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Em diálogo com Aquele que diz e faz

· Apresentada a Exortação apostólica pós-sinodal de Bento XVI «Verbum Domini» ·

«Enquanto Ele dizia estas coisas, uma mulher da multidão levantou a voz e disse-lhe: “Bem-aventurado o ventre que te carregou e o seio que te amamentou!”. Mas Ele retorquiu: “Ao contrário, felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática!”» ( Lc 11, 27-28). À multidão que ouve o clamor de admiração desta mulher, impressionada diante da sua pregação, Jesus responde: «Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática!».

Save A Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, é a retomada da parte da Igreja desta resposta de Jesus Cristo, na consciência de que também ela, desde há vinte séculos, dá testemunho da Palavra de Deus no mundo e para o mundo. No Concílio Vaticano II, a Igreja expressava deste modo o conteúdo essencial da Revelação: «Deus invisível, no seu grande amor fala aos homens como a amigos, entrando em contacto com eles para os convidar e admitir na comunhão consigo» (Constituição pastoral Dei Verbum , 2).

A Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini retoma a mesma mensagem, a quarenta e cinco anos de distância: «Deus dá-se-nos a conhecer como Mistério de amor infinito em que o Pai, desde a eternidade, exprime a sua Palavra no Espírito Santo. Por isso o Verbo, que desde o princípio está em Deus e é Deus, revela-nos o próprio Deus no diálogo de amor entre as Pessoas divinas e convida-nos a participar nele» (Bento XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini VD, 30 de Setembro de 2010, n. 6).

a. O paradigma mariano da revelação

Inspirando-se na Palavra de Deus do modo como ela é revelada na sua profundidade trinitária e cristológica no prólogo de São João e nos escritos paulinos (cf. VD, nn. 5-17), a Exortação Apostólica pós-sinodal desenvolve uma visão dinâmica e dialógica da Revelação, em sintonia com a Constituição conciliar Dei Verbum. Com efeito, a revelação cristã não oferece em primeiro lugar uma informação privilegiada em relação a Deus, este Deus desconhecido do qual todas as religiões do mundo se esforçam por se aproximar, como que às apalpadelas (cf. Act 17, 23-27). A revelação cristã é, essencialmente, uma chamada ao diálogo, uma Palavra criadora de acontecimento e de encontro, que a Igreja experimenta desde as suas próprias origens.

O Papa Bento XVI traduziu numa célebre fórmula este carácter de acontecimento da revelação: «Cremos no amor de Deus — escreve o Santo Padre — assim o cristão pode expressar a escolha fundamental da sua vida. No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas sim o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e com ele um rumo decisivo» (Bento XVI, Carta Encíclia Deus caritas est, 1). Portanto, o cristianismo não é o fruto de uma sabedoria humana ou de uma ideia genial, mas sim de um encontro e de uma aliança com uma Pessoa que confere à existência humana a sua orientação decisiva e a sua forma.

Nesta perspectiva, a figura da Virgem Maria que cooperou no mistério da Encarnação do Verbo, permanece o paradigma insuperável da fecunda relação da Igreja com a Palavra de Deus. Eis por que motivo o Santo Padre assume de modo muito explícito, no n. 28 da Verbum Domini, a perspectiva mariana formulada pelo próprio Sínodo: «A atenção devota a amorosa à figura de Maria como modelo e arquétipo da fé da Igreja é de importância capital para realizar também hoje uma mudança concreta de paradigma na relação da Igreja com a Palavra, tanto na atitude de escuta orante como na generosidade do compromisso pela missão e pelo anúncio».

A Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini responde, assim, àquilo de que a Igreja neste início de milénio tem necessidade. Dado que também no século passado o conhecimento da Palavra de Deus progrediu de maneira notável, particularmente graças aos estudos bíblicos, à reforma litúrgica, à catequese, ao ecumenismo e à difusão mais ampla da Palavra de Deus, ainda subsiste um vazio a preencher no que diz respeito à vida espiritual do Povo de Deus. Ele tem o direito de ser inspirado e alimentado por uma abordagem mais orante e mais eclesial das Sagradas Escrituras. Pelo menos foi isto que sentiram os Padres sinodais no sopro do Espírito Santo no meio deles e que eles manifestaram nas suas orientações pastorais.

