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Felicitações de autor

· Exposição do Pontifício Conselho para a Cultura no sexagésimo aniversário de sacerdócio de Joseph Ratzinger ·

Na homenagem também a resposta ao apelo por um renovado diálogo com a Igreja

Na manhã de sexta-feira 17 de Junho foi apresentada na Sala de Imprensa da Santa Sé a exposição subordinada ao tema: «O esplendor da Verdade, a beleza da Caridade», uma homenagem de um grupo de artistas ao Papa Bento XVI , por ocasião do seu sexagésimo aniversário de ordenação sacerdotal, que será celebrado no próximo dia 29 de Junho. Esta iniciativa foi promovida pelo cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, que no sulco do encontro de 21 de Novembro de 2009 na Capela Sistina, convidou sessenta artistas de fama internacional, pertencentes às mais diferentes formas expressivas.

Há sessenta anos no dia 29 de Junho de 1951, festividade dos santos apóstolos Pedro e Paulo, mais de quarenta jovens entravam na catedral de Freising para receber a consagração sacerdotal. Entre eles estavam Joseph Ratzinger e o seu irmão Georg. «Era um maravilhoso dia de Verão, que permanece inesquecível como o momento mais importante da minha vida», narra Bento XVI, que recorda também como, enquanto o cardeal Michael von Faulhaber impunha as mãos sobre ele, uma calhandra elevou-se do altar-mor, chilrerando. «Para mim foi como se uma voz do alto me dissesse: está bem assim, estás no caminho certo».

Já transcorreram sessenta anos desde o dia em que o Papa pronunciou o seu adsum , «eis-me aqui», e para festejar este aniversário o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, convocou sessenta artistas a fim de que, por sua vez, pudessem manifestar a sua devoção ao Sumo Pontífice com o próprio adsum .

No próximo dia 4 de Julho Bento XVI inagurará no adro da sala Paulo VI uma exposição intitulada: «O esplendor da Verdade, a beleza da Caridade». Em várias circunstâncias, o Papa manifestou a sua disponibilidade e abertura a um renovado diálogo entre Igreja e cultura. Recordemos que foi ele quem se quis encontrar com duzentos e cinquenta artistas provenientes do mundo inteiro, no dia 21 de Novembro de 2009.

Além disso, nos seus escritos ele retomou diversas vezes o tema do confronto entre a Igreja e a cultura contemporânea que, desde quando perdeu o seu fundamento religioso, está a viver um processo de contínuo questionamento sobre si mesma. A Igreja — afirmou — «deve abrir-se aos problemas do nosso tempo, do mesmo modo como a cultura deve, de maneira renovada, interrogar-se sobre a sua falta de raízes e acerca do seu fundamento, abrindo-se com isto a um processo doloroso de purificação, ou seja, a uma reconciliação íntima com a religião, porque só daqui pode receber a sua linfa vital». Ao contrário, parece que muitas vezes os artistas contemporâneos só sabem expressar-se no desprezo e na ridicularização para se libertar da grandeza da arte, mas na realidade espezinham-na. Talvez pensem que assim poderão reconquistar uma superioridade que sentem que já não possuem.

A resenha dedicada ao sexagésimo aniversário de ordenação sacerdotal de Joseph Ratzinger parece particularmente significativa porque procura um primeiro reconhecimento, em todos os campos, entre quantos fizeram o melhor que podiam para superar «aquelas paródias niilistas da arte», tão malvistas pelo próprio Sumo Pontífice. Os artistas convidados inspiraram-se no título: «O esplendor da Verdade, a beleza da Caridade». Um tema que se lhes revelou como uma espécie de salvo-conduto rumo a um novo tipo de expressão, de resto sem atraiçoar a própria identidade primária.

Talvez precisamente esta exposição e esta atitude humilde com que nomes também célebres aderiram à mesma — os soberbos e os arrogantes excluíram-se sozinhos — seja um exemplo qualificado e qualificador para a construção de uma nova criatividade a partir da qual recomeçar.

Ao convidar sessenta artistas para representar a pintura, a escultura e todas as outras disciplinas artísticas, propondo-lhes um tema no qual inspirar-se, pretendeu-se demonstrar também concretamente a grande diferença existente entre arte religiosa e arte sacra.

Nas suas diferentes linguagens e sem atraiçoar o sinal que os identifica, cada artista procurou interpretar o profundo significado das palavras Verdade e Caridade.

Não importa estabelecer se o conseguiram à letra, pois o que importa é que nasceu um vínculo novo com aqueles artistas que exprimem na própria vocação pela arte um íntimo sentido religioso, sem cair na tentação do sucesso fácil.

Já durante o encontro de 2009, realizado na Capela Sistina, o Papa, citando santo Agostinho, «cantor apaixonado da beleza», meditava sobre o destino último do homem e sobre a importância que os artistas se inspirassem numa arte, alimentada pela sinceridade do coração, e deste modo capaz de dar testemunho da beleza.

