Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

E se fosse uma pregação?

· A difícil arte de reconhecer o amor no Evangelho de Lucas ·

Publicamos o comentário da monja de Bose a Lucas 7, 36 - 8, 3, tirado do livro «A loucura do Evangelho» (Qiqajon, 2014).

Mais uma vez o Evangelho nos anuncia o que mais considera importante, ou seja, que o início, o fim e a própria substância da fé que quer suscitar nos nossos corações é o amor. Que viver na fé de Jesus significa viver em prol dos outros, conformando-se a ele que veio não para ser servido mas para servir. E que, por conseguinte, a única visibilidade da fé, a única eloquência cristã, é o amor humilde e grande de quem serve o seu próximo. Ora bem, precisamente porque a fé vale o preço elevado do amor gratuito ou, caso contrário, não pode ser considerado de modo algum fé, o Evangelho põe o dedo na ferida, mostrando a tentação eterna dos homens religiosos, aquela fé que se quer tornar visível a baixo preço, subtraindo-se à responsabilidade do amor.

Paolo Veronese, «Jantar na casa de Simão» (1567-1570)

O episódio evangélico narra o grande amor de uma mulher prostituta por Jesus. Um amor demonstrado não com palavras – com efeito não disse praticamente nada – mas com a eloquência de gestos amorosos, humildes e sábio, como verdadeira perita no amor. Jesus vê os seus gestos de tão amoroso e humilde serviço, totalmente silenciosos, e neles reconhece a sua fé e a sua salvação. E no final dirá: «A tua fé te salvou, vai-te em paz». E em seguida encontramo-la com Jesus e os outros discípulos e discípulas servindo-os.

Mas além do olhar de Jesus, nos é narrada a reação, perante os mesmos gestos, de um homem religioso, daquele Simão, pertencente ao grupo dos fariseus, que era o dono de casa que convidara Jesus para sentar à sua mesa.

O Evangelho é impiedoso ao narrar-nos a visão cega de Simão, a sua perceção distorcida do que acontece sob os seus olhos. Onde há um grande amor, o da mulher, ele vê a impureza e o pecado. Onde há discernimento e acolhimento amoroso e estupefacto de Jesus em relação à uma mulher que ama tanto, ele vê uma carência religiosa, uma contradição à santidade, uma desmentida da sua identidade de profeta. Nem os gestos da mulher nem a atitude de Jesus são para ele oportunidade e provocação para se questionar a si mesmo, mas apenas ocasião para se fortalecer na sua cegueira corrompida. Jesus denunciou muitas vezes o grande mal da cegueira e da hipocrisia que tenta os homens religiosos: considerar que a identidade religiosa conta mais do que as ações, mais do que se faz ou não se faz; usar a identidade religiosa de peritos na lei de Deus como evasão da responsabilidade que precisamente aquela mesma Lei confere a cada um para agir com justiça, verdade e amor. Nunca esqueçamos que em Mateus 25 todos os pecados graves criticados são pecados de omissão.

Simão, ignorante em amor, não o reconheceu nos gestos gratuitos da mulher. Indo além da evidencia e da inteligência destes gestos, que outra inteligência lhe resta? Com efeito, o motivo do seu duvidar de Jesus – «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar » – revela que não conhece nem sequer o ministério que Deus, por amor do seu povo, dá aos seus servos os profetas nas Escrituras santas de Israel.

O ministério do profeta não é porventura o exigente e santo estar entre a santidade de Deus e a miséria inclusive moral do povo? Admoestando-os para que voltem para Deus deixando de cometer injustiças e começando a amar o próximo? E de facto Jesus, como verdadeiro profeta, vendo no amor da mulher a sua cura e salvação, cuida de Simão, o verdadeiro doente.

A cegueira de Simão, homem religioso, é admoestação severa, profética e evangélica, para cada um de nós. O que David nosso pai soube ouvir, e reconhecer, dos lábios do profeta Natã, no Primeiro Testamento: «Tu és este homem» (2 Samuel, 12-17), o Evangelho o diz a cada um de nós. Porque o Evangelho nunca nos confirma nos nossos preconceitos, aliás, ao revelar a sua hipocrisia, admoesta cada um para que se desperte e se converta.

Assim como a cegueira de Simão é severa admoestação, também o discernimento amoroso da mulher e de Jesus são um magistério fundamental para nós. Aquela mulher, primeira entre todos, entrevê em Jesus com a intuição do amor um pobre e também um homem de Deus verdadeiro e compassivo, e faz por ele tudo o que está em seu poder, tudo o que a sua grande inteligência amorosa lhe sugere. No Evangelho não se diz de forma nenhuma que esta mulher procurava perdão e salvação. Não. Isto também é importante. A própria salvação nunca pode ser o objetivo do amor. É apenas, mas sempre, a sua consequência. Pois quem quer salvar a própria vida perde-a, e só quem a perde por amor salva-a. Dela só se fala do seu grande amor, e da sua capacidade de não se deixar inibir pelo olhar do dono de casa, que por experiência sabia prever muito bem.

E para nós o olhar de Jesus que se deixa surpreender como se fosse uma revelação, e sabe tirar proveito destes gestos gratuitos e eloquentes de amor, é magistério. Sabe tirar deles não só consolação, mas também edificação e ensinamento para si. Com efeito, antes de ser preso e assassinado, a fim de dar um sinal significativo da sua grandeza, humildade e gratuitidade do seu amor pelos discípulos, inclina-se aos seus pés e lava-os. Com esta narração o Evangelho suplica-nos para que tenhamos olhar e discernimento a fim de conhecer o amor onde quer se manifeste, independentemente da boa ou a má fama das pessoas, e apreender delas a amar.

Falando a Simão, Jesus pronuncia uma dupla sentença: « São lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa, pouco ama», confirmando assim um dúplice vínculo entre perdão e amor. Esta dupla sentença, que não se refere à dificuldade de perdoar, mas aliás àquela de estar consciente da própria necessidade do perdão do outro, é um bom critério de discernimento e de interpretação dos nossos amores: quer dos que estão felizes, quer daqueles miseráveis, ou aos quais tudo falta.

Devemos questionar-nos se cada amor que vivemos nos leva a conhecer melhor a nós mesmos como pessoa necessitada de perdão, ou se pelo contrário torna mais pequena, ou até apaga esta consciência. Porque, neste caso, diz o Evangelho, este amor torna mais pequena a nossa capacidade de amar.

Maria dell’Orto

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

13 de Novembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS