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Duas mulheres para um lugar


· Ema, santa do mês, descrita por Lucetta Scaraffia ·

Todos sabem: no paraíso os santos, juntamente com os anjos, cantam a glória de Deus imersos na sua visão beatífica. Mas também lá, em última análise, existem problemas de confusão, sobretudo quando o número de santos continua a aumentar e aqueles que sérias investigações históricas na terra definiram inexistentes recusam-se a ir embora daquele lugar privilegiado. Como se sabe, estão ali desde há tempos, estreitaram amizades, têm os seus hábitos. Por exemplo, são Jorge, que os estudiosos afirmam que não existe, tornou-se muito amigo do arcanjo Miguel, que jamais deixará que o expulsem do coro. É impossível mandá-los embora, pensou Pedro. «Pois bem, então pelo menos façamos um pouco de ordem», disse consigo mesmo o primeiro entre os apóstolos, e decidiu que a cada nome devia corresponder no coro a um lugar específico, sempre aquele, para a eternidade.

Tudo parecia decorrer de maneira ordenada, e Pedro estava satisfeito. Mas depois, inesperadamente, encontrou-se diante de um imprevisto: com efeito, ao lugar reservado a santa Ema foram duas mulheres, que reivindicavam o mesmo direito. Sem dúvida, as comunicações entre elas eram facilitadas pelo facto de falarem ambas alemão, e eram mais ou menos da mesma época, por volta do ano mil. Mas sobre o resto havia um debate incandescente, até violento, tendo em conta que podiam ser violentas duas senhoras nobres bem-nascidas e cristãs fervorosas, mas no seu coração ambas seguras de serem a única santa Ema.

A situação tornava-se difícil, