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Ecologia humana necessidade imperativa

· Discurso do Papa a seis novos embaixadores acreditados junto da Santa Sé ·

Responsabilidade do homem para evitar calamidades sociais e ambientais

É necessário adoptar estilos de vida respeitosos do meio ambiente e apoiar a busca e a exploração de energias que salvaguardem a criação e não comportem riscos para o homem, disse o Papa aos seis novos embaixadores junto da Santa Sé, que na manhã de 9 de Junho apresentaram as credenciais. Durante a audiência, realizada na sala Clementina, o Sumo Pontífice recebeu as cartas de cada diplomata na presença do arcebispo Dominique Mamberti, secretário para as relações com os Estados, em representação do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado. Depois, o Papa trocou com cada embaixador os textos dos discursos que, tradicionalmente, são pronunciados durante a audiência. Enfim, dirigindo-se aos diplomatas, aos seus colaboradores e familiares, o Santo Padre pronunciou este discurso.

Senhora e Senhores Embaixadores

É com alegria que vos recebo esta manhã no Palácio Apostólico para a apresentação das Cartas que vos acreditam como Embaixadores Extraordinários e Plenipotenciários dos vossos respectivos países junto da Santa Sé: Moldova, Guiné Equatorial, Belize, República Árabe da Síria, Gana e Nova Zelândia. Agradeço-vos as amáveis palavras que me transmitistes da parte dos respectivos Chefes de Estado. Peço-vos que transmitais, em contrapartida, as minhas deferentes saudações e os meus votos obsequiosos pelas suas pessoas e pela alta missão que desempenham ao serviço dos respectivos países e povos. Desejo saudar também através de vós todas as autoridades civis e religiosas das vossas Nações, assim como todos os vossos concidadãos. As minhas preces e os meus pensamentos dirigem-se, naturalmente, inclusive às comunidades católicas presentes nos vossos países.

Dado que tenho a oportunidade de me encontrar com cada um de vós, desejo agora falar de maneira mais geral. Os primeiros seis meses deste ano foram caracterizados por inúmeras tragédias que atingiram a natureza, a técnica e as populações. A entidade de tais catástrofes interpela-nos. A prioridade deve ser dada ao homem, e é bom recordá-lo. O homem, ao qual Deus confiou a boa gestão da natureza, não pode ser dominado pela técnica e tornar-se sujeito da mesma. Esta tomada de consciência deve levar os Estados a reflectir juntos sobre o futuro do planeta, a curto prazo, considerando a sua responsabilidade pela nossa vida e pelas tecnologias. A ecologia humana é uma necessidade imperativa. A adopção, em tudo, de um modo de viver respeitoso do meio ambiente e o apoio à pesquisa e à exploração de energias adequadas que salvaguardem o património da criação e não comportem riscos para o homem, devem ser prioridades políticas e económicas. Neste sentido, parece necessário rever totalmente a nossa abordagem da natureza. Ela não é apenas um espaço explorável ou lúdico. É o lugar onde nasce o homem, de certa forma, a sua «casa». Ela é fundamental para nós. A mudança de mentalidade neste âmbito, aliás, as obrigações que isto comporta, deve permitir que se chegue rapidamente a uma arte de viver juntos que respeite a aliança entre o homem e a natureza, sem a qual a família humana corre o risco de desaparecer. Portanto, é preciso realizar uma reflexão séria e propor soluções específicas e sustentáveis. Todos os governantes devem comprometer-se na salvaguarda da natureza e contribuir para que ela desempenhe o seu papel essencial para a sobrevivência da humanidade. As Nações Unidas parecem-me ser o contexto natural para tal reflexão, que não deverá ser ofuscada por interesses políticos e financeiros cegamente partidários, de modo a privilegiar a solidariedade em relação ao interesse particular.

Além disso, é necessário interrogar-se sobre o lugar justo que a técnica deve ocupar. Os prodígios de que ela é capaz caminham a par e passo com calamidades sociais e ecológicas. Estendendo o aspecto relacional do trabalho ao planeta inteiro, a técnica imprime à globalização um ritmo particularmente acelerado. Ora, o fundamento do dinamismo do progresso corresponde ao homem que trabalha, e não à técnica, que é apenas uma criação humana. Apostar tudo nela, ou pensar que ela é o agente exclusivo do progresso ou da felicidade leva a uma coisificação do homem, que termina na cegueira e na infelicidade, quando este lhe atribui e delega poderes que ela não tem. É suficiente constatar os «danos» do progresso e os perigos que a humanidade corre devido a uma técnica omnipotente e em última análise incontrolada. A técnica que domina o homem priva-o da sua humanidade. O orgulho que ela gera fez surgir nas nossas sociedades um economismo intratável e um certo hedonismo, que determina os comportamentos de modo subjectivo e egoísta. O debilitar-se da primazia do humano comporta um extravio existencial e uma perda do sentido da vida. Com efeito, a visão do homem e das coisas sem uma referência à transcendência erradica o homem da terra e, fundamentalmente, debilita a sua própria identidade. Portanto, é urgente conseguir conjugar a técnica com uma forte dimensão ética, porque a capacidade que o homem tem de transformar, num certo sentido, o mundo por meio do seu trabalho, realiza-se sempre a partir do primeiro dom original das coisas, feito por Deus (João Paulo II, Centesimus annus, 37). A técnica deve ajudar a natureza a expandir-se segundo a vontade do Criador. Trabalhando deste modo, o investigador e o cientista aderem ao desígnio de Deus, que desejou que o homem fosse o ápice e o administrador da criação. As soluções alicerçadas neste fundamento protegerão a vida do homem e a sua vulnerabilidade, assim como os direitos das gerações presentes e futuras. E a humanidade poderá continuar a beneficiar dos progressos que o homem, por meio da sua inteligência, consegue realizar.

Conscientes do risco que a humanidade corre diante de uma técnica vista como uma «resposta» mais eficaz que o voluntarismo político ou o paciente esforço educativo para civilizar os costumes, os governos devem promover um humanismo respeitador da dimensão espiritual e religiosa do homem. Pois, a dignidade da pessoa humana não se altera com o flutuar das opiniões. O respeito pela sua aspiração à justiça e à paz permite a construção de uma sociedade que se promove a si mesma, quando sustém a família ou quando rejeita, por exemplo, o primado exclusivo das finanças. Um país vive da plenitude da vida dos cidadãos que o compõem, quando cada um está consciente das próprias responsabilidades e pode fazer valer as suas convicções. Além disso, a propensão natural para a verdade e para o bem constitui a fonte de um dinamismo que gera a vontade de colaborar para realizar o bem comum. Desta forma, a vida social pode enriquecer-se constantemente, integrando a diversidade cultural e religiosa através da partilha de valores, fonte de fraternidade e de comunhão. Devendo considerar a vida na sociedade principalmente como uma realidade de ordem espiritual, os responsáveis políticos têm a missão de guiar os povos para a harmonia humana e para a sabedoria, tão desejadas, que devem culminar na liberdade religiosa, rosto autêntico da paz.

Excelências, no momento em que iniciais a vossa missão junto da Santa Sé, desejo assegurar-vos que encontrareis sempre junto dos meus colaboradores a escuta atenta e a ajuda de que podereis ter necessidade. Sobre vós, as vossas famílias, os membros das respectivas Missões diplomáticas e todas as Nações que representais, invoco a abundância das Bênçãos divinas.

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14 de Dezembro de 2019

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