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Em busca da unidade perdida numa terra desejosa de paz

· Diálogo com o patriarca da Cilícia dos Arménios em vista do Sínodo para o Médio Oriente ·

Sofrimento e pobreza, perspectivas de trabalho quase inexistentes, incerteza acerca do futuro, progressiva perda da identidade cristã por causa de um clima crescente de secularização: são os desafios que enfrentam os católicos no Médio Oriente, muitas vezes acompanhados por comportamentos persecutórios em relação a eles por parte de comunidades maioritárias. «São as razões principais que causam a hemorragia cristã no Médio Oriente. Confirma-o, nesta entrevista ao nosso jornal, Sua Beatitude Nerses Bedros XIX, patriarca da Cilícia dos Arménios, no Líbano, um dos patriarcas do Médio Oriente aos quais Bento XVI entregou no dia 6 de Junho passado em Chipre, o Instrumentum laboris da assembleia especial do Sínodo dos bispos para o Médio Oriente, que terá lugar, como se sabe, de 10 a 24 de Outubro próximo no Vaticano.

Daqui a alguns meses sereis chamados a viver a forte experiência da assembleia sinodal. Quais são as expectativas da comunidade?

Em primeiro lugar esperamos que a assembleia seja capaz de dar um novo vigor à mensagem do evangelho. Temos que comunicar aos nossos fiéis a alegria e o orgulho de ser cristãos, de se sentir de alguma forma responsáveis pelo bom desenvolvimento da família, pelo ambiente de trabalho no qual somos chamados a dar o nosso testemunho, pela política fundada na justiça e na imparcialidade, e por toda a sociedade. Temos também que estar convencidos de viver onde o Senhor nos quis para que fôssemos a luz, o sal e o fermento nos lugares onde somos chamados a dar testemunho. Esperamos ainda que deixe avistar o horizonte da paz na nossa terra, ajude o nosso povo a viver num clima de maior segurança e de menores tensões políticas. Como pastores, desejamos sobretudo que os católico sintam mais a própria identidade de filhos de Cristo.

Por que hoje eles não têm o sentido da sua identidade cristã?

Prefiro dizer que muitas vezes eles se sentem pertencentes mais a uma certa confissão ou a um rito especial. Sentir que todos os cristãos se amam e colaboram juntos, católicos, ortodoxos e evangelistas para dar um testemunho de unidade, para ser verdadeiras testemunhas do Evangelho, seria verdadeiramente uma graça de Deus. Sabe-se que a divisão dos cristãos é um obstáculo ao anúncio do Evangelho e um escândalo perante os não-cristãos. Os cristãos divididos perdem a própria credibilidade como discípulos de Cristo, que pregou o amor e a unidade. Porém é também importante que os católicos sintam e vivam corajosamente a própria identidade de Igreja em comunhão com a Igreja universal, a Igreja de Roma, mas também com as outras Igrejas irmãs do Médio Oriente. Isso é fundamental para dar respostas concretas aos numerosos desafios que temos que enfrentar.

Quais são os desafios aos quais se refere?

São de vários tipos. Em primeiro lugar a pobreza. Ela está adquirindo rapidamente os contornos de um drama social. A situação é cada vez mais insustentável. Aumenta constantemente o número das pessoas obrigadas a viver em condições de precaridade, dado que falta o essencial. A isto acrescenta-se uma mudança profunda na sociedade médio-oriental: a classe média já não existe; as pessoas são muito pobres ou ricas. Porém, hoje começam a escassear também os abastados. Os poucos que ficaram preferem investir os próprios recursos no estrangeiro. Os mais necessitados vivem em condições de extrema privação, muitas vezes dramáticas. Não encontram os meios para pagar a renda de uma moradia, não se podem permitir despesas para tratamentos médicos; não têm possibilidade alguma de trabalho. As poucas famílias que até hoje tinham a sorte de ter pelo menos o pai que trabalhava, tremem debaixo da ameaça dos despedimentos devidos à crise que, obviamente, nestas terras há um peso maior e mais oneroso. Portanto compete ao filho ou à filha procurar trabalhar para permitir a sobrevivência da família, muitas vezes sacrificando a frequência da escola. A esta dramática situação acrescenta-se ainda o problema da falta de segurança. Na verdade trata-se de um problema comum ao Médio Oriente inteiro, uma área de conflitos contínuos. O Líbano nunca conseguiu viver em paz por cinco anos ininterruptamente.

É por esta razão que os cristãos abandonam a própria terra?

Sem dúvida, estas são duas das causas principais que obrigam os cristãos a emigrar com toda a sua família. Ultimamente, mesmo que as famílias decidam resistir à espera de tempos melhores, os jovens vão embora; resolvem ir procurar noutros lugares uma possibilidade de vida, mesmo que seja contra a vontade da própria família.


De que forma procuram resolver as necessidades dos fiéis?


Tentamos em primeiro lugar infundir de novo entre eles a esperança, mas não é uma tarefa fácil. Pelo contrário, muitas vezes vimos desaparecer aquele sopro que fomos capazes de inspirar no seu coração. Perderam a confiança no futuro. É difícil convencer as pessoas que procuram viver de modo decoroso ou simplesmente sobreviver, que têm uma missão de testemunho cristão a desempenhar na própria terra e, portanto, que não devem emigrar. Além disso, esforçamo-nos por abrir a sua alma à solidariedade. Infelizmente temos que constatar que quem tem mais sorte, quem substancialmente se pode considerar rico ou de qualquer maneira abastado, nem sempre se comporta como cristão.

Está a dizer que falta uma visão cristã da vida?

Sim, o problema também é este: à falta de uma possibilidade de viver com dignidade acrescenta-se a falta de uma visão cristã da vida. Muitos cristãos deixaram-se levar pelo clima de secularização, que marca de forma cada vez mais evidente a nossa sociedade. O aborto tornou-se uma prática muita usada. Muitos casais recorrem a ele só porque vêem o filho como um impedimento para uma vida social mais opulenta e mais livre. É um limite demográfico. E esta atitude, a longo prazo, tem fortes repercussões também na vida da Igreja. Não é por acaso que estamos a confrontar-nos, e será ainda pior no futuro, com uma grave crise de vocações sacerdotais.

São problemáticas que serão enfrentadas no próximo Sínodo, cujo Instrumentum laboris Vossa Eminência recebeu em Chipre das mãos do Papa. Como viveu esta experiência ao lado de Bento XVI?

Em primeiro lugar, experimentei o que significa quando se diz que o Papa é mensageiro de paz. De facto, muitos perceberam claramente que o Sumo Pontífice foi a Chipre como peregrino e reconciliador, e foi bem aceite por todos, apesar das tensões que existem desde 1974 entre as duas comunidades, a grega e a turca, e também entre os cristãos e os muçulmanos da Ilha.

O que ficou mais gravado, segundo o seu parecer, da mensagem global que o Papa deixou em Chipre?

O que mais me impressionou, talvez pela minha particular sensibilidade em relação a este problema, foi mesmo o contínuo repetir-se de uma mensagem de paz para todos, de concórdia e de perdão. Teve uma palavra de conforto na fé para os católicos. Pôde reforçar os laços com a Igreja greco-ortodoxa, não obstante as tentativas de impedir esta visita por parte de alguém. Achei também de bom auspício o breve encontro do Papa com o chefe religioso muçulmano, o grão-sufi. Foi um colóquio muito significativo embora improvisado, isto é, não programado, e sobretudo desejado precisamente pelo sufi. Para as nossas Igrejas, toda a visita foi um convite a construir a unidade entre nós ainda antes que com os outros.

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23 de Outubro de 2019

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