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E a freira inventou a enfermaria

· Pesquisa sobre o papel das religiosas na história da cura ·

A tarefa de aliviar os sofrimentos dos doentes, considerado pouco nobre na hierarquia social, foi desde sempre confiado ao sexo feminino, garantia do desenvolvimento e da preservação da espécie. Mas para as freiras conseguir chegar à prática da assistência aos doentes foi difícil. O contacto com os corpos parecia prerrogativa das mulheres que aqueles corpos os conheciam: as casadas ou até as prostitutas. A assistência aos enfermos foi a prática das beguinas no norte da Europa, ou seja, mulheres que se uniam em grupos de livre vontade, sem a aprovação eclesiástica, para levar uma vida religiosa, nas quais se inspiraram, na Itália do século XVIII, as Terceiras ordens ligadas a dominicanos e franciscanos. Todos recordam que Catarina de Sena, que pertencia à Terceira Ordem dominicana, tinha curado os doentes de peste a ponto de arriscar a sua vida, mas tratava-se de situações de emergência que exigiam medidas excepcionais.

O primeiro que venceu o tabu que separava as religiosas da cura dos corpos foi são Vicente de Paulo em 1617, com a Fundação das Filhas da Caridade. «Como mosteiro as casas dos doentes – escreve são Vicente de Paulo – como cela um quarto alugado, como capela a igreja paroquial, como claustro as vias da cidade, por clausura a obediência, como grade o temor de Deus e como véu a santa modéstia».

Nasce a primeira companhia de religiosas com o característico lenço na cabeça com asas, prontas a ir «onde ninguém vai», pagando até com a vida: quatorze Filhas da Caridade guilhotinadas durante a revolução francesa, dez mortas em 1870 na China, dez durante a última revolução espanhola e muitas outras ainda. As numerosas congregações que surgiram no século XIX começaram a unir ao ensino também a fundação de hospitais e de organizações de assistência aos doentes a domicílio, não obstante a norma eclesiástica ainda impusesse que as religiosas não dessem assistência alguma a domicílio, e excluísse contudo mulheres grávidas e doentes de sexo masculino.

Mas as irmãs enfermeiras, em nome da sua missão, com muita frequência desatendiam estas disposições, para não negar a sua ajuda aos sofredores e por conseguinte abrindo contínuas discussões com a instituição eclesiástica, como testemunha o inquérito geral feito pela Sagrada Congregação dos Religiosos em 1909 em todo o mundo católico, depois das numerosas contestações pela prática consolidada das religiosas de prestar assistência de enfermeiras, tanto a domicílio como nos hospitais, também aos homens.

No final as irmãs venceram e, conscientes da exigência de uma preparação profissional, obtiveram também de Pio X, em 1905, a possibilidade de fundar a primeira escola profissional para enfermeiras. O welfare da Igreja, ainda hoje vital, radicado no território e «suplente» do público tem por conseguinte uma história antiga e heróica.

Uma veterana narra a sua experiência de cura: a irmã Odilia D'Avella. Há vinte anos Filha da Caridade com 26 já dirige a escola do Hospital dos Peregrinos em Nápoles e por dois decénios forma gerações de enfermeiras, combatendo para subtrair o enfermeiro do papel servil à profissão médica, para mudar os perfis profissionais e promover os direitos do doente. Muitos os encargos conquistados nesse âmbito: presidente das directoras para escolas de enfermagem da federação italiana religiosas hospitalares, por 15 anos presidente da Ipasvi (Federação Nacional [Italiana] Colégios Enfermeiros profissionais), membro para a formação de enfermeiros da Comunidade europeia e do Conselho superior da Saúde. Cinquenta anos em estreito contacto com um mundo laico sem sentir o peso: «Uma longa experiência vivida no respeito recíproco – ressalta a irmã D'Avell -. O valor ético comum é o respeito da vida e a objecção de consciência».

A Ipasvi não regista a condição das religiosas enfermeiras: não recenseadas, igualadas mas não homologáveis, as religiosas sentem-se diversas: «Deve haver mais coração naquelas mãos – conta a irmã D'Avella -. Podem haver leigas melhores e competentes que as religiosas mas só num lugar de trabalho com uma identidade religiosa se pode manifestar plenamente o próprio carisma. É um privilégio».