De resto, em várias ocasiões, precisamente nas páginas de «L’Osservatore Romano» foi narrada a necessidade de que muitos artistas, chamados de vanguarda, conservassem no próprio coração não apenas uma profunda espiritualidade, mas um autêntico credo religioso.

O futurista Filippo Tommaso Marinetti, por exemplo, conservava sempre no seu bolso um satinho do Sagrado Coração de Jesus e, no quarto de dormir de Andy Warhol sobressaia um grande e bonito crucifixo, perenemente iluminado por uma vela.

Muitos outros episódios poderiam ser citados, de Paul Gauguin a Vincent van Gogh, de Lucio Fontana a Gino Severini.

Reiteramos que não corresponde à verdade a ideia de que a Igreja privilegia uma arte oleográfica, como declararam recentemente alguns críticos superficiais, se o próprio Ratzinger escreve que «sem a coragem de ir contra a corrente, nada se pode fazer, nem sequer hoje. Só desta coragem pode nascer uma nova criatividade».

Como se sabe, o diálogo entre Igreja e arte consolidou-se ao longo dos séculos para elaborar uma linguagem capaz de transmitir uma história através de imagens, inspirada na Bíblia e na vida dos santos. Por conseguinte, durante muito tempo os artistas tiveram na Igreja um comitente privilegiado, que lhes permitiu criar um património extraordinário para a humanidade. Mas quando o Impressionismo codificou uma arte não comissionada, porque estava ligada a uma criatividade individualista, repentinamente o entendimento entre os artistas e a Igreja interrompeu-se. Em seguida, o advento das Vanguardas consolidou esta ruptura, uma vez que a muitos artistas parecia impossível poder pensar novamente, quer numa arte sacra, quer numa arte religiosa.

Não obstante Vasilij Kandinsky, na sua obra Espiritual na Arte — terminada no Verão de 1911 e publicada em Janeiro de 1912 — escreve: «Cada obra de arte é filha do seu tempo, e muitas vezes é mãe dos nossos sentimentos». Depois, este grande artista exorta os colegas a desspertar daquele «longo período de materialismo, que encerra em si os germes daquele desespero que nasce da falta de uma fé, de uma finalidade e de uma meta».

De qualquer maneira em 1943, por ocasião do vigésimo quinto ano de episcopado de Pio XII, a igreja construída em sua honra em Roma e dedicada a santo Eugénio, foi confiada a numerosos artistas dessa época: de Ferruccio Ferrazzi a Giacomo Manzù. Foi precisamente a Manzù que o seu sucessor, João XXIII, comissionou a Porta dos mortos, da Basílica Vaticana. Depois Paulo VI, profundo conhecedor da arte contemporânea, decidiu restabelecer a relação com os artistas, convidando-os, em 1964, à missa por ocasião da solenidade da Ascensão, celebrada na Capela Sistina. Nessa circunstância, o Sumo Pontífice reconheceu as culpas da Igreja pela ruptura que se tinha verificado: «Por vezes chegamos a pôr sobre vós, por assim dizer, um manto de chumbo; perdoai-nos! (...) Nós temos necessidade de vós (...) criadores, sempre vivazes, repletos de numerosas ideias e novidades».

Um ulterior passo para um renovado diálogo entre a Igreja e os artistas encontra a própria definição no Concílio Vaticano II. É suficiente pensar na Constituição pastoral sobre o mundo contemporâneo Gaudium et spes , de 1965, que exorta ao compromisso, «a fim de que os artistas se sintam compreendidos pela Igreja na sua actividade e, gozando de uma liberdade ordenada, estabeleçam relações mais fáceis com a comunidade cristã».

No dia 23 de Junho de 1973, Paulo VI realizou mais um gesto em relação à arte contemporânea, inaugurando a Colecção de Arte Religiosa Moderna nos Museus do Vaticano, com oitocentas obras de pintura e escultura de artistas internacionais.

Portanto a Carta aos Artistas, de 24 de Abril de 1999, do Beato João Paulo II, não nascia do nada. As suas palavras foram iluminadoras, quando escreveu: «Se o Filho de Deus entrou no mundo da realidade visível, lançando uma ponte mediante a sua humanidade entre o visível e o invisível, analogamente pode-se pensar que a representação do mistério pode ser utilizada, na lógica do sinal, como evocação sensível do próprio mistério».

No entanto, é verdade que se deve à vontade de Bento XVI, de consolidar a relação com os artistas, concretizando-o — como está a acontecer — mediante iniciativas organizadas pelo cardeal Gianfranco Ravasi, que recentemente sublinhou a importância deste encontro, do qual o artista e o crente sairão enriquecidos, estimulados e libertados de esterótipos, desconfianças e equívocos, prontos para voltar a encontrar, porventura, uma consonância ideal. Com efeito, como escrevia o Papa: «A criatividade artística, no sentido do Livro do Êxodo, é ao contrário um olhar juntamente com Deus, uma participação na sua criatividade; um levar à luz a beleza escondida que, na criação, já está à espera».

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16 de Setembro de 2019

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