Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Em salmoura

· Como fala Jorge Mario Bergoglio ·

A missa de sexta-feira, 10 de Maio, na Casa de Santa Marta vai ficar gravada na memória. O Papa Francisco definiu a característica fundamental da personalidade cristã, afirmando que «os cristãos são homens e mulheres alegres», com uma alegria que não é devida a motivos contingentes: é um dom do Senhor que enche a interioridade da pessoa. Mas será que podemos «engarrafar» um pouco desta alegria – perguntou-se depois – para a levar sempre connosco?

Não sei se atribuí-la à nostalgia, mas por vezes parece-me que sai para fora o químico que ele tem dentro. A expressão «engarrafar» faz-me pensar nas provetas, nos alambiques e em todos as parafernálias de laboratório. Quase senti o cheiro do laboratório do meu pai. Penso não errar estabelecendo esta analogia, porque depois respondeu com um «Não» à pergunta sobre a possibilidade de «engarrafar» a alegria: «Não, porque se quisermos possuir esta alegria só para nós – diz Bergoglio, poderíamos acrescentar para nosso uso e consumo – ela acaba por apodrecer, como o nosso coração e, no final o nosso rosto já não transmite alegria, mas apenas nostalgia, uma melancolia que não é saudável. Às vezes, estes cristãos melancólicos têm uma cara de “pepino de conserva” e não de pessoas alegres que têm uma vida boa».

Não me enganei, aquele «vinho de Verão» não compartilhado – como aquele do qual fala Ray Bradbury – acabava por azedar. Tornava-se vinagre. Justamente um processo químico.

«Mas não compreendo porque ele não gosta dos meus queridos eingelegte Gurken, os meus pepinos de conserva. Só falta que ele critique a «cerveja» queixei-me com um amigo que me persegue com as suas histórias. «Ele não tem nada contra os pepinos de conserva, mas contra quem tem uma cara azedada» respondeu-me.

Admiti o meu erro. Estas caras azedadas não constituem uma novidade. Vieram-me à mente algumas recordações, nostalgias de um tempo em que, na escola dos jesuítas, ele dizia para «não deixar azedar a alegria». Tratava-se de conversas informais, fora do horário escolar e naquele dia recordo que nos detemos a falar dos paroquianos que frequentavam a igreja do instituto, observando que predominavam os rostos melindrados, precisamente as «caras azedadas».

«A fé é alegria, a Palavra de Deus é alegria. Gostam dos rostos melindrados», perguntou na altura, como pergunta ainda hoje. 

Jorge Milia

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

24 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS