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Ester, a mudança de um destino

Assim como muitas grandes figuras da história, sobretudo bíblica, também Ester tem origens humildes. É uma órfã judia, deportada para uma terra estrangeira, cuja situação num dado momento muda de maneira surpreendente, radical: por uma misteriosa disposição de Deus, ela torna-se a rainha de uma grande potência mundial e nesta sua função influente consegue salvar o seu povo do perigo da destruição.

Ester faz pensar na fábula popular de Cinderela, que desenvolve um tema muito conhecido pelo folclore universal, variadamente modulado em diferentes culturas, ou seja, a de uma jovem órfã inesperadamente resgatada da miséria e do escondimento.

Andrea del Castagno, «Ester»  (1421 aprox.  –  1457)

Além disso, a história de Ester na corte persa é comparável com a de José no Egito, ou então a de Daniel na Babilónia; o enredo em si não é inédito na Bíblia, e a novidade está na constatação de que aqui a protagonista é uma mulher, ou seja, de que aqui as maravilhas do Senhor se manifestam com estilo feminino.

«A pequena fonte que se transformou num rio» ( Ester 10, 3c), define-a Mardoqueu, seu tutor: metáfora sugestiva das grandes coisas levadas a cabo no silêncio, com suavidade tenaz. A imagem da água e do rio evoca em mim, que sou chinesa, um ditado de Lao Tsé, um sábio que viveu no século V antes da era cristã: «A água não luta por uma sua forma permanente, mas adapta-se com serenidade ao espaço de cada recipiente. A água do rio não derruba e nem sequer aniquila os obstáculos, mas para chegar ao oceano segue o caminho de menor resistência. A água procura doar-se com alegria e busca sempre o lugar mais baixo para tornar fecundo o prado que lhe está acima e ao redor. A água é humilde e só sobe quando evapora, para se elevar sendo a filha do céu». Simples e límpida, reta e corajosa, Ester é a transparência do bem dentro de uma densa rede de intrigas, de ciúmes e de ódios, de lutas pelo poder e de traições. Inicialmente, deflui humilde e escondida, mas depois sobressai de surpresa e cresce com segurança, até dominar e vencer o mal.

A sua história é narrada no homónimo livro bíblico que, juntamente com o de Rute e o outro de Judite, forma uma trilogia de narrações sapienciais ou históricas edificantes que têm o nome de uma mulher. A característica da redação, um pouco complexa deste livro de Ester, teve como consequência que fosse transmitido de duas formas diferentes: uma mais concisa em língua hebraica e a outra, mais ampla, na sua versão grega.

A trama deixa-se resumir com facilidade. Ester vive em Susa, cidade de Babilónia, onde o rei da Pérsia costuma transcorrer o período invernal. Vive sob a tutela de um parente, Mardoqueu, que «a tinha recebido como se fosse a sua própria filha». Por volta do ano 480 antes da era cristã, durante o exílio de Israel, Assuero, o poderoso rei persa «que reinava desde a Índia até à Etiópia sobre cento e vinte e sete províncias» (1, 1), para dar demonstrações da sua riqueza oferece banquetes requintados «ao povo inteiro, desde o maior até ao mais pequenino» (1, 5). Certo dia, no momento culminante das celebrações, o rei decide exibir a «gema» mais preciosa em sua posse: a sua formosa rainha. No entanto, golpe de teatro, a rainha Vasti recusa-se a obedecê-lo: a mulher não se deixa tratar como um objeto, mas revolta-se contra a exploração. Gravemente ofendido, o rei enfurece-se e repudia-a. Vasti sai da cena em silêncio, mas com dignidade. A sua recusa constitui um desafio e uma ironia. Não obstante toda a sua surpreendente riqueza e a sua enorme mania de grandeza, o poderoso Assuero não consegue vergar a vontade da esposa.

A rejeição de Vasti marca a rápida ascensão da «cinderela», que se torna a amada rainha do grande Assuero e de Mardoqueu, que entra em serviço no palácio. «De bela postura e de aspeto agradável» (2, 7), Ester fascina imediatamente: «O rei apaixonou-se por Ester... ela conquistou a graça e o favor real mais do que todas as demais jovens. A tal ponto que o rei colocou sobre a sua cabeça o diadema real» (2, 17). Na realidade, Ester nunca tinha cobiçado a glória e a riqueza da corte, como ela mesma confessa ao Senhor: «Aborreço o emblema do meu alto cargo, que cinge a minha cabeça nos dias em que devo aparecer em público» (4, 17v). Conservou sempre íntegro o seu coração para o Senhor: «Desde que mudou de condições até ao dia de hoje a vossa serva só regozijou em Vós, ó Senhor, Deus de Abraão» (4, 17y). Agora, administra com sabedoria a sua posição delicada: demonstra uma personalidade sólida, capaz de habitar dois mundos tão diferentes entre si, permanecendo ela mesma. A nova rainha não é apenas formosa e meiga, mas é sobretudo um instrumento de salvação, inteligente e intrépido, nas mãos de Deus.

