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É preciso saber ser antigo e moderno

· Entre Igreja e mass media cinco erros que se devem evitar e cinco regras para se encontrar ·

Todas as dificuldades mais relevantes da comunicação entre a imprensa mundial e Bento XVI

«Aquestão da comunicação, as suas incertezas e equívocos, não é de hoje mas remonta ao epistolário paulino. Referindo-se a pré-compreensões, incompreensões e misunderstandings, Paulo utiliza até o verbo “adulterar” ( kapeléuein ), que confirma explicitamente esta realidade: o tema capital — para o qual o dia de estudo dirigiu a atenção com grande liberdade — já estava presente naquela época». Assim o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, com a inteligência, a cultura, o equilíbrio e a profundidade que lhe são próprios, concluiu o encontro «Incompreensões. Igreja católica e mass media», organizado pelo nosso jornal e que teve lugar na quinta-feira 10 de Novembro na antiga Sala do Sínodo no Vaticano.

Depois, o purpurado fez um acréscimo precioso e substancial: «Contudo, Paulo não se limitava a defender-se. Ele reagia, encontrava e inoculava vacinas». Poucas palavras para colher totalmente o sentido, as intenções e a herança de um congresso que, por diversos aspectos, deixará decididamente a sua marca.

Com as intervenções dos vaticanistas de alguns dos principais jornais ocidentais, foram examinadas uma após outra as dificuldades — como os definiu o nosso director — mais relevantes da comunicação entre a imprensa mundial e Bento XVI. Com atenção quase filológica, agudeza requintada e na mais completa ausência de temores reverenciais, muito (se não tudo) foi passado a pente-fino.

Foram analisados os erros crassos cometidos nos anos pelos mass media, devido à superficialidade, negligência, incompetência e à obsessão de encontrar «argueiros de ouro». Por exemplo, Antonio Pelayo — que entre outras funções é também vaticanista da «Antena 3 Tv» espanhola — pesquisou o que aconteceu com o discurso de Regensburg, depois das 6 horas da manhã, quando fora entregue aos jornalistas o texto Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões, ou seja as mais de três mil e duzentas palavras que iniciaram um dos ataques mediáticos mais obstinados ao pontificado de Joseph Ratzinger. Alguns jornalistas encontraram imediatamente «nas palavras do Paleólogo a pepita com a qual enriquecer a sua crónica».

Pois bem, «depois de ter realizado as devidas constatações nestes anos», Pelayo pôde concluir que «foram os títulos da imprensa italiana que divulgaram o alarme nos países muçulmanos através das suas embaixadas em Roma e dos poucos correspondentes daquela área que trabalham na capital italiana. Nem um nem outro tinham lido o texto integral do discurso mas não perderam tempo, após folhear os jornais italianos de 13 de Setembro de 2006, para informar os seus Governos e o público sobre “os ataques do Papa ao islão”».

Contudo, o discurso é válido também para outros casos. Como por exemplo, para a «tempestade perfeita» do escândalo dos abusos sexuais nos Estados Unidos, analisada por John L. Allen Jr., vaticanista do «National Catholic Reporter» (não estava presente, a sua contribuição foi lida). Assim como para o «pandemónio» ligado às palavras sobre o preservativo pronunciadas pelo Papa a 17 de Março de 2009 durante o voo para a África. Como se destaca no relatório do vaticanista de «The Guardian», John Hooper, neste caso, os erros dos jornais induziram em erro também diversos políticos e até chefes de importantes organismos internacionais («The Lancet» foi «demasiado além»).

Portanto, existe o problema da preparação dos vaticanistas e, mais em geral, dos jornalistas que se ocupam de questões religiosas. Há o problema do papel das agências de notícias, da preguiça de quem está na recepção, da aproximação, da volatilidade do plano mediático, da minimização dos sucessos e da maximização dos fracassos. John Allen falou sobre «mitologia, desinformação e preconceito». E denunciou «a falta de contexto»: as organizações mediáticas «centram o texto de uma determinada história, mas erram o contexto» (por exemplo em 2002 a cobertura mediática da crise estadunidense sobre a pedofilia deixou em muitos a impressão de que a Igreja não se preocupava minimamente com as crianças).

Certamente, foram cometidos erros também pela e na própria Igreja, e este reconhecimento é um dos aspectos mais interessantes do dia (só quem é forte na verdade, pode admitir os próprios erros).

Entre todos, «o desastre mediático e de comunicação» do caso Williamson, analisado por Paul Badde do «Die Welt», num relatório em certos aspectos «meta-histórico», afirmou Giovanni Maria Vian. Tratou-se de um caso único inclusive porque — com a carta de 10 de Março de 2009 («um dos documentos mais comovedores do actual pontificado» segundo Paul Badde) — o Papa «assumiu pessoalmente a responsabilidade do desastre, defendeu os seus colaboradores e pôs fim a todas as especulações».