Se é verdade que é preciso conhecer as Sagradas Escrituras para conhecer Jesus Cristo, é preciso sobretudo pregar com as Sagradas Escrituras para encontrar nelas pessoalmente Cristo. Daqui, os numerosos desenvolvimentos propostos pela Verbum Domini sobre a Liturgia, sobre a leitura orante e assídua dos textos sagrados, sobre a escuta e o silêncio, sobre a partilha da fé em relação aos textos bíblicos, de modo particular naqueles que dizem respeito à liturgia dominical.

Trata-se de uma boa nova para os homens e as mulheres dos dias de hoje, que são solicitados pelas mensagens contrastantes dos poderosos meios de comunicação, às vezes em detrimento da sua busca de sentido e de felicidade. «Portanto — afirma desde o seu início a Verbum Domini — criados à imagem e semelhança de Deus Amor, só podemos compreender nós mesmos na aceitação do Verbo e na docilidade à obra do Espírito Santo. É à luz da Revelação realizada pelo Verbo divino que se esclarece definitivamente o enigma da condição humana» ( VD, 6).

O homem descobre no encontro com Jesus muito mais que um seu ensinamento como Mestre de doutrina; encontra a sua amizade pessoal e personalizadora. A fé cristã é comunhão pessoal e eclesial com o Verbo de Deus que nasceu da fé de uma mulher.

Convido os leitores a meditar com atenção os trechos substanciais sobre a Virgem Maria e a Palavra de Deus, que conferem uma tonalidade a toda a Exortação. Maria é «Mãe do Verbo de Deus» e «Mãe da fé» ( Ibid., nn. 27-28), o Ícone por excelência da Lectio divina, (cf. ibid., nn. 86-87) Maria «Mater Verbi et Mater laetitiae» ( Ibid., n. 124).

b. O sentido espiritual das Escrituras

Um dos temas de relevo das Assembleias sinodais foi a hermenêutica da Sagrada Escritura no interior da Igreja (cf. ibid., nn. 29-49). Objecto de debates vigorosos e de uma intervenção autorizada do Santo Padre, este tema foi retomado e desenvolvido na Verbum Domini, ao longo de quase quarenta páginas. Não é fácil resumi-las em poucas frases. Todavia, digamos que a orientação dada à hermenêutica bíblica é clara e construtiva, situando a ciência bíblica, exegética e teológica ao serviço da fé da Igreja e no seu interior. As ciências sacras, quer sejam filológicas, literárias, históricas, patrísticas ou especulativamente teológicas, não podem fazer abstracção da fé da Igreja em qualquer momento do seu desenvolvimento e da sua metodologia.

Daqui a insistência do Documento pós-sinodal, diante do «perigo de dualismo» entre exegese científica e teológica, sobre a unidade e a complementariedade das duas disciplinas e sobre o seu vínculo com a vida espiritual. Com efeito — evoca a Verbum Domini, citando a Pontifícia Comissão Bíblica, «com o crescimento da vida no Espírito, aumenta também no leitor a compreensão das realidades de que fala o texto bíblico» (Pontifícia Comissão Bíblica — pcb, A interpretação da Bíblia na Igreja, 15 de Abril de 1993, ii, a, 2: em Ench. Vat. 13, n. 2.991). «A Bíblia é o Livro da Igreja» ( VD, 29), e a sua interpretação deriva da vida e do crescimento da própria Igreja, a tal ponto que se poderia repetir com São Gregório Magno: «As palavras divinas crescem juntamente com aquele que as lê» ( Homiliae in Ezechielem, i, VII: em ccl 142, 87, pl 76, 843 d).

