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Está em jogo o futuro da humanidade

· O compromisso das religiões em vista do encontro de Assis ·

Falar do compromisso das comunidades religiosas pela justiça e pela paz significa evocar a sua cooperação em vista do bem comum da sociedade, no âmbito de um seu diálogo. Enquanto se perguntava: «Com quem dialogar?», Paulo VI respondia: «Ninguém é estranho ao seu coração materno. Ninguém é indiferente ao seu ministério. Ninguém, se não quiser, é seu inimigo. Não é em vão que a Igreja se diz católica. Não é em vão que está encarregada de promover no mundo a unidade, o amor e a paz» ( Ecclesiam suam , 53). Depois de ter afirmado o princípio da catolicidade, o Papa identificava três círculos concêntricos de diálogo. O primeiro deles é o diálogo com a humanidade; o segundo refere-se aos crentes em Deus; o terceiro remete para os irmãos cristãos separados.

Já ao nível da humanidade — primeiro círculo — Paulo VI desejava que o diálogo se realizasse ao serviço da paz e se alargasse «das relações entre os vértices das nações como hoje se diz, as existentes no interior das mesmas e as suas bases, tanto sociais como familiares e individuais. Assim se difundirão em todas as instituições e em todos os espíritos o sentido, o gosto e o dever da paz» ( ibidem , 1, 59). A mesma vontade de diálogo era afirmada pelo Pontífice a nível inter-religioso, com os crentes em Deus — segundo círculo (cf. ibidem , 60) e, a nível ecuménico, com os irmãos cristãos separados — terceiro círculo (cf. ibidem , 61-62). Paulo VI convidava além disso a dar realce ao que une os cristãos e não ao que os divide.

A propósito especificamente do diálogo com os outros crentes em Deus, Paulo VI pensava em particular nos judeus, nos muçulmanos e nos seguidores das grandes religiões afro-asiáticas. O Concílio Vaticano II retomou e alargou estas intuições de Paulo VI quando, na constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo, ressaltou a importância do diálogo com os irmãos cristãos separados, com os crentes e com os não-crentes — inclusive os inimigos da Igreja — enquanto cooperação para a promoção do bem comum, ou seja, para a construção do mundo na paz (cf. Gaudium et spes , 92).

As culturas e as religiões possuem todas um património de valores e de riquezas espirituais que umas e outras devem saber compartilhar, e que podem ser consideradas uma preparação para Cristo (cf. Lumen gentium , 16; Nostra aetate , 2; Evangelii nuntiandi , 53; Catecismo da Igreja Católica , 843). Estas tradições espirituais e morais podem assim permitir que um diálogo fecundo se ancore numa plataforma comum. É nela que se pode desenvolver um diálogo sincero, no pleno respeito das diferenças e das diversidades das tradições.

Cada comunidade religiosa está chamada a cultivar o diálogo com as outras religiões, a abrir-se à escuta, para poder caminhar juntas na paz e oferecer o que cada uma possui de melhor para construir um mundo mais justo e solidário. Mesmo se nem sempre é possível travar um diálogo a nível teológico ou doutrinal, contudo existem outros três caminhos, que merecem ser aprofundados, de modo particular o caminho do diálogo a nível da vida e das obras (cf. Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e Congregação para a Evangelização dos Povos, Instrução Diálogo e anúncio: reflexões e orientações ; 19 de Maio de 1991). Como qualquer um deles, o diálogo entre os seguidores das religiões exige não só que se esteja disposto e desejoso de dialogar, mas também que sejamos humildes, para nos pormos à escuta uns dos outros. Se não houver esta abertura, nenhum diálogo será possível.

O próprio diálogo supõe que os interlocutores se acolham e se aceitem na sua especificidade, com as próprias riquezas e debilidades. Esta é a via mestra do diálogo e da cooperação ao serviço do bem comum: respeitar o outro, sem descuidar a própria identidade, mas procurando compreender o outro.

Os seguidores das diferentes religiões estão chamados a unir os seus esforços para reforçar a solidariedade e a fraternidade entre os povos (cf. Gaudium et spes , 92) lutando sobretudo contra as causas das injustiças e trabalhando para transformar as mentalidades e as estruturas que, infelizmente, muitas vezes são portadoras de pecado (cf. João Paulo II, encíclica Sollicitudo rei socialis , 36; cf. Pontifício Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da doutrina social da Igreja , 566). Mais em geral, seria necessário que os crentes se comprometessem a eliminar as causas da pobreza e a trabalhar juntos pelo desenvolvimento autêntico do homem, Como recordei na assembleia das Nações Unidas por ocasião da cimeira sobre os objectivos do milénio para o desenvolvimento (Nova Iorque, Setembro de 2010), é contra a pobreza que se deve combater, e não contra os pobres.

A origem e o objectivo da luta por uma ordem justa e solidária nos vários níveis da sociedade é sempre a pessoa humana. Como ensina a Igreja, a pessoa é titular de direitos inalienáveis em virtude da sua criação à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26-27). Isto está na base da sua dignidade transcendente e intangível, sagrada. Defender esta dignidade quando é espezinhada significa defender o homem e, ao mesmo tempo, honrar a Deus, do qual se é imagem.

Neste contexto merece uma atenção especial o direito à vida porque sem ele é impossível gozar dos direitos. O mesmo pode ser repetido para o direito à liberdade religiosa, fonte e fundamento dos outros direitos porque diz respeito ao que é mais íntimo e secreto no homem, ou seja, a sua consciência. Não é por acaso que o Concílio Vaticano II ensina que, em âmbito religioso, ninguém pode ser obrigado a agir contra a própria consciência (cf. Dignitas humanae , 2).