De resto, às vezes as respostas da Igreja tiveram efeitos contrários. E John Allen, sempre em relação ao escândalo americano, foi lúcido ao analisar a «cobertura mediática que, embora tenha sido preciosa para obrigar a Igreja a admitir a crise e agir, às vezes foi desequilibrada, descuidada e destrutiva. Enquanto alguns realizaram esforços heróicos para dar uma resposta honesta e completa, com muita frequência a reacção foi defensiva e tardia, cimentando o preconceito popular em relação à Igreja em vez de o corrigir». Também porque — paradoxo dos paradoxos — Bento XVI, «o grande reformador no que diz respeito à crise dos abusos sexuais», que fez «da recuperação espiritual e estrutural um sinal distintivo do próprio pontificado», tornou-se perante a opinião pública mal informada «o símbolo principal da incapacidade da Igreja, chegando nos casos extremos, a pedir que se demitisse ou sofresse um processo penal diante de tribunais internacionais». De resto, o desafio está em todos os campos: «Não está em questão só a imagem da Igreja, mas também a da imprensa».

Na sua análise, Jean-Marie Guénois de «Le Figaro», partindo da origem alemã de Bento XVI — conotação não geográfica mas ponto exacto de ataque do qual os mass media se serviram — reconstruiu o modo como o Pontífice alemão, não mediático e ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé («uma espécie de reacção química explosiva») que sucedeu ao «Papa super mediático», lentamente tenha conseguido no decurso dos anos inverter as opiniões. Graças à sua timidez e humildade, à sua lucidez intelectual, à constância nos objectivos, à capacidade de distinguir o essencial do particular e à sua abnegação para servir o bem comum.

O «timoneiro frágil» enfrentou o pesadelo mediático da crise da pedofilia obtendo respeito precisamente pelo modo como o enfrentou. «Sem se agitar através de grandes declarações, mas com uma gestão muito pacata, lenta e no final eficaz». Bento XVI, «o Papa alemão, saiu mais forte dela porque era preciso uma grande força interior para atravessar esta tempestade gigantesca», concluiu Jean-Marie Guénois.

No sulco do que emergiu na manhã de quinta-feira dos relatórios propriamente históricos, viu-se como na base de tudo está a centralíssima e sempre actual questão da relação entre a Igreja e as lógicas da época presente. De facto, a distância entre o olhar profético de uma e o espírito contingente de outra é categórica e substancial.

Evidenciou-se também a insuficiência vaticana no campo informático. Paul Badde recordou as palavras de Bento XVI: «Disseram-me que se tivesse seguido com atenção as notícias através da internet teria tido a possibilidade de conhecer tempestivamente o problema. Beneficio da lição a fim de que no futuro a Santa Sé preste mais atenção àquela fonte de notícias». Resultou também o salto «quântico» que a estrutura milenar realizou «catapultada na era da internet» (são palavras do vaticanista de «Die Welt»).

Por conseguinte, medidas para a superação de incompreensões recíprocas são explicáveis. Se há muito a fazer a nível mediático, também a Igreja deve fornecer indicações concretas. A nova evangelização desejada por Bento XVI pode resolver inclusive este obstáculo. «Se existem passos que a Igreja pode dar sem trair a própria identidade ou adoptar técnicas cínicas de manipulação para promover uma melhor compreensão — disse John Allen — então fazê-lo não é só uma boa ideia. É um imperativo moral».

Também neste ponto o cardeal Ravasi foi claro e precioso. Com efeito, a sua indicação de procurar transformar os cinco defeitos dos meios de comunicação, os cinco erros regularmente cometidos pelos jornalistas (lei da banalização, do imediato, do mordaz, do vago e do preconceito) em virtudes para a comunicação da Igreja. Aprender a essencialidade; a estar no quotidiano («a pregação de Cristo começa pelos pés»); adquirir eficiência; aprender a superar a auto-referencialidade; evitar deixar espaços em branco. Porque a comunicação não pode ser meramente autodefensiva «por princípio», mas deve necessariamente ter «uma certa consistência». Mantendo forte a sua identidade (só existe dialéctica se se mantiver «o escândalo da mensagem» afirmou Ravasi), a Igreja todavia deve considerar o facto que «a atmosfera, o ar» no qual o homem se move, mudou (e por isso mudou o homem, e o seu rosto foi remodelado).

Em 1950 — recordou o nosso director na abertura dos trabalhos — Montini, durante o primeiro encontro com Jean Guitton, confidenciou uma preocupação capital: «É preciso saber ser antigo e moderno, falar segundo a tradição mas também em conformidade com a nossa sensibilidade. Para que serve dizer a verdade se os homens do nosso tempo não nos entendem?».

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15 de Novembro de 2019

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