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A farinha e o fermento

· Missa em Santa Marta ·

«Docilidade» foi a palavra-chave da reflexão do Papa Francisco durante a missa celebrada na terça-feira 25 de outubro na Casa Santa Marta. De facto, esta deve ser a característica principal não só do «caminho» de cada cristão, mas também do caminho mais amplo que distingue o reino de Deus.

O Pontífice, a fim de dar continuidade à sua meditação, antes de tudo fez uma breve evocação à liturgia do dia anterior: «Ontem repetimos, e também rezamos: “Bem-aventurados os que caminham na lei do Senhor”». É preciso, disse «caminhar na lei» e «não só olhar para ela ou estudá-la». Com efeito, a lei «é para a vida, serve para ajudar a realizar o reino, para realizar a vida».

A partir daqui teve início o aprofundamento que caracterizou a homilia. A inspiração foi o trecho do Evangelho de Lucas (13, 18-21) no qual, através das semelhanças do grão de mostarda e do fermento «o Senhor nos diz que também o reino está a caminho».

Mas «o que é o reino de Deus?». Alguém, supôs o Papa, poderia pensar que seja «uma estrutura bem feita», com «tudo em ordem» e «organogramas bem feitos», e que o que não entra nesta organização não pertence ao reino de Deus. Mas pensar desta maneira significaria cometer o mesmo erro no qual se pode cair em relação à lei: «o “fixidez”, a rigidez».

Ao contrário, explicou Francisco utilizando um insólito mas eficaz verbo transitivo, «a lei é para ser caminhada». E também «o reino de Deus está a caminho». E não só o reino «não está parado» mas, mais ainda, «o reino de Deus “faz-se” todos os dias».

Para esclarecer este conceito, disse o Pontífice, «Jesus fala sobre dois aspetos da vida diária: o fermento não permanece fermento, porque mais cedo ou mais tarde se estraga; deve ser misturado com a farinha, está a caminho e faz o pão»; e do mesmo modo «a semente não permanece semente: morre e dá vida à árvore». Portanto: «fermento e semente estão a caminho para “realizar” algo». E também «o reino é assim». O Papa quis reafirmar o conceito: «Fermento e semente morrem. O fermento já não é fermento: mistura-se com a farinha e torna-se pão para todos, alimento para todos. A semente já não será semente: será árvore, tornando-se habitação para todos, para os pássaros...».

Não se trata, explicou Francisco, de «um problema de pequenez», pelo qual se poderia pensar: «é pequeno, é pouco, ou é grande». Mas, pelo contrário, é «um problema de caminho» e precisamente no caminho «ocorre a transformação».

Referindo-se outra vez à homilia do dia anterior – na qual se evidenciou «a atitude de quem vê a lei que não caminha, que estava parada», e compreendia-se que «aquela fixidez era uma atitude de rigidez» – o Pontífice passou ao nível do envolvimento e do compromisso pessoal de cada cristão: «Qual é a atitude que o Senhor exige de nós, para que o reino de Deus cresça e seja pão para todos e habitação, inclusive, para todos?». A resposta é clara: «a docilidade». De facto, acrescentou, «o reino de Deus cresce com a docilidade à força do Espírito Santo».

Neste sentido, Francisco retomou a simbologia proposta pelo trecho evangélico: «a farinha deixa de ser farinha e torna-se pão, porque é dócil à força do fermento»; e «o fermento deixa-se amassar com a farinha». E mesmo se «a farinha não tem sentimentos», pode-se pensar que naquele «deixar-se amassar» haja «algum sofrimento», assim como depois no «deixar-se assar».

A mesma dinâmica, disse o Papa, encontra-se em relação ao reino de Deus que «cresce assim e no final é alimento para todos». Assim como «a farinha é dócil ao fermento» e «cresce», o mesmo acontece para o reino de Deus: «O homem e a mulher dóceis ao Espírito Santo crescem e são dons para todos. Também a semente é dócil por ser fecunda e perde a sua identidade de semente, tornando-se outra coisa, muito maior: transforma-se».

Por este motivo o reino de Deus «está como a lei: a caminho». Ele «está a caminho rumo à esperança, está a caminho rumo à plenitude» e, sobretudo, «faz-se todos os dias com docilidade ao Espírito Santo, que une o nosso pequeno fermento ou a pequena semente à força, e transforma-os para fazer crescer».

Neste ponto o Pontífice delineou outra ligação com a reflexão do dia anterior, quando tinha falado da relação com a lei: «não caminhar a lei – disse – torna-nos rígidos e a rigidez torna-nos órfãos, sem Pai». Porque quem é rígido «só tem patrões, não um pai». Assim o reino de Deus, que se realiza caminhando, «é como uma mãe que, fecunda, cresce» e «doa-se a si mesma para que os filhos tenham nutrimento e morada, segundo o exemplo do Senhor».

Por isso, concluiu Francisco, devemos «pedir a graça da docilidade ao Espírito Santo». De facto com muita frequência «somos dóceis às nossas teimosias, aos nossos julgamentos» e pensamos: «Faço o que quero». Mas «assim não cresce o reino» e «não crescemos nós». Ao contrário, será «a docilidade ao Espírito Santo que nos fará crescer e transformar como o fermento e a semente».

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21 de Novembro de 2018

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