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Eva perdeu a palavra

· Em conversa com Delphine Horvilleur, rabino do Movimento judaico liberal de França ·

Delphine Horvilleur é rabino do Movimento judaico liberal de França desde 2008. Jornalista, chefe de redação da revista de pensamento e de arte judaica «Tenou’a», acabou de publicar o ensaio Comment les rabbins font les enfants (Grasset, 2015). Tivemos um encontro com ele em Paris.

O nacionalismo, o comunitarismo, o espetro do sentimento de não pertença: os sintomas da nossa época parecem todos relacionados com um distúrbio da identidade e da transmissão. Como explica isto? «É muito evidente que a nossa época bastante sensível a este problema, dado que está omnipresente nos discursos políticos, religiosos e familiares. Por um lado, há um discurso hiper-individualista, típico das nossa sociedades que se consideram livres das ideologias rígidas; este discurso faz-nos pensar que nos poderíamos criar a nós mesmos independentemente das nossas origens e inventar-nos distanciando-nos da nossa herança. Alguns pais dizem: não quero impor nada aos meus filhos, libertei-me da minha ascendência e gostaria que a minha descendência se criasse como se fosse uma tábula rasa. O que é, claramente, pura fantasia. Por outro lado, a este mundo ultra-individualista, que pode induzir muita ansiedade, o discurso fundamentalista responde que somos apenas a nossa pertença, que diz tudo de nós e que, para lhe ser fiel, seria necessário responder de forma idêntica. A sociedade oscila entre estes dois extremos. A verdade é que cada um de nós é aquilo que é porque pertenceu. É preciso antes appartenir para poder à-part-tenir» (é um jogo de palavras: appartenir pronuncia-se como à part tenir, portanto pertencer para se colocar à parte).

«O próprio nascimento do sujeito – continua Horvilleur – depende do facto que se disse “sim” por ele, antes que pudesse dizer “eu”, que se fez com que ele pertencesse a um grupo, a uma cultura, a um sistema do qual poderá emergir como sujeito».

Como pode a exploração das nossas tradições religiosas ajudar a sair deste dúplice impasse? «Uma tradição religiosa oferece-nos uma poesia, um universo, algo que nos permite construir um processo de releitura. Muitas vezes pensa-se que “religioso” provém de religare (ligar), mas outros dizem que vem de religere, que significa revisitar, reler. Por conseguinte, devo entender a religiosidade como um modo de me ligar à minha história mas também como um convite a relê-la e a revisitar os textos da minha tradição».

Como explica então que, na Bíblia, o primeiro que ouve a ordem de deixar o pai e a mãe é Adão, o único homem que não tem nem pai nem mãe? «É um verdadeiro mistério. Nisto pode-se ver uma poderosa admoestação feita à humanidade desde o seu início a não se fundir com o mundo das origens, admoestação que na Bíblia é repetida quase a cada geração. Na Bíblia a necessidade da viagem expressa o imperativo de deixar o mundo das origens: é muito diverso do que acontece sobretudo na mitologia grega, na qual as personagens viajadoras, como Ulisses, partem a fim de voltar para casa. Segundo a visão bíblica, deixa-se o mundo do qual se provém e a ele não se faz retorno, a exemplo de Abraão que deixa Ur dos Caldeus, ou dos hebreus que deixam o Egito. Não se trata de um regresso às fontes, mas de um pôr-se a caminho em relação à terra que nos viu nascer, a matriz da nossa história. É interessante para as nossas sociedades monoteístas recordar que escolheram como modelo um homem-pai, Abraão, que deixou o seu pai porque lhe foi dito que o fizesse e teve um destino incrível porque se pôs a caminho. Desde então devemos questionar-nos: que significa permanecer fiéis à nossa herança senão ser filhos de Abraão? A identidade nasce de uma saída da identidade. No meu livro escrevo que é para não transmitir de maneira idêntica que os judeus fazem filhos, para que algo deixe de se reproduzir».

Saída da identidade que não significa negação da origem. «Somos aquilo que somos porque nascemos de uma matriz da qual fomos cortados. A matriz é uma fonte de vida mas se não a deixarmos, é um túmulo. Nos nossos textos há a obsessão do corte, particularmente forte no judaísmo, que faz dele até o sinal da entrada na Aliança. Em hebraico, diz-se cortar uma aliança. É o gesto da circuncisão: a entrada na Aliança passa por um corte na carne, que é uma linguagem simbólica de separação e de rejeição da fusão com o mundo materno».