Nesta mesma linha, a Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini lança um apelo para uma renovada recepção da «hermenêutica bíblica conciliar» ( VD, nn. 34-35), evocando de modo particular os critérios fundamentais para dar a devida conta da dimensão divina da Bíblia: «1) interpretar o texto, tendo presente a unidade de toda a Escritura; hoje, isto chama-se exegese canónica; [...]; 2) além disso, deve-se ter presente também a tradição viva de toda a Igreja ; 3) é necessário observar a analogia da fé». A Exortação completa esta citação da Dei Verbum, mencionando as palavras de Bento XVI, por ocasião da sua alocução à Assembleia sinodal: «Só onde os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico, são observados, se pode falar de uma exegese teológica — de uma exegese adequada para este Livro» ( Discurso aos participantes na décima quarta congregação geral do Sínodo dos Bispos, 14 de Outubro de 2008: em dc, n. 2.412, pp. 1.015-1.016; Proposição 26).

Estes elementos são retomados sucessivamente, de modo mais pormenorizado, assinalando os méritos e os limites da exegese histórico-crítica, evocando o valor da exegese patrística e exortanto os exegetas, os teólogos e os pastores em geral a instaurar um diálogo construtivo para a vida e a missão da Igreja ( VD, 45). Com efeito, aquilo que é importante nesta nossa época é o desenvolvimento do sentido espiritual das Sagradas Escrituras, em continuidade com a Tradição, e na linha redefinida pela Pontifícia Comissão Bíblica. O sentido espiritual das Sagradas Escrituras é «o sentido expresso pelos textos bíblicos, quando são lidos sob o influxo do Espírito Santo, no contexto do mistério pascal de Cristo e da nova vida que daqui deriva. Este contexto existe efectivamente. O Novo Testamento reconhece nele o cumprimento das Escrituras. Por isso, é normal reler as Sagradas Escrituras à luz deste novo contexto, ou seja, da vida no Espírito» ( Ibid., n. 37; pcb, ibid., Ench. Vat. n. 2.987).

Esta orientação fundamental é retomada na conclusão da secção sobre a hermenêutica eclesial das Sagradas Escrituras, com a citação de numerosos exemplos de Santos que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus ao longo da história da Igreja. É suficiente mencionar aqui Santo António Abade, São Bento, São Francisco de Assis e as três conhecidas Teresas, para compreender que «a santidade em relação à Palavra de Deus se inscreve assim, de certa maneira, na tradição profética, em que a Palavra de Deus toma ao seu serviço a própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura, da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sacros é o mesmo que anima os Santos a dar e sua vida pelo Evangelho. Pôr-se na sua escola constitui um caminho seguro para empreender uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus» ( VD, 49).

c. Questões a aprofundar

A Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini aceita as cinquenta e cinco Proprosições aprovadas pelos Padres sinodais e submetidas à consideração benévola do Santo Padre Bento XVI. O seu conteúdo foi inserido e desenvolvido no texto do Documento. Alguns pontos devem ser estudados ulteriormente. Por exemplo, os temas da inspiração e da verdade acerca das Escrituras, que a reflexão teológica sempre considerou «dois conceitos-chave para uma hermenêutica eclesial das Sagradas Escrituras. Todavia, deve-se reconhecer a hodierna necessidade de um aprofundamento adequado destas realidades, de maneira a poder responder melhor às exigências relativas à interpretação dos textos sagrados, segundo a sua própria natureza» ( Ibid., n. 19). Outro tema a aprofundar diz respeito à sacramentalidade da Palavra de Deus, que «pode favorecer uma compreensão mais unitária do mistério da Revelação em «acontecimentos e palavras intimamente interligados», beneficiando assim a vida espiritual dos fiéis e a acção pastoral da Igreja» ( Ibid., n. 56). É preciso aprofundar também «a relação entre mariologia e teologia da Palavra. Daqui poderá vir um grande benefício, tanto para a vida espiritual, como para os estudos teológicos e bíblicos» ( Ibid., n. 27). Além disso, a Proposição n. 17, sobre o Ministério da Palavra e a mulher, é desenvolvida nos nn. 58 e 85. a este respeito, afirma-se: «Como se sabe, enquanto o Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou pelo diácono, a primeira e a segunda leitura na tradição latina são geralmente proclamadas pelo leitor encarregado, homem ou mulher. Aqui gostaria de fazer ressoar a voz dos Padres sinodais, que também nessa circunstância sublinharam a necessidade de cuidar com uma formação adequada o exercício do múnus de leitor na celebração litúrgica, e de modo particular o ministério do leitorado que como tal, no rito latino, é um ministério laico» ( Ibid., n. 58). Os votos dos Padres sinodais, a fim de que «o ministério do leitorado seja aberto também às mulheres», foi portanto tomado em consideração e o Santo Padre está a estudar atentamente esta problemática.