As religiosas enfermeiras que vivem o hospital como uma missão, sem horário nem repouso semanal, fazendo referência às responsabilidades das suas comunidades religiosas e depositando ali o próprio ordenado, correm o risco de serem vistas como inimigas? «Não faltaram os conflitos. Das convenções com as comunidades religiosas os hospitais tiveram sempre vantagens económicas – responde a irmã D'Avella – mas também um relacionamento de confiança: sabem que os doentes são assistidos na sua totalidade. Até aos anos Sessenta todas as chefes de sala eram religiosas, hoje foram substituídas por leigas. Éramos exércitos, agora somos poucas mas boas». A atitude dos médicos é diversa com as religiosas enfermeiras? «Mais deferência, mas dependia sempre da sua influência e preparação». E a dos doentes? «Há mais respeito e confiança. Pessoas simples, em momentos difíceis, pediram-me para se confessar. Tinham confiança e queriam ser ouvidas e absolvidas: procuravam Deus ou por ignorância, ou por medo da morte, não distinguiam».

Além da cura é importante a defesa dos direitos. «Nem sempre o doente é colocado no centro do sistema de saúde e muitas vezes faz-se passar um direito por um privilégio. Em 1978 com a instituição do serviço de saúde nacional ouvi um administrador afirmar: «Os centros de assistência poderiam funcionar bem se os doentes não estivessem lá». E então quem? No centro não devem estar os interesses particulares, a política, os negócios, as máfias, mas unicamente a pessoa». Coisas que não se verificam na saúde gerida por religiosos? «Não deveriam».

A laicização apresenta novos temas: bioética, eutanásia e testamento biológico. As religiosas enfermeiras respondem ao médico de base mas sobretudo a Deus. «A Deus e à própria consciência – ressalta a irmã D'Avella -. A medicina não é omnipotente e nem tudo o que é possível cientificamente é lícito sob o ponto de vista ético». Com a lei de 1971 na Itália os cursos para enfermeiros estão abertos também aos homens. Que muda? «O carreirismo – responde a irmã D'Avella -. Desde o início quiseram ocupar os lugares de dirigente. Antes os responsáveis eram todos freiras, depois freiras e leigas, hoje são na maioria homens». Machismo também entre os médicos? «Sem dúvida, mas existe também nas hierarquias da Igreja. Se a Igreja hierárquica é machista, a carismática é feminista».

Segundo os dados do livro Religiosas no mundo da saúde de Angelo Brusco e Laura Biondo (Torino, Edizioni Camilliane, 1992), de 1975 a 1992 na Itália o número das freiras hospitalares diminuiu de 15.234 para pouco mais de 10.000. E desde 1992 os dados decrescem gradualmente. As estruturas de saúde laicizam-se, o enfermeiro genérico vai desaparecendo, em 2001 nasce o licenciado. E no respeitante às religiosas, parece que elas preferem exercer a profissão de enfermeiras nas missões. «Trincheiras com necessidades mais urgentes», declara a irmã Emilia Balbinot, obstetrícia, 68 anos, brasileira com origens italianas, das Ministras dos enfermos de São Camilo, inicialmente chefe de sala no Cto de Florença (Centro Traumatológico Ortopédico) e depois durante 26 anos em missão no Quénia. «Vivi numa aldeia muito pobre: sem recursos e de fronteira, ajudei a nascer crianças cortando o cordão umbilical à luz de uma tocha. E todas as vezes pensei estar diante de um tabernáculo que se abre à vida dando a luz a um novo ser querido por Deus. Sobretudo em missão realiza-se a chamada e a consagração. Ali encontra-se o Jesus abandonado».

«O que fazemos é apenas uma gota de água no oceano, mas se o não fizéssemos o oceano teria uma gota a menos», dizia madre Teresa de Calcutá, uma das muitas enfermeiras que se tornaram santas ou beatas. «Conquistamos o reino de Deus, que é também nesta terra, entre quem tem necessidade – ressalta a irmã D'Avella -. Há doentes que não estão numa cama de hospital: o sofrimento moral, o mal-estar mental, a dependência de álcool e droga. Um mundo de invisíveis, sofredores e marginalizados». Hoje a irmã D'Avella, com 74 anos, dirige «Il sentiero», um serviço para pessoas e famílias com problemas de álcool e droga. «Estou na trincheira desde quando tenho 20 anos e não penso minimamente em retirar-me».

Cinzia Leone

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24 de Outubro de 2019

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