Ao longo do tempo vem a criar-se um forte desacordo entre Mardoqueu e Hamã, um funcionário perverso. Este último, ávido de poder, tece um plano criminoso: eliminar Mardoqueu e todos os judeus presentes no reino da Pérsia. Mediante um sorteio, ele fixa a data exata do extermínio. A conspiração é secreta, mas Mardoqueu toma conhecimento da mesma. No entanto, não consegue fazer nada para se opor a um decreto imperial já ratificado. Só lhe resta interpelar a rainha, a única que ainda pode procurar fazer algo. Entra em contacto com ela, expõe-lhe a gravidade da situação, impele-a a comprometer-se, a intervir, ressaltando o pedido com palavras contundentes, que são um estímulo para a ação e ao mesmo tempo uma chave de interpretação de toda a vicissitude: «Não imagines que, por estares no palácio, serás a única entre todos os judeus que conseguirá escapar» (4, 13). Trata-se de uma temática teológica muito importante: a relação entre salvação do indivíduo e salvação da coletividade. Ninguém é uma ilha, nem sequer na experiência de fé e de salvação. Não existe uma salvação egoísta, não existe um caminho de fé sem amor pelos outros. Portanto, com uma pergunta Mardoqueu provoca ainda mais Ester, convidando-a a interpretar profundamente a sua própria vida, de modo particular a sua inesperada subida ao trono: «E quem sabe se não foi devido a estas circunstâncias que chegaste à realeza?» (4, 14). E desta forma faz sobressair outro tema teológico: o da providência de Deus, que tudo dispõe segundo um seu plano misterioso, maravilhoso, imprevisível e insondável.

Ester encontra-se diante de uma escolha imprescindível: arriscar a própria vida para salvar o seu povo ou salvar a própria vida, mas correndo o risco de destruir o seu povo? Sem hesitar, com determinação, escolhe a primeira solução. Jejua durante três dias, chamando em causa o povo inteiro, e em seguida pronuncia uma declaração lapidar: «Não obstante a lei, irei ter com o rei; se também eu tiver que morrer, pois, morrerei» (4, 16). Depois, retira-se e reza: eleva com intensidade um hino ao poder e ao amor misericordioso de Deus: «Recordai-vos de mim, ó Senhor, manifestai-vos no dia da nossa aflição e infundi-me coragem, ó Rei dos deuses e Dominador sobre todos os poderes. Colocai nos meus lábios uma palavra bem ponderada face à ameaça do leão e ponde no seu coração o ódio contra aquele que nos combate, para o extermínio seu e de quantos estiverem de acordo com ele. Quanto a nós, salvai-nos com a vossa mão e vinde em nosso socorro, porque me encontro sozinha e não tenho ninguém além de Vós, ó Senhor!» (4, 17r-17t). Fortalecida pela oração ela anima-se e, revestida com a luxuosa indumentária de rainha, vai e enfrenta o rei. Com confiança no Senhor e solidária com os seus compatriotas, Ester está pronta a colaborar no projeto divino para mudar o destino do seu povo: «O seu rosto estava radiante, como que inspirado pela benevolência». No entanto, para além de toda essa beleza, sente que dentro de si bate o coração de uma mulher simples e humilde, consciente da própria debilidade, a braços com um empreendimento maior do que ela, pelo que «o seu coração estava cheio de temor» (5, 1b). É assim que a pequena nascente sobressai do escondimento, corre com força e decisão cada vez maiores, tornando-se um rio caudaloso.

«Que desejas, Ester, qual é o teu pedido? Dar-te-ei o que quiseres, mesmo que seja metade do meu reino» (5, 3). Impelido por um afeto sincero e impressionado pelo gesto intrépido da sua rainha, o rei promete cumprir todos os seus desejos. Ester sabe agir de maneira justa e no momento certo, e desta forma consegue enfrentar com sabedoria a emotividade do rei. Prepara três banquetes, para os quais convida inclusive o seu adversário Hamã, que chega a iludir-se que caiu nas graças do rei e da rainha. Mas no terceiro banquete, quando a vicissitude alcança o apogeu do seu pathos, estrategicamente Ester revela ao rei a conspiração mesquinha de Hamã e o seu plano maligno de exterminar o povo judeu. A história acaba com o enforcamento do ministro perverso naquele poste que precisamente ele tinha mandado erigir para o seu inimigo Mardoqueu. Por conseguinte, o bem triunfa sobre o mal, e o perverso padece a atrocidade que ele mesmo preparou para o bom. Deste modo, a data que deveria marcar a aniquilação do povo de Deus torna-se um dia de desforra. A má sorte transforma-se em boa sorte.

Este acontecimento é tão importante que para o recordar chegou a ser instituída uma festa, desde então celebrada com alegria ao longo dos séculos, até aos dias de hoje. É a celebração de purim, festa da inversão da sorte, marcada para o dia 15 de Adar. Pur significa «sorte»: trata-se de um termo de origem persa, sucessivamente recebido na língua hebraica e transcrito na forma plural purim. O sentido desta festa consiste em recordar que Deus salva o seu povo, invertendo o seu destino. E é exatamente Ester que se encontra na origem desta inversão. Ester: modelo de fé em Deus e de amor pelo seu povo. Numa situação de prepotência que parecia inexpugnável, graças a esta jovem mulher, o bem derrota o mal, a vida renasce, a alegria volta a florescer no semblante de Israel. Ester permanece na tradição judaica como um sinal vivo de júbilo e de esperança. É ela que restitui a vontade de viver ao coração de um povo devastado e esgotado, é ela que sabe intuir nas trevas a resplandecência da luz. É ela a pequena fonte que brota numa terra árida.

Ester pode ser considerada um paradigma da figura feminina na Bíblia. No Antigo Testamento, não obstante o contexto cultural que lhes é desfavorável, as mulheres não são invisíveis: as mães de Israel, como Sara, Rebeca e Raquel; as mulheres carismáticas, como Míriam e Débora; as mulheres exemplares, como Rute, Ester e Judite; juntamente com numerosas outras mulheres menos conhecidas ou até anónimas, todas elas são interlocutoras de Deus, reveladoras do seu mistério e colaboradoras na realização do seu desígnio. Principalmente nos momentos de crise e de incerteza, na hora em que é necessário enfrentar os desafios mais difíceis, na situação em que se exige um maior impulso de esperança, um suplemento de autenticidade humana, de radicalidade e de heroísmo, eis que Deus age por meio da mulher. No Antigo Testamento a mulher sobressai como o lugar dialético entre a debilidade humana e a força divina, a prova autêntica daquilo que o ser humano é capaz de levar a cabo com o auxílio de Deus.

No meio desta fileira feminina sobressai Maria, a «bendita entre as mulheres», a mulher humilde na qual Deus realiza «maravilhas», a mais elevada manifestação da identidade própria de uma mulher: ser o espaço ideal, onde Deus revela a sua glória e celebra a sua vitória de salvação. Assim como Ester, e até mais do que ela, Maria observa com otimismo realista o cenário do mundo, vivendo com esperança os altos e baixos da história. Ela confia em Deus, confia no Todo-Poderoso que fez e que continua a fazer «maravilhas». Mediante o seu cântico do Magnificat Maria anuncia, testemunha e celebra a vitória de Deus. A inversão das posições entre ricos e pobres, entre poderosos e humildes, entre fortes e frágeis, constitui sinal e manifestação desta vitória escatológica já presente com o tornar-se homem do Filho de Deus. O Magnificat de Maria transcende a alegria de purim, antecipa o exsultet pascal celebrando uma passagem, uma inversão definitiva do destino da humanidade. 

Na história de Ester, e mais ainda no cântico de Maria, sobressai a voz apaziguadora de Jesus: «Vós enfrentareis tribulações no mundo, mas tende confiança: Eu venci o mundo!» ( João, 16, 33).

Maria Ko Ha-Fong

A autora

Maria Ko Ha-Fong é chinesa, pertence ao Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Estudou Ciências da educação na Itália e Teologia na Alemanha, obtendo o doutoramento em Teologia bíblica na Universidade de Münster. Ensina Novo Testamento e matérias de Pastoral bíblica na Pontifícia Faculdade de Ciências da educação «Auxilium» em Roma e, periodicamente, no Holy Spirit Seminary, em Hong Kong, e em vários Seminários na China. É consultora do Pontifício conselho para a promoção da unidade dos cristãos.

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22 de Outubro de 2019

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