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Globalização da indiferença

· Algumas estratégias ·

O Papa Francisco apontou um tema querido a estudiosos de vários tipos, historiadores e sobretudo psicólogos sociais e sociólogos.

Escrever um livro sobre a indiferença poderia parecer absurdo, mas a sociedade moderna contemporânea tornou-nos, é o caso de o dizer - e agora devemos dizê-lo com mais razão com o Papa Francisco - indiferentes. Tudo se tornou indiferente a tudo, poder-se-ia até dizer, mas é ainda mais verdadeiro que a dissensão se tornou um verdadeiro trabalho pessoal interior e psicológico. Parece que, em certas regiões do mundo, o ideal seja o do controle total dos sentimentos e que as assumpções na sociedade sejam efectuadas também com base na capacidade de as esconder. Vem assim à mente a narração divertida de Gianni Celati I lettori di libri sono sempre più falsi (2002) no qual o responsável de uma editora de enciclopédias intui que os seus representantes comerciais são assíduos leitores de livros verdadeiros, e precisamente por isto as suas decadentes enciclopédias nunca serão vendidas. A comprovação é dada pelo facto de que os dois novos responsáveis comerciais voltam do giro comercial porta a porta sem nenhuma venda. Para vender os livros, em síntese, nunca se deve ler nenhum. É esta a surpreendente conclusão que nos põe em condições de compreender que, numa sociedade emocionalmente doente, a indiferença vence sobre tudo e todos. Posição que sempre foi contrária à educação cristã e à sã doutrina católica.

A nossa sociedade – sobretudo a europeia – construiu-se uma relação ambivalente no respeitante aos sentimentos: são passionais ou apaixonantes na mesma medida em que devem ser rejeitados. A prova? Mais um estudo excepcional, este sobre as cores. Blu. Storia di un colore cujo autor é um dos maiores peritos de história da matéria, Michel Pastoureau (2008). O azul desperta o calor humano mas causa também uma certa frieza nas relações. Por isto pode despertar sentimentos contrastantes, precisamente como o mar que incute o terror do naufrágio e inspira a contemplação da natureza. O azul por excelência é o do mar, pelo menos para os europeus que o escolheram também para a bandeira. Mas o mar pode unir, mas também separar: isto nos recordou o Papa Francisco em Lampedusa. Talvez uma reflexão sobre as cores do mar nos pudesse ajudar a compreender que nem sempre temos sentimentos correctos . Para os gregos, por outro lado, o mar não era azul, mas esverdeado.

Talvez para curar a nossa indiferença devamos começar a curar a nossa vista.

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22 de Janeiro de 2020

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