Falar do direito à vida significa evocar ao mesmo tempo o lugar onde ela surge e cresce, isto é, a família, uma instituição que hoje é atacada de várias partes. O direito da pessoa a fundar uma família em conformidade com o desígnio do Criador, a ter filhos, a educá-los segundo as próprias convicções religiosas nunca pode estar sujeito a negociações instrumentalizadas. Os poderes públicos têm a obrigação de ajudar a família para que ela possa ser o lugar do acolhimento e do crescimento da vida, garantindo-lhe protecções jurídicas adequadas para que consiga contribuir para o bem dos seus membros e de toda a sociedade. Como recordou o Papa Bento XVI durante a sua viagem à Croácia: «A abertura à vida é sinal de abertura ao futuro, de confiança no futuro, assim como o respeito da moral natural liberta a pessoa, em vez de a mortificar» ( Homilia , Zagrábia, 5 de Junho de 2011; cf. Caritas in veritate , 28). Todas estas razões fazem com que a defesa da vida e da família constitua um dos âmbitos privilegiados da colaboração entre os seguidores das diversas religiões.

Para que a cooperação das comunidades religiosas no serviço à justiça e à paz seja fecunda, é preciso que sejam evitadas algumas armadilhas e superados certos obstáculos. A primeira armadilha é a instrumentalização da religião com a finalidade de «mascarar interesses ocultos, como por exemplo a subversão da ordem constituída, a apropriação de recursos ou a manutenção do poder por parte de um grupo» ( Mensagem para o Dia mundial da paz de 2011 , n. 7).

Muitas vezes, esta armadilha é consequência do fanatismo e do fundamentalismo que procuram impor, com a força e a violência, as próprias convicções aos outros, esquecendo-se de que «a verdade não se impõe a não ser com a força da própria verdade, a qual se difunde nas mentes com suavidade e, ao mesmo tempo, com vigor» como justamente é ensinado pelo Concílio Vaticano II ( Dignitatis humanae , 1; cf. 10 e 11 ).

A violência em nome de Deus encontra facilmente o seu radicamento num contexto de cegueira religiosa. Uma forma de violência particularmente preocupante é a do fenómeno do terrorismo contra o qual o Papa João Paulo II pronunciou palavras fortes na sua mensagem para o Dia mundial da paz de 2002. Enquanto reconhecia que «o recrutamento dos terroristas, de facto, é mais fácil em contextos sociais onde os direitos são espezinhados e as injustiças longamente toleradas», acrescentava: «No entanto, deve-se afirmar claramente que as injustiças existentes no mundo jamais podem ser invocadas como desculpa para justificar os atentados terroristas» (n. 5). Ao concluir, fazia apelo, em particular, aos responsáveis religiosos para que condenem qualquer violência cometida em nome de Deus. Ela é sempre um crime (cf. n. 6).

Aliás, hoje existem formas dissimuladas de violência que são uma grave ameaça para a vida e para o futuro da humanidade. É suficiente pensar na violência contra o direito à vida, como é difundida e promovida por uma mentalidade antinatalista de várias formas: contracepção, aborto, legislações contrárias ao nascimento, esterilizações promovidas nos países pobres por obra de algumas organizações não governamentais, controle obrigatório dos nascimentos, eutanásia (cf. Caritas in veritate , 28).

Por conseguinte, é importante que as comunidades religiosas — em nome do Deus fonte, autor e fim último da vida — unam os seus esforços para denunciar esta mentalidade a todos os níveis, e para se comprometerem na promoção e na defesa da vida desde a sua concepção até à morte natural. Está em jogo o futuro da nossa humanidade.

A primeira atitude fundamental, sem a qual não pode haver diálogo nem autêntica colaboração entre os crentes, é o conhecimento aprofundado do outro e das diversas tradições religiosas. O «sermão da montanha» proclama: «Bem-aventurados os artífices de paz, porque serão chamados filhos de Deus» ( Mt 5, 9). Unicamente o conhecimento teórico não é suficiente, são necessários caminhos que ajudem a concretizar práticas e colaborações específicas. A paz e a justiça não se podem realizar a não ser mediante instituições e realizações positivas, ou seja, através de pessoas que trabalhem constantemente pelo bem recíproco. Mas isto depende também da abertura dos homens e dos povos ao Senhor, àquele Único que constrói e erige a unidade entre os homens, a justiça e a paz.

Nisi Dominus aedificaverit domum, in vanum laborant, qui aedificant eam — «Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores» ( Sl 127). Sem a oração não pode haver paz nem justiça verdadeira. Eis por que é importante rezar constantemente para que o Senhor conceda às comunidades e aos povos a paz e a justiça que o mundo sozinho não pode garantir. Pois é Ele quem, de qualquer povo, pode suscitar artífices de paz e de justiça que tenham a coragem de realizar gestos para fazer progredir a causa da justiça e da paz no mundo de hoje, homens e mulheres de Deus que saibam manifestar o seu rosto genuíno (cf. Gaudium et spes , 19). «Orar pela paz significa abrir o coração humano à irrupção da força renovadora de Deus. Com a força vivificadora da sua graça, Ele pode criar oportunidades para a paz mesmo onde pareça que existam somente obstáculos e retraimento; pode reforçar e ampliar a solidariedade da família humana, apesar de velhas histórias de divisões e lutas. Orar pela paz significa rezar pela justiça, por um recto ordenamento no âmbito das Nações e nas relações entre elas.

Quer dizer também rezar pela liberdade, especialmente pela liberdade religiosa, que é um direito fundamental humano e civil de cada indivíduo. Orar pela paz significa rezar para alcançar o perdão de Deus e, ao mesmo tempo, crescer na coragem de que necessita quem, por sua vez, quer perdoar as ofensas sofridas» (Beato João Paulo II, Mensagem para o Dia mundial da paz de 2002 , 14).

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23 de Outubro de 2019

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