Uma perene saída do Egito, que a senhoraapresenta como a mãe de todas as mães judias. «Infelizes as mães judias, quantas coisas sobrecarregam os seus ombros! Com efeito, o Êxodo pode ser muito facilmente lido com metáforas obstétricas: a semente de Jacob povoa o Egito que mantém o seu povo prisioneiro. Depois, o povo cresce até provocar as dores de parto, as dez chagas que atingem a matriz egípcia até quando esta deixa os judeus perfurar o saco amniótico para se pôr a caminho rumo à liberdade. É claramente uma relação matriarcal com o Egito da qual foi necessário cortar-se para se pôr a caminho rumo à terra prometida».

Quais são as implicações teológicas desta metáfora obstétrica? «Há a rejeição da teologia do pas-touche, não tocar: não tocar o meu texto, as minhas leituras, a minha herança. É próprio de uma religião viva tocar as leituras passadas. Pesponta aquilo que foi feito por outros antes dela. Não desfaz as costuras, mas retoma o fio».

De que maneira o corte é, por sua vez, um movimento de aliança? «Qualquer corte cria um espaço vazio, uma falha em algo que estava completo. O espaço vazio cria a possibilidade do encontro. A condição do encontro é o encontro da alteridade e a condição da alteridade é o espaço. Não há aliança sem alteridade e sem espaço vazio».

Por conseguinte, nada de monoteísmos sem um verdadeiro reconhecimento da alteridade feminina? «A mulher é sempre, em todos os sistemas e não só nos religiosos, portadora da alteridade principal. É o outro. Simone de Beauvoir dizia que o feminino é sempre o outro, até para a mulher! O feminino, que não é um atributo exclusivo das mulheres, é o género da interioridade ainda escondida, daquilo que falta revelar da vulnerabilidade. Por conseguinte, não surpreende que todos os sistemas tenham em comum um problema com o feminino, como elemento subversivo. Avançar na questão do feminino e das mulheres é a condição principal para progredir na questão da alteridade, do não-crente, do diverso, daquilo que está na periferia. A mulher é o sintoma do lugar que se está pronto – ou não – a destinar ao outro».

A senhora estabelece um vínculo entre o sofrimento das mães e a violência dos filhos na Bíblia. «Examinando as personagens violentas da Bíblia, admirou-me constatar que há um elemento recorrente: Caim, Ismael, Simeão, Levi e Absalão têm em comum as mães, que não são amadas, nem ouvidas, nem compreendidas. Agar, a mãe de Ismael, é mandada para o deserto, Lia não é amada em relação à sua irmã Raquel, a mãe de Absalão é uma presa de guerra. A situação é ainda mais complexa para Eva, mãe de Caim. No momento da sua expulsão do jardim do Éden, Eva é condenada a uma perda de controle, «em relação ao teu marido será o teu instinto, mas ele te dominará», que, segundo os comentadores, tem algo a ver com a entrada no mutismo. Eva perde a palavra e torna-se um ser sem voz. O que está em jogo na relação entre Caim e Abel está relacionado com a estranha relação que se criou entre Adão e Eva. Caim significa «possuído»: está como que possuído pela história da mulher que lhe deu um nome, sua mãe. Está possuído por uma mãe que no seu mutismo faz dele uma medicação para o seu sofrimento. Isto ressoa em muitas histórias de vínculos mãe-filho, de sofrimentos de mães que veem no nascimento do próprio filho uma medicação, a possibilidade de poder «dizer» no seu lugar, o que ele contudo só pode fazer através da violência. Em hebraico a palavra que significa violência é a mesma que significa mutismo».

Face ao avançar dos integralismos, resolver a violência dos filhos passará por uma resposta ao sofrimento das mães? «É preciso perguntar-se em que medida se poderá aplacar a violência dos filhos se não se presta atenção ao sofrimento das mães. O lugar do feminino nas nossas sociedades é crítico e crucial. É preciso fazer também a pergunta sobre a resiliência: como acompanhar os filhos e eventualmente ajudá-los a romper com as mães naquilo que as possui? Como deixar de se considerar vítima? Na Bíblia, Deus interroga Caim para lhe perguntar o que pensa fazer com o seu sofrimento, como agirá para fazer com que ele não o condicione. A pergunta dirige-se a todos nós. Todos somos portadores de uma história de bênção ou de maldição. A questão consiste em saber o que fazemos dela».

Marie-Lucile Kubacki

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23 de Agosto de 2019

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