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Em família nunca se pode desistir

É noite e então eu escrevo: os nossos quatro filhos acabaram de adormecer nas suas camas; quanto às suas t-shirts manchadas de molho de tomate, de chocolate e de lama, descansam na lixívia. O meu marido, depois de os ter feito capitular com ameaças, promessas e mais uma leitura da Ilha do Tesouro, corrige os deveres dos seus estudantes sentado numa cadeira que range cada vez que ele procura uma posição mais confortável. No entanto, em família nada é confortável: nem as cadeiras, nem as camas e nem sequer os relacionamentos. A família agradável, pacífica e harmoniosa é uma invenção publicitária, uma etiqueta devota ou uma superstrutura ideológica, alimentada por aqueles seus detractores, que a retratam como um refúgio mesquinho e claustrofóbico. 

Andrea Mantegna, «Encontro» (1465-1474, Quarto dos Esposos, Mântua, detalhe)

E no entanto, a família constitui um ambiente vasto e agitado, que exige recursos e energia, que tem necessidade de paixão e de paciência: que evoca uma vida em pleno desenvolvimento. Em família, a palavra «desapego» é proibida, pois os vínculos são muito próximos: todos vivem envolvidos num emaranhado de relacionamentos, ao qual é impossível subtrair-se e que, quer se queira quer não, é preciso enfrentar. Se os amigos somos nós que os escolhemos, se os inimigos somos nós que os fazemos, os chamados parentes já os encontramos prontos: se entre os conhecidos existe um limite, que se pode definir como «respeito» ou talvez como «sadia hipocrisia», em casa as distâncias abreviam-se e os espaços sobrepõem-se. A família torna-se o ring no qual as liberdades dos respectivos membros se encontram e desencontram, mais ou menos desportivamente. A luta é infinita e a derrota é um luxo que ninguém se pode permitir: em família levam-se e dão-se pancadas, mas nunca se deve desistir. E no entanto, precisamente esta tarde, enquanto no corredor do hospital eu esperava pelo meu filho Thomas que fazia logopedia, ouvi uma mãe concordar com outra sobre o modo como a vida familiar era tediosa, repetitiva, limitada e até frustrante. Eis que então olhei para mim mesma e me envergonhei por causa da mancha de creme de arroz em evidência na manga da minha camisa, das jóias que já não tenho o tempo (e talvez nem sequer a vontade) de usar, dos sapatos desportivos de pano já desgastados, do telemóvel com o ecrã embaciado por causa das impressões digitais dos meus filhos. Mas depois aquele torpor inicial, um fragor surdo proveniente das minhas vísceras começou a tocar as trombetas da contra-ofensiva. E então gostaria de perguntar àquelas mães entediadas e desencantadas o que tinham experimentado, por exemplo, quando sentiram pela primeira vez no seu ventre um bater de asas de borboleta, de quem seguraram com força a mão no momento em que os seus filhos nasciam, a que santo se confiaram quando, jovens e inexperientes, chegaram a casa depois de ter recebido alta do hospital com o último modelo de carrinho de bebé e com uma criança que gritava e que dali em diante teria pretendido muito, se não tudo. Além disso, gostaria de tomar conhecimento da sua preocupação pela primeira vacina, da sua trepidação pela primeira peça de Natal na escola, da sua raiva pela infinita série de brigas sobre o modo de se vestir, o que comer e quando, à noite, desligar a televisão ou o computador. E depois elevei, tive que elevar, o olhar para Miriam, que me gaguejava a lição de história sobre os Aqueus, enquanto Angelica não se soltava do meu pescoço, procurando obter que eu brincasse pelo menos uma vez com ela sentada nos meus joelhos. E tudo isto no corredor cor de cinza e sujo de um hospital, onde uma hora de espera naquelas condições corresponde ao décimo terceiro trabalho de Hércules, para permanecer no âmbito helénico. Contudo, os trabalhos de Hércules são tudo menos tédio: são aventuras. São limitações e provas que o herói da história deve superar e vencer, com o corpo e com a mente, mas o verdadeiro herói – embora às vezes ser um semideus não faria mal – não é todo-poderoso, caso contrário a história terminaria no seu início. O herói autêntico é humilde: é um comum mortal, que aceita mergulhar completamente na verdade da experiência, colocando-se ao serviço da mesma. A vida familiar é precisamente aquilo que nos insere todos os dias em situações inesperadas, imprevisíveis: como no caso dos protagonistas de um romance, não ter o controle de tais situações constitui o pré-requisito fundamental para nele participar. E assim, não obstante o meu smartphone me tentasse ao esquecimento do isolamento, não lhe cedi, e a partida dos Aqueus para Troia tornou-se a ocasião para discorrer sobre um pai que sacrifica a própria filha para propiciar os ventos, de uma mulher que escapa por amor, do valor da beleza interior e exterior. Miriam, que tem nove anos, demonstrou que tem ideias muito claras sobre a importância de que o coração, mais