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Fidelidade radical no amor ao presente

· Concílio e modernidade num livro de Giuliano Zanchi ·

A nossa é a primeira civilização «na qual o ser humano busca o modo de se construir com as próprias mãos e à luz da sua desmedida consciência de si próprio», a primeira época que renunciou «a pensar num fundamento das coisas». A ponto que a atitude  da  «averiguação sábia e amorosa do presente», que foi o centro da herança conciliar, parece que se tornou impossível, se não até inútil. Mas o crente, como escreve com vigor Giuliano Zanchi no seu livro Prove tecniche di manutenzione umana. Sul futuro del cristianesimo (Vita e Pensiero), sabe que para permanecer humano   não  se  deve separar da história.  Porque «é perdendo o sentido da fraternidade que  saímos, no mesmo instante, do perímetro da fé e do vocabulário da esperança». Precisamente com a intenção de servir a esperança, Zanchi explora este terreno, partindo de uma reflexão sobre os tempos presentes, para chegar a propostas concretas na perspectiva de um novo enraizamento cristão.

Começando por denunciar uma crise da razão que, iniciada com o objectivo ambicioso de abater a fronteira impenetrável das verdades metafísicas, se limita hoje a tornar-se instrumento para racionalizar, de modo aparentemente eficaz, o funcionamento das grandes estruturas da vida. Técnica, mercado e democracia – bases da cultura pós-moderna – procedem então com as características de uma rede envolvedora, que exorta os indivíduos a transformar em escolha pessoal o que, ao contrário, é uma necessidade imposta pelo sistema. O segredo para pôr em acção este mecanismo é a transfiguração de cada necessidade em desejo, de modo que podemos dizer com Bauman que «a nossa sociedade de consumo talvez seja a única sociedade na história da humanidade que promete a felicidade na vida terrena, isto é, aqui e agora». De facto, pertencemos à primeira civilização que tenta viver sem  a imaginação de um futuro.

Disto nascem graves problemas na construção da identidade, que – prega-se – deve ser uma escolha realizada livremente de «sermos nós mesmos».  Esquecendo que o «sermos nós mesmos» é o fruto de um dom no âmbito das relações,  mais do que o produto de um arbítrio entre escolhas equivalentes. Zanchi exorta os cristãos  a intervir com amor pela história  de todos, um amor que «antes de tudo, assume a forma da inteligência necessária para conhecer realmente o próprio mundo». Inteligência encontrada no concílio, mas que depois aos poucos  se perdeu  na tempestade de Sessenta e Oito, quando «a instituição eclesiástica se encontrava novamente em polémica com o mundo. A história já tinha ido “além” da modernidade com a qual o cristianismo pensava que se tinha finalmente reconciliado».

Esta ruptura com a história foi resolvida, com efeito, através de um acordo individual – como demonstra clamorosamente  o caso da moral sexual – deixando deste modo na solidão do indivíduo o difícil trabalho de elaboração antropológica entre a fé recebida e a própria cultura vital. Mas não é suficiente. Porque se olharmos para a história da Igreja, a verdadeira santidade reformadora nasceu só «quando alguns discípulos do Reino, sentindo-se fruto do próprio mundo,  o amaram o com fidelidade radical». Portanto, deveríamos aprender a amar radicalmente este nosso tempo comprometido em «provas técnicas de manutenção humana» que, antes de tudo é reestruturação fisiológica da auto-representação do ser humano.

Assim estaremos prontos para viver a experiência decisiva de reconsiderar a linguagem do anúncio cristão. Não só no estilo da comunicação, mas numa eloquência renovada que saiba reapropriar-se incansavelmente do sentido de uma revelação nunca antes possuída. Por conseguinte, para oferecer sinais credíveis de esperança – escreve Zanchi – a instituição eclesiástica  deve saber dar provas autênticas «da destreza para atravessar com perfeita dignidade humana também os caminhos fugazes  da incerteza, da complexidade, até do drama».

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22 de Janeiro de 2020

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