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Eis, Ágata

· A santa do mês apresentada por Pietrangelo Buttafuoco ·

Desce da cama todos correm na rua. Agora é noite funda. Estão vestidos só com a camisa e o solidéu. Homens e mulheres, crianças e idosos, estão com a vela na mão e pululam por todos os lados. Também os bispo está com eles. E o presidente da câmara.

Eis, Ágata. Sagrada já antes de ser santa. Catania venera-a e o presságio das suas virtudes inicia já em 235, ano do seu nascimento, governava Décio, durante o tempo de Quinziano. Pro-cônsul de Roma, Quinziano foi o homem que lhe dirigiu – nunca retribuído – o amor e o desejo carnal ao ponto de entregá-la à lascívia de duas grandes damas e de Afrodisia, uma cortesã, para que lhe corrompessem a virtude, mas em vão. Este amor nunca correspondido narrou-o numa tragédia Antonio Aniante: Quinziano. Uma ópera da década de 1930, um enxerto de vanguarda no sólido tronco da agiografia confiada a Turi Giordano, um actor.

Eis, Ágata. Menina de grande educação, educada segundo os usos da aristocracia que a seguiu até aos braços da tortura para apoiá-la e fazê-la proclamar, como um hidalgo, «eu não sou só livre pelo nascimento mas eu venho de uma linhagem nobre».

Vestida com uma sólida riqueza falou diante das autoridades do palácio pretório. E, com a consciência da própria origem, acrescentou: «Assim como todos vós sabeis, pois estão aqui presentes todos os meus parentes nobres».

Ágata cujo nome está entre os mais antigos no martirológio da Igreja ortodoxa e da Santa Igreja Romana padeceu o tormento enquanto uma mão, piedosa, protegeu-lhe o pudor cobrindo-a com um véu que ainda hoje – em 2014 – consegue apaziguar a fornalha do Etna, sempre pronta para engolir a cidade. Em 252, um ano depois da morte (que teve lugar em 5 de Fevereiro, a data em que a celebramos), da cratera do vulcão transbordou a lava até passar entre as casas. Foi aquele véu que a parou. O mesmo milagre repetiu-se em 1886. Abriu-se no cone uma nova boca e a lava precipitou ao encontrar uma via mais fácil na descida.

Era o dia 24 de Maio e o cardeal Dusmet subia de Catania em procissão, ao longo do mesmo percurso. Tinha com ele o véu e toda quela morte ardente parou desafiando todas as leis da gravidade e ali apagou-se. Um altar recorda-o ainda hoje. Levado em procissão, o véu protegeu o povo do terrível tremor de terra de 1169. E assim também da peste, da fúria sarracena que só na costa catanense – temendo de ofender Ágata – interrompeu os masscres e os saques; Federico II da Suábia, pronto a meter Catania a ferro e fogo, consentiu que fosse celebrada uma última missa em honra de Ágata, ele próprio esteve presente mas – diz a lenda – leu no seu breviário uma advertência e poupou-a. Noli offendere patriam Agathae quia ultrix iniuriarum est.

Catânia nunca ficou um momento sem Ágata e quando os americanos, das suas fortalezas aéreas, durante o mês de Julho de 1943 bombardearam-lhe minuciosamente todos os canto , até os hospitais, encontraram como único escudo, metido como antiaérea, aquele véu. E foi aquele véu que depois soube mantê-los longe e foi assim que as sagradas, mais que santas, relíquias não se tornaram ruínas entre as ruínas.

Ágata cujo símbolo é uma autoridade real chama a si os anjos e o azul dos céus para confirmar a unicidade de Deus. Santa protectora de Palermo que a honra pelos Quatro Cantos, o vértice dos quatro bairros da felicíssima caput regni et sedes regis, portanto ao lado dos quatro reis e das outras santas – Cristina, Ninfa e Oliva – Ágata é a padroeira de Catania que se torna magma aos seus pés.

Todos se atiraram abaixo das camas e aquela chuva de fogo – cada um com a vela – transforma as estradas, de escuras que são, escuras de pedra lávica, numa mistura de claridade e devoção. Mais sagrada que santa, Ágata de Catânia faz seus os atributos de Íside, a divindade remota do Mediterrâneo sagrado. A religião é propriamente re-ligere, o juntar o tempo e os lugares, as almas e o eterno.

Eis, Ágata. É virgem e mártir. Linda com todas as belezas – no culto dedicado-lhe ainda como padroeira etnea, de Galatea, de Gallipoli, de Malta e da livre República de São Marino – Ágata confirma tudo o que a deusa dedicada à fé em Horus, o Renascido, já difunde durante milénios: igualar o poder das mulheres e dos homens. E fazer da lua um sol vivo, fazer da canseira uma consolação e assim transformar o túmulo num infinito sublime onde o ex-voto de uma criança que escapou de um câncer fulminante convive com a necessidade – para um pai de família – de ver estabilizado o próprio contrato de trabalho precário nos escritórios da Região siciliana.

É tudo uma troca de oração e misericórdia tangível já em todos os cantos, diante do mar, onde todos – vestidos no saco da noite, com o barrete preto na cabeça – na edificação dos nichos e depois sair para a rua, invocando-lhe a presença, repetem a chamada de 17 de Agosto de 1126 quando Gilberto e Goselmo, dois soldados, conseguiram trazer de volta as carnes de Ágata roubadas em Constantinopla em 1040.

Repete-se tudo de novo e toda a cidade está em pijama: todos os cidadãos acorrem com a notícia. Até os mafiosos. Mas estes esperam-na para gabarem-se, obrigam o andor a parar debaixo da varanda da casa deles. Aconteceu que na noite do dia 4 de Fevereiro de 1993, perto da rua Plebiscito, um malfeitor quis parar para orgulho próprio uma das doze candelárias e deste modo magnificar o instante da presença de Ágata. Só que o padre Alfio Spampinato, capelão militar dos pára-quedistas, ao administrar uma bênção com tanto de sinal da cruz deu uma bofetada na cara do prepotente para fazê-lo ajoelhar e deixar caminhar os devotos, livres finalmente de pagarem penhores à prepotência e continuarem, entre coros e velas, com a festa agatina.

Tudo uma troca de mundos e de épocas, ainda hoje. No triunfo do seu simulacro, cheio de vida, no orgulho do seio de Íside trazia consolação às pessoas. Das areias do Egipto até ao templo edificado em sua honra pelas virgens de Benevento, sob Diocleziano, Íside – levada em triunfo - fazia papa do seu próprio corpo místico no sinal da doçura de um seio multiplicado na felicidade de dar vida. Como dá vida aquela ideia gastronómica que depois se tornou, com Giuseppina Torregrossa, Il Cunto delle Minne: os bolinhos de Catânia, feitos com a forma de seios, com os mamilos de maça-pão. Aqueles que são dados pelas avós às raparigas. E sempre aos pares. Íside habitou o culto de Demeter, depois foi transfigurada na Virgem – teve a criança entre os braços – e assim Ágata, como o arquétipo, tornou-se soberana por são Pedro que a visitou na prisão para consolá-la antes que lhe fossem arrancados os seios.

Coroada, Ágata está sentada na glória da fé em Cristo, o Ressuscitado, e portanto procura para os devotos as bênçãos e as intercessões junto de Deus, o fim último de um domínio onde aquelas mesmas marés, as perturbações da crosta terrestre e, não últimos, os pesadelos, são transformados em sonhos; em encostas onde abundam as giestas – aquela terra, como quando as plantas furam as pedras – e depois ainda em perfumada espuma cujo rumor, nas ondas, repete a oração de Ágata.

Jornalista e escritor, Pietrangelo Buttafuoco (Catania, 1963) escreve para «Il Folgio» e «la Repubblica». Entre os seus livros, Le uova del drago (2005), L’ultima del diavolo (2008), Il lupo e la luna (2011), Fuochi (2012), Il dolore pazzo dell’amore (2013).

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21 de Agosto de 2019

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