A Exortação Apostólica pós-sinodal visa renovar a fé da Igreja na Palavra de Deus (cf. ibid., n. 27). Ela comporta uma visão dialógica, mesmo nupcial, da revelação (cf. ibid., n. 51); além disso, exige uma hermenêutica eclesial da Escritura e formula votos em vista de um aprofundamento da relação entre a Palavra de Deus e os sacramentos, e de modo especial o sacramento da Sagrada Eucaristia.

A Exortação Apostólica evoca por um lado a índole performativa da Palavra, que deriva particularmente do seu vínculo com os sacramentos. Na celebração dos sacramentos, como na história da salvação, a Palavra de Deus — dabar — indica ao mesmo tempo uma Palavra que é uma Obra divina: «Deus diz e faz, a sua própria Palavra é viva e eficaz» ( Hb 4, 12). Esta índole performativa da Palavra culmina nas palavras da consagração eucarística.

Daqui a ideia da sacramentalidade da Palavra, em analogia com a presença real de Cristo na Eucaristia (cf. VD, 56). «A proclamação da Palavra de Deus na celebração comporta o reconhecimento de que é o próprio Cristo que se encontra presente e se dirige a nós» (cf. Sacrosanctum concilium, 7).

Além disso, a profunda unidade entre a Palavra de Deus proclamada e a Eucaristia manifesta uma circularidade entre as duas para a compreensão das Escrituras: «A Eucaristia abre-nos à compreensão da Sagrada Escritura, do mesmo modo como a Sagrada Escritura, por sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico. Com efeito, sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, a compreensão da Escritura permanece incompleta» ( VD, 55). Educar o Povo de Deus para compreender este vínculo intrínseco entre a Palavra de Deus e o sacramento ajuda-o a «entender o agir de Deus na história da salvação e na vicissitude pessoal de cada um dos seus membros» ( Ibid., n. 53).

Todos os aspectos supramencionados devem ser aprofundados na vida da Igreja, na profunda convicção de que quem lê a Bíblia ou ouve a Palavra mediante a oração, encontra pessoalmente Cristo. Com efeito, a Escritura é uma só, e única é a Palavra de Deus que interpela a nossa vida à conversão. «Toda a Escritura divina constitui um único Livro — escreve Hugo de São Vitor — e este único Livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo o seu cumprimento» ( Ibid., n. 39; De arca Noe, 2, 8: em pl 176, 642 c-d).

Conclusão

Deus fala nas Sagradas Escrituras da Igreja para reunir o seu povo, alimentá-lo com a sua vida e recebê-lo na sua comunhão. Este apelo divino é dirigido à humanidade inteira.

A Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini põe resolutamente a ênfase na dimensão divina da Palavra e propõe um novo paradigma, dialógico e pneumatológico, inspirato pelo mistério trinitário e pela resposta da Virgem Maria.

«Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática!». Por conseguinte, a Exortação Apostólica pós-sinodal relança a contemplação pessoal e eclesial da Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras, na Liturgia divina e na vida pessoal e comunitária dos fiéis. Ela relança, outrossim, a labuta missionária e a evangelização, uma vez que renova a consciência da Igreja de que é amada, e a sua missão de anunciar a Palavra de Deus com determinação e confiança no vigor do Espírito Santo. Possa este Documento, tão esperado, ser o objecto de uma recepção autêntica e, ao mesmo tempo, entusiasta.

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7 de Dezembro de 2019

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