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É desumano permanecer indiferente

· Entrevista ao arcebispo Vegliò sobre a situação dramática nos países do Corno da África ·

A responsabilidade de todos em vista de encontrar uma solução eficaz e rápida para a crise

«O pior surdo é aquele que não quer ouvir e o pior cego é o que não quer ver». Voltam a ser actuais as palavras destes antigos provérbios da sabedoria popular, diante das demasiadas hesitações da comunidade internacional em intervir eficazmente para resolver a situação dramática nos países do Corno da África, denunciada pelo arcebispo Antonio Maria Vegliò, presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, nesta entrevista ao nosso jornal. Estão a agir excessivamente tarde, diz, e ninguém dá a impressão de «querer entrar verdadeiramente na situação» para procurar uma solução. «Inclusive as ajudas humanitárias com frequência acabam na rede das lutas internas que mancham de sangue o país e não chegam à população necessitada». Mais do que nunca é urgente uma «mediação internacional» responsável.

Uma mediação que o Papa invocou recentemente durante o Angelus, recordando que o Evangelho proíbe a indiferença diante de quem tem fome e sede. Poderia enquadrar estas palavras na situação nestes países?

O Evangelho com o seu ensinamento está sempre em sintonia com os eventos da sociedade. A indiferença é absolutamente contrária aos princípios do Evangelho, que nos exorta a seguir o exemplo e os ensinamentos de Jesus Cristo, convidando a praticar a justiça e a amar a piedade. O drama da Somália está diante dos olhos de todos. Por meses a comunidade internacional — e de facto qualquer pessoa que acompanhou a situação — sabia o que teria acontecido, isto é, que uma carestia difundida causaria danos graves às famílias, 20% das quais agora têm que enfrentar uma redução extrema de alimentos, com níveis de acentuada subalimentação, superior a 30%. Um drama no qual a taxa de mortalidade é superior a duas pessoas em dez mil por dia. E a maior parte são crianças. Também antes da carestia, a situação era dramática para os que tinham menos de cinco anos nos campos de refugiados, devido ao alimento insuficiente, acima do nível de emergência.

Está a dizer que era tudo previsível, por conseguinte evitável ou pelo menos controlável nos seus efeitos?

Para responder a esta pergunta cito quanto disse o responsável da fao sobre as operações de emergência para a África, senhora Amaral, informada sobre a crise causada pela seca naquela região desde o mês de Novembro de 2010, após a ausência das chuvas sazonais. No momento em que as Nações Unidas declararam oficialmente o estado de carestia para o Corno da África, disse: «Quando nos dias de hoje, no século XXI, se declara uma situação de carestia, deveríamos considerá-la imoral». Não basta que os países doadores ofereçam dinheiro para uma ajuda imediata quando o drama já explodiu. É necessário um investimento a longo prazo para ajudar os agricultores a resistir à seca. Existe a obrigação moral de prestar assistência àqueles que já não conseguem cuidar-se sozinhos, quer em Roma, onde encontramos os desabrigados, quer mais distante na Somália, Etiópia ou Quénia.

Na sua opinião, o que a comunidade internacional pode fazer?

Entretanto, comprometer-se para fazer voltar a paz na Somália. É uma questão imprescindível, inclusive para fazer com que as ajudas humanitárias sirvam realmente como sustento da população. Depois, empenhar-se numa obra de maior solidariedade. Os refugiados residentes há tempos nos campos de Dadaab, no Quénia, por exemplo, ajudam com o pouco que têm, encorajados a partilhar: «Se tens duas camisas, dá uma. Se tens dois pares de sapato, dá um». Tal exemplo e a sua transmissão inspiraram a diáspora somaliana, a qual impeliu os comerciantes emigrados em Nairóbi e a comunidade dos refugiados nos Estados Unidos a angariar fundos. As comunidades dos refugiados da Somália no mundo inteiro também estão a esforçar-se para obter outras ajudas.

Pensa que é suficiente o compromisso assumido pela comunidade internacional, sobretudo para a situação na Somália, considerando que existe uma espécie de economia paralela que se desenvolve precisamente em volta das ajudas humanitárias num país dominado pelos clãs?

Certamente estão a agir tarde, talvez demasiado tarde. Infelizmente, isto está ligado à história complicada da Somália. Por muitos anos este país permaneceu sem Governo. Muitas tentativas foram feitas para levar a paz, pelo menos treze muito sérias. O Governo «ad interim» parece que não funciona e diversos grupos islâmicos continuam a combater com ulteriores violências e derramamento de sangue. Recordemos que em 1991 muitas ajudas alimentares foram saqueadas por diversas facções militares. Nem podemos esquecer os eventos traumáticos de 1993, quando os corpos dos soldados foram arrastados pelas ruas de Mogadíscio. Estes factos são suficientes para entender os motivos pelos quais ninguém quer entrar concretamente na situação.

Também na pastoral não faltam problemas. Sobretudo os jovens suscitam preocupação. De resto, precisamente na Somália, a nova geração amadurece numa constante situação de guerra civil. O que se pode fazer para os ajudar a entender que para se realizar não se deve empunhar uma metralhadora?

