportunidades, mas tu não me abandones».

Deus não a abandonou. «Comecei com nada: nem sequer tinha uma máquina de escrever. Hoje existem 34 consultores e centros de contacto no Quénia e 17 na Alemanha, além de sete casas protegidas para mulheres e crianças que vivem em situações de violência».

Qual é hoje, na Europa, o clássico exemplo do tráfico? «Na sua maioria, as mulheres chegam aqui atraídas por falsas promessas. Uma delas narrou-se a sua história assim: “Vivíamos num país da Europa do Leste; o meu pai e a minha mãe tinham um trabalho, o dinheiro era muito escasso, mas recebi uma formação”. Depois, o meu pai teve um enfarte e a minha mãe começou a beber; não havia dinheiro para os remédios e todos olhavam para ela. Naquela situação, li um anúncio: três meses na Alemanha, três mil euros. Tinha intuído que se tratava de prostituição. Mas pensou: resisto por três meses, e assim posso ajudar os meus pais. Na Alemanha foi violentada já na primeira noite. Ficou sem passaporte, não sabia em que cidade se encontrava, não conhecia a língua. Foi levada para um prostíbulo. Ali viu como uma mulher, que queria desistir, foi arrastada pelas escadas abaixo pelos cabelos e foi violada com uma garrafa quebrada. Isto devia servir para lhe mostrar o que teria acontecido, se ela quisesse fugir. E eu perguntei-lhe: livremente? Até que ponto, livremente?».

As religiosas católicas combatem em primeira linha contra o tráfico e contra a prostituição forçada. Nos últimos anos foram criadas inclusive algumas redes, como Renate ou Talitha Kum. Na sociedade civil, pergunto à irmã Lea, vê também outros que se preocupam do mesmo modo com as vítimas da prostituição forçada? «Existem grupos femininos, muitas vezes da elite de esquerda que, como nós, são contrários à prostituição e ao seu reconhecimento como profissão. No entanto, o que fazem as religiosas e as redes vai mais além da actividade lobista e é uma acção concreta. Ajudamos as mulheres a encontrar uma profissão, a dispor de espaços protegidos, a cuidar dos seus filhos. O meu princípio é: não podemos dizer “oh, como é feio aquilo que fazes”, e limitar-nos a isto. Devemos procurar com todas as forças, para cada uma destas mulheres, outras alternativas».

Quais são as raízes do compromisso, de modo particular das religiosas católicas, contra o tráfico? «As religiosas ocuparam-se desde sempre de situações dramáticas ou de carências na sociedade. A formação das jovens começou com as religiosas. Durante séculos, os hospitais existiram porque as religiosas se dedicaram totalmente a eles. Nós existimos para começar a edificar já aqui e agora o Reino de Deus. Jesus pertence a todos aqueles que estão em necessidade. Eu estava nu e vestiste-me. Estava na prisão e foste visitar-me. A nossa tarefa consiste em identificar este tipo de miséria nas suas formas sempre novas e em atenuá-la».

Por causa deste tipo de miséria, também ela acolheu algumas crianças, juntamente com o padre palotino Fritz Köster falecido há dois anos, com o qual durante décadas, até à sua morte, viveu em comunhão celibatária numa casa paroquial. «Muitas vezes hospedamos mulheres que queriam dar continuidade à sua formação, mas que tinham tido filhos. Então, procuramos pais dispostos a acolhê-los e, para quatro crianças, tornamo-nos nós mesmos pais adoptivos. Hoje estas crianças têm todas de 25 a 27 anos, todas seguiram o seu caminho, assim como o fizeram as respectivas mães. No Natal e na Páscoa tínhamos uma casa sempre cheia, com pelo menos vinte pessoas, as mães e outras mulheres com os seus filhos. Era muito bonito! É assim a comunhão cristã. Gostaria que houvesse muito mais casas paroquiais abertas a este serviço. Foi um verdadeiro dom». E uma particular forma de vida religiosa.

O que significa hoje para a irmã o tempo que passou com o padre Köster? «Foi maravilhoso. Fortalecemo-nos reciprocamente no nosso respectivo compromisso religioso. O padre Köster era professor de teologia, reflexivo, aberto ao mundo, muito amado inclusive pelos mais pequeninos. Para muitos, e não só para mim e para as crianças, era uma pessoa que sabia verdadeiramente respeitar os outros. Uma vez uma mulher disse-me que lhe tinha restituído a sua dignidade. O padre Köster ajudou-me a construir Solwodi. Comprometeu-se desde o primeiro instante».

Uma convivência celibatária mista entre uma religiosa e um religioso: os superiores religiosos ou os bispos nunca levantaram objecções disciplinares? «Não, nunca. Da nossa forma de vida foram testemunhas também as crianças que tínhamos acolhido. Se não nos tivéssemos comportado um com o outro como religiosa e sacerdote elas ter-se-iam quando fossem grandes. Ter-se-iam encontrado numa comunidade de mentiras, na qual muitas coisas aconteciam às escondidas. E no entanto, ocorreu precisamente o contrário. Tínhamos uma casa extremamente aberta. Todos podiam vir. Vinde ver! Foi precisamente isto que tornou o cristianismo tão atraente desde o início».

A fundadora de Solwodi tem 78 anos: de onde tira a força para levar em frente o seu compromisso hoje? «Sem dúvida, tenho uma saúde robusta», responde. «Naturalmente, pergunto-me quanto ainda perdurará. Então, surgem também interrogações e às vezes a dúvida, se aquilo em que acredito é totalmente verdade. E depois peço imediatamente desculpa e digo: amado Deus, perdoai-me. Quando olho para tudo aquilo que surgiu do nada, sem nem sequer saber como foi que nasceu, então só posso dizer que sozinha jamais o teria conseguido. Só podia ter sido realizado com a ajuda de Deus».

Gudrun Sailer

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22 de Agosto de 2019

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