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A geografia de Elias

· Começaram em Ariccia os exercícios espirituais da Cúria romana ·

Desde a tarde de 22 de Fevereiro o Papa encontra-se em Ariccia, na casa Divino Mestre dos religiosos paulinos, onde participa nos exercícios espirituais de quaresma pregados pelo padre carmelita Bruno Secondin, que propõe uma leitura pastoral do profeta Elias sobre o tema: «Servos e profetas do Deus vivo».

O Pontífice chegou à residência às 16h40 e foi recebido, entre outros, pelo arcebispo Angelo Becciu, substituto da Secretaria de Estado, por monsenhor Leonardo Sapienza, regente da Prefeitura da Casa pontifícia e pelo sacerdote brasileiro Valdir José de Castro, superior-geral da Sociedade de São Paulo, com a comunidade religiosa de Ariccia. Depois, Francisco participou na adoração eucarística e na celebração das vésperas, ouvindo a introdução do pregador, que dedicou a reflexão ao convite a «sair da própria “aldeia”».

Pôr-se na «escola da misericórdia» como Elias e levar uma «vida de periferia»: eis o cerne da primeira meditação, feita na manhã do dia seguinte, após a celebração eucarística, sobre o tema: «Vai rumo ao Oriente, esconde-te: retorna às tuas raízes». O pregador inspirou-se na vicissitude do profeta (1 Rs 17, 1-17) e sugeriu algumas perguntas como exame de consciência pessoal, com a recomendação de «se apegar à Palavra de Deus» e procurar encontrar a «grande riqueza», tornando-se discípulo, deixando-se plasmar sem se distrair, de modo a viver a experiência do retiro como «uma sinfonia», de maneira a «habituar-se e a deixar-se absorver por esta proposta».

Padre Secondin recordou que na sua meditação não segue uma ordem cronológica mas, a exemplo da Escritura, «grandes cenários», propondo «uma leitura pastoral e sapiencial» da vida de Elias. É um encontro directo com um profeta «que caminha e não tem uma sede estável»: um homem que «se move para agir» e, neste sentido, é um «excelente companheiro de viagem» em muitas experiências, inclusive de purificação pessoal.

Continuando a reler o profeta Elias, o pregador frisou o aspecto da «geografia»: ele «combate em muitas frentes» e move-se rumo aos centros do poder mas sobretudo rumo às periferias. Estamos diante de «uma geografia que fala», porque Elias nos leva a frequentar «as periferias e as fronteiras geográficas e existenciais», pondo-nos perante os «problemas mais íntimos». Mas não podemos esquecer «a fragilidade e a vulnerabilidade» de Elias.

Para compreender plenamente a missão do profeta é preciso inseri-lo no seu contexto histórico, considerando a sua origem de «uma região periférica, com uma religiosidade tradicional e escasso bem-estar». A sua «raiva» e a sua forte reacção nascem da constatação da «depravação religiosa e social» criada pelos novos cenários introduzidos em Israel nos sistemas de comércio, de defesa militar e até de agricultura. Novidades que trouxeram bem-estar e demasiada «vertigem». Chegam também novos deuses, que acabam por transtornar o povo. Nesta condição de «progressiva depravação e de perda de identidade, de confusão moral e religiosa», o Deus vivo — que não é um «simulacro» — acaba por ser considerado bom só para «pessoas atrasadas». Por isso, Elias reage duramente e chega a ameaçar, mas sem ter sido enviado por Deus.

Então, Deus faz ouvir a sua voz, ordenando que Elias parta. A realidade é que «Elias não se substitui a Deus, mas deve ser guiado pela palavra», deve «ouvir, obedecer» e «deixar que Deus seja o seu Deus». E ordena-lhe que «se distancie, que vá contra a corrente e viva a solidão» para se purificar, «encontrar as suas raízes» e, em síntese, «a razão da sua fidelidade». De resto, quando «Elias age de maneira pessoal acaba por criar problemas»; mas as suas aventuras são autênticas quando a palavra de Deus o impele. E o encontro com a viúva de Sarepta recorda-nos que até «os pobres nos evangelizam».

Por isso, a finalidade é «fazer do amor a Deus o centro da própria existência», sem procurar fazer «precipitar a situação», apostando num resultado imediato. Deus pediu que Elias se desapegasse do seu programa pessoal, pondo-se «de lado», aprendendo a obedecer. Deus «fala pouco e em voz baixa»: assim, para o ouvir é preciso deixar de lado as bisbilhotices.

Concluindo a sua meditação, o pregador propôs algumas perguntas de averiguação, sugeridas pela atitude de Elias: perdi a paciência nalgum momento? Falei claro ou nos bastidores, murmurando e alimentando mexericos? Abraço uma sobriedade sadia e tranquila, feita de recursos simples? Ou então deixo-me tentar pelo desperdício na vida que levo, nas coisas que me circundam, no modo de me vestir? Conservo a alegria e o vigor do primeiro amor, ou tudo desbotou? Conheço a vida da periferia ou gosto de estar no centro das atenções e das honras? Tenho confiança na Providência ou sou fanático da programação e dos resultados? E, por fim, entre estas idolatrias, o pregador alertou contra uma religiosidade «confusa» e sincretista, que pretende misturar um pouco de tudo.

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14 de Novembro de 2019

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