Esta é uma pergunta à qual é muito difícil dar uma resposta. Sei que em diversas dioceses (como por exemplo na República Democrática do Congo, Serra Leoa e Libéria) se organizaram cursos de integração para os jovens ex-combatentes antes de os reinserir na sociedade e na própria família. Uma das fases principais deste caminho é a reconciliação. Isto facilita a integração. Além disso, é-lhes oferecida a possibilidade de ir à escola ou receber uma formação profissional. Infelizmente — reafirmo — tudo isto só se realizou depois dos conflitos. Às vezes são os mais jovens que decidem escapar para outras realidades ou deixar o próprio país, pedindo asilo. Para evitar que sejam recrutados com a força, poder-se-ia começar a fazer de modo que aqueles pessoas que procuram alistar-se sejam impedidas e perseguidas penalmente. O Protocolo Opcional à Convenção sobre os direitos da criança, acerca do envolvimento dos menores nos conflitos armados, permite-o. Ele proíbe a participação directa de crianças e adolescentes menores de 18 anos nas guerras. Depois, temos que considerar o facto de que os jovens se unem aos grupos armados para sobreviver, porque a família e as estruturas sociais e económicas ruem.

Como ajudá-los?

A única possibilidade é dar-lhes uma esperança. E favorecer o desenvolvimento. Desenvolvimento é sinónimo de paz. Aliás, deveríamos perguntar-nos até que ponto a comunidade internacional está verdadeiramente pronta para intervir em situações complicadas como a da Somália.

Naturalmente a situação leva muitos a escolher a fuga. E assim inicia o confronto com outro drama. Como julga a discriminação que muitas vezes se manifesta na Europa no acolhimento de refugiados da África subsariana e não em relação àqueles do Norte do Continente?

Efectivamente, não se pode negar que se criou uma atitude de maior fechamento em relação aos que pedem asilo, aos refugiados e migrantes. Isto contradiz a posição que a Europa tinha demonstrado por décadas após a segunda guerra mundial, quando milhares de refugiados foram recebidos e integrados na sociedade. Durante aquela época, soluções inovadoras foram desenvolvidas e postas em acção. A ideia era dar esperança e futuro aos refugiados, fazendo-os sair dos campos. Podemos recordar que também noutro período da história europeia, nos anos 30, os refugiados alemães não foram acolhidos. De facto, como numa partida de ping-pong, nenhum país estava disposto a hospedá-los. Dado que não se encontrou uma solução, eles tiveram que sobreviver realizando todo o tipo de trabalho, sem os documentos necessários. Isto, em 1935, levou à demissão de MacDonald, alto comissário para os refugiados provenientes da Alemanha. A Europa deveria conscientizar-se de que a própria sociedade está a envelhecer e, consequentemente, reconhecer que tem necessidade de mão-de-obra. O estabelecimento dos refugiados poderia ser uma das possibilidades de dar novos estímulos e energia à colectividade. A União Europeia deveria desenvolver oportunidades para os refugiados que são um bem para os diversos países. Ao mesmo tempo, responderia concretamente às necessidades de muitas pessoas que permanecem nos campos de prófugos de 5 a 20 anos. Neles, o tempo parece suspenso, em espaços muitos reduzidos e sem poder fazer valer direito algum, como aquele ao trabalho. As iniciativas da União Europeia dar-lhes-iam esperanças e oportunidades, uma espécie de salva-vidas para o futuro do indivíduo e das famílias. A sua situação e chegada aos países de destino muitas vezes são instrumentalizadas por diversos grupos, inclusive políticos, na sociedade. O racismo e a discriminação são sempre um obstáculo às boas relações entre as pessoas e as nações, e com frequência geram conflitos nacionais e internacionais.

Para concluir, quais iniciativas o seu dicastério pretende tomar a fim de ajudar as populações do Corno da África?

O nosso Pontifício Conselho segue com atenção o compromisso das Igrejas locais na realização da tarefa pastoral. Outros dicastérios ocupam-se das emergências. O Pontifício Conselho Cor Unum é portador do apoio do Papa. A Igreja local e diversas organizações católicas ajudam activamente quantos têm necessidade urgente de assistência em tempo breve, com uma perspectiva a longo prazo. A fase de emergência deverá continuar por um determinado período, dado que nos próximos meses se prevê uma ulterior deterioração da situação na Somália, Quénia e Etiópia. É preciso conscientizar-nos de que no mundo inteiro existem situações de necessidade, diante das quais nos sentimos incapazes de agir porque não sabemos intervir adequadamente. Dada a dramaticidade da situação, seriam necessários pelo menos um bilião de dólares só para a emergência. Isto faz com que não nos sintamos à altura. De qualquer maneira, é preciso oferecer solidariedade para não deixar que populações inteiras morram de fome. Portanto, não se pode permanecer indiferente diante destes eventos chocantes. Pode-se salvar a vida de uma criança com um dólar por dia. Deveríamos animar-nos e oferecer solidariedade. Cada um no próprio âmbito poderia contribuir com uma doação. Se neste período de férias saímos para beber e comer um petisco, procuremos também dar algo, ofereçamos «um turno» de trabalho pela Somália. Depois, há a necessidade urgente da intervenção real e concreta da comunidade internacional, que oriente para um desenvolvimento sustentável e impeça o aumento generalizado dos preços dos géneros alimentícios. A estabilidade da Somália merece um discurso à parte. Voltam à mente as palavras do Papa: «É proibido permanecer indiferente diante da tragédia dos famintos e sedentos!».

Isto inspira hoje a acção do nosso Pontifício Conselho que tenciona difundir estas palavras de solidariedade para com os povos que estão a viver uma tragédia imensa. Num futuro próximo o dicastério enviará um representante para visitar as populações atormentadas e levar directamente o conforto da Igreja e do Papa.

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19 de Dezembro de 2018

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