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Estou contigo

Em Vita (Vida) (2003), Melania Mazzucco narrava aquela página difícil da história que foi a emigração europeia para as Américas; agora, em Io sono con te. Storia di Brigitte Estou contigo. História de Brigitte (Einaudi, 2016), conta a epopeia de uma migrante de hoje. No meio destas duas histórias verdadeiras, não há apenas mais de um século, mas a inversão total de derivas e de desembarques. E o conforto entorpecido do nosso não querer ver.

Tendo que fugir por razões políticas, Brigitte chega do Congo à estação Termini num dia de inverno: depois de meses de estupros de grupo diários, privações e torturas na prisão, sozinha, sem dinheiro, documentos ou endereços, é arremessada sob os alpendres da Praça «dei Cinquecento»: são 17h30 do dia 26 de janeiro. «Não sei onde estou, estou sozinha, na estação de uma cidade desconhecida, de um país desconhecido, de um continente desconhecido. Estou sozinha e não tenho mais nada». Nada atrás nem na sua frente: o seu cérebro já «pirou». Da sua vida anterior (o trabalho como enfermeira, a clínica bem encaminhada, os quatro filhos muito amados) a memória fez tabula rasa por legítima autodefesa, ao passo que fisicamente sobrevive graças ao lixo da estação. Brigitte já está além do abismo quando um religioso lhe rabisca um endereço: via degli Astalli 14 a.

Este será apenas o início de um caminho muito difícil. Porque juntamente com os encontros providenciais com quantos trabalham no Centro Astalli e com aquele mundo de religiosos e de religiosas que escutam, acolhem e acompanham, para quem – como Brigitte – é náufrago de si mesmo e da própria existência agora começa a odisseia de se ter que reencontrar como pessoa numa realidade desconhecida. Correndo o risco de escorregar a cada passo entre fantasmas e esperança.

Os desesperados em fuga não nasceram todos pobres, ignorantes, sozinhos ou marginalizados, mas foram pessoas com a sua história, família, condição social, dignidade. A própria Brigitte tem dificuldade de compreendê-lo: «A palavra réfugiés faz-lhe pensar nos ruandeses (...). Nunca imaginou que um dia teria que associar esta palavra a si mesma».

Limitamo-nos a comover-nos pelos imigrantes vendo as cenas das suas viagens duríssimas, enquanto ignoramos tudo o que acontece depois quando aquela viagem acaba nas nossas estradas. Melania Mazzucco preenche este vazio. «Sujeitamo-nos – escreve – à ditadura da emergência, sem raciocinar sobre a duração nem vislumbrar uma perspetiva. (...) Quem ou o que pensam, são ou se tornarão nos diz respeito. Conhecê-los – e fazer com que nos possam conhecer – é necessário. O futuro constrói-se agora». Estou contigo é um romance forte. Porque o encontro atordoante entre estas duas mulheres tão diferentes – Brigitte protagonista da história e Melania que, armada com caneta, faz renascer aquela história restituindo-lhe a dignidade – perturba também a nós.

Portanto, assim como é impossível olhar para as obras de Tintoretto sem pensar em A longa espera do anjo, esperemos que, depois de ter lido Estou contigo, seja difícil desviar o olhar de quem dorme à margem das nossas ruas sem pelo menos nos questionar sobre qual é a sua vicissitude. Porque se a história de Brigitte ainda não se concluiu, cabe a nós escrever o seu final.

Giulia Galeotti

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20 de Agosto de 2019

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