do que os cabelos louros, deve estar «no lugar correcto», enquanto Angelica, embora entendesse os termos do debate, não abandonou a sua posição de predomínio no meu colo e chegou a aumentar a dose, começando a recitar uma poesia que tinha aprendido na manhã daquele mesmo dia no jardim-de-infância. Finalmente, Miriam estabeleceu que durante este Verão iremos à Grécia, para ver a porta dos leões de Micenas e eu, não obstante o pensamento de quatro filhos sob o sol ardente de Agosto, respondi: «Por que não?». E no entanto, o pensamento predominante imporia, para um Verão digno de respeito, praia e guarda-sol acompanhados de mães esbeltas, pais possivelmente tatuados, filhas bailarinas de «baby-dance» e filhos pequenos campeões de futebol de salão. Mas ao «gozo convencional», a família é capaz de opor um «gozo livre» dando prova, numa inesperada inversão de perspectiva, da sua intrínseca natureza anárquica, irredutível a qualquer arregimentação social. Com efeito, é unicamente naquele ambiente doméstico, portador de compreensão e de humorismo, que Thomas vestido de Zorro come lulas com luvas de cetim preto, ou que Miriam interpreta apaixonadamente na sala de estar Lucy In The Sky With Diamonds , sem seinteressar por mais uma «boy-band» que está na moda e da qual as suas amigas falam durante a recreio. No mundo externo as pessoas saem vestidas de uniforme, embora seja de casaco e gravata; entoam todos a mesma canção porque é ali, mais do que no seio da família, que vigora uma disciplina rígida e uma rotina igualmente severa, incomparáveis com a independência que se vive em casa. A família é o ambiente que protege a liberdade pessoal contra a padronização agressiva (interpretada como dinamismo estimulante) que impera no mundo externo. Além disso, as paredes domésticas encerram uma vida diária rica de afectividades e inspirações espirituais onde, não obstante o cansaço e a repetitividade, a opacidade dos dias abre-se a uma beleza inexplicável e repentina, a uma dimensão vital e fontal da existência. Quanto a mim, comecei a escrever poesias impelida por este suplemento de vida, por uma maravilha inesperada e resplandecente que não podia ser penetrada pelo pensamento lógico, mas unicamente balbuciada, representada e contemplada pelo verso lírico. A vida familiar, submergida na nossa sociedade por uma retórica sentimental e por estereótipos comerciais, revelou-se como uma escola do espírito, um modo de intuir a transcendência que irrompe na realidade de todos os dias. A morte de um peixe dourado, quando é acompanhada pela consternação das crianças, exige recursos para responder a exigências fundamentais de sentido; os tanques de uma piscina de periferia só se atravessam com o encorajamento do olhar da própria mãe, em trepidação por detrás do vidro; a luta quotidiana não concede trégua ao cansaço dos pais, que combatem como leões por aquilo que têm de mais precioso no mundo. Foi sobre estas realidades que eu escrevi. As provas concretas, que a experiência da família comporta, estimulam a criatividade e requintam a vida do espírito que empreende com Deus um diálogo pessoal, segundo modalidades não convencionais. Trata-se sobretudo de uma conversa constante, não codificada, que se verifica em qualquer lugar e em qualquer momento: que deriva da urgência de pedir ajuda e da necessidade de agradecer. Onde existe muito amor, complexo, emaranhado e transbordante, invoca-se a salvaguarda de Deus, pedem-se-lhe conselhos; assim como a Ele se dá graças quando se é «ordinariamente» inundado por uma beleza para a qual um só coração não parece ser suficiente. Deste modo, quando estamos todos reunidos em volta da mesa e penso que, devido ao acidente que o meu marido teve há meses, poderíamos nunca mais estar sentados todos juntos, dou graças a Deus; da mesma forma que, exausta, vejo Emily abrir-se num sorriso travesso, assim que a tiro do carrinho de bebé onde se desesperava. Em síntese, a família é uma experiência que deve ser vivida até ao fundo e sem ceder a compromissos, para que se torne uma verdadeira oportunidade de crescimento e de amadurecimento, e a fim de que o nosso amor imperfeito, recalcitrante e contraditório seja corroborado e fortalecido, abrindo-se finalmente diante da imprevisível e surpreendente aventura da vida.

A autora

Elena Buia Rutt nasceu em 1971 e vive em Roma. Colabora para as páginas culturais de diversos diários e revistas. Escreveu ensaios sobre Pier Vittorio Tondelli e Flannery O’Connor, tendo traduzido obras inéditas de Mary Oliver, Flannery O’Connor e Rowan Williams. A sua primeira colecção de poesias, intitulada Ti stringo la mano mentre dormi (Fuorilinea, 2012), chegou entre as três obras finais do prémio Fogazzaro. Em Junho será publicado Il mio cuore è un asino , segundo volume de poesias, impresso pela casa editora Nottetempo. 

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12 de Dezembro de 2019

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