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Francisco, Newman e o Evangelho

· Na vigília do Ano da fé ·

John Henry Newman, na Gramática do assentimento , distingue entre duas formas de conhecimento, um «nocional» e o outro «real». Porém, poderiam ser indicados também como «conhecimento abstracto», da cabeça, e «conhecimento experiencial», do coração. Newman não escolhe um em detrimento do outro. Ambos são importantes, necessários para uma visão compreensiva do homem, para um humanismo integral. No entanto, nas questões religiosas o verdadeiro conhecimento, o  assentimento genuíno, é fundamental.

Podem-se, e dever-se-iam, conhecer os artigos do Credo e o conteúdo do Catecismo. Mas se eles permanecerem unicamente proposições abstractas, nocionais, não alcançarão a realidade viva que a religião tem em vista. Daqui deriva a finalidade do evangelista, do pregador, do catequista, mediar em que o ouve a passagem do meramente nocional para o real. Uma das palavras preferidas de Newman era «realização», ou seja, por graça de Deus, tornar reais para nós mesmos e ajudar os outros a tornar reais para si próprios os imensos mistérios da fé.

Este desafio de tornar real a nossa fé para nós mesmos e para o próximo está no centro do Ano da fé. Newman, cujos escritos influenciaram muito o jovem teólogo Joseph Ratzinger, meditou profundamente também sobre o modo como tornar mais fácil a passagem do meramente nocional para o real. Sugere que é antes de tudo a imaginação que move os nossos afectos e inspira os nossos gestos. Num trecho relevante da Gramática do assentimento , ele escreve: «Geralmente, o coração não se alcança através da razão, mas mediante a imaginação». Depois, acrescenta as seguintes palavras, tão características da sua visão: «As pessoas influenciam-nos, as vozes libertam-se, os olhares subjugam-nos e as acções inflamam-nos».

Portanto, não causa admiração o facto de que, quando foi criado cardeal, Newman escolheu como lema cor ad cor loquitur («o coração fala ao coração»). Resume a sua visão profundamente personalista dos relacionamentos humanos, ou seja, de cada realidade que procede do amor do Deus Trino.

Poucas figuras na história da Igreja encarnam com maior força do que são Francisco de Assis a verdade da intuição de Newman. Na sua Vita prima sancti Francisci , escrita três anos depois da morte do santo, Tomás de Celano descreve o impacto enorme que Francisco teve sobre os homens e as mulheres do seu tempo.

Tendemos a pensar no século XIII como no ápice da «idade da fé». Todavia, Tomás de Celano descreve a situação na Úmbria na época em que Francisco começou o seu ministério, em termos que têm uma semelhança extraordinária com a nossa época secularizada: um «profundo esquecimento de Deus» obscurecia o país e «o desleixo pelos mandamentos de Deus» permeava a vida das pessoas. Segundo os termos usados por Newman, uma boa parte do cristianismo que caracterizava aquela época era apenas nocional, e não real.

É interessante observar que Tomás descreve Francisco como novus evangelista , o «novo evangelista» enviado por Deus para despertar o coração dos homens e das mulheres para um verdadeiro sentido da presença e da acção de Deus na sua vida. Aquilo que Francisco empreendeu foi uma nova evangelização da sociedade e da cultura.

O que possuía de novo, a evangelização de Francisco? Certamente, não o Evangelho – ele proclamou com as palavras e com as obras, com todo o seu ser, a única Boa Nova de Jesus Cristo – mas uma nova realização do Evangelho, com um compromisso apaixonado e uma encarnação criativa. Reavivou a imaginação cristã da sua época.

O que estava na base de tudo, e sustentava Francisco, era a sua relação de amor com Jesus Cristo. O âmago do coração de Francisco era Jesus. Como escreve Tomás de Celano: «Os frades que viveram com ele sabem muito bem que cada dia, aliás, cada momento, florescia dos seus lábios a lembrança de Cristo […] e a nascente de amor iluminado que o enchia a partir de dentro, transbordava também exteriormente. Vivia deveras muito ocupado com Jesus. Trazia sempre Jesus no coração, nos lábios, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos e em todos os outros membros».

Naturalmente, o trazer Jesus «em todos os outros membros», para Francisco,  aperfeiçoou-se na graça onerosa dos estigmas. E foi um grande evangelista não apenas porque pregava – o que certamente fez – mas também porque vivia plenamente Jesus: morrendo com Jesus, para poder ressuscitar com Ele.

Enquanto encetamos este Ano da fé, enquanto os bispos do mundo se reúnem para o Sínodo sobre a evangelização, podemos aprender de John Henry Newman e de Francisco de Assis que uma fé meramente nocional não é suficiente. Mais uma vez, somos convidados a realizar a nossa fé com maior plenitude, de maneira a podermos tornar-nos evangelistas mais generosos e criativos. Com efeito, só o coração pode verdadeiramente falar ao coração.

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20 de Outubro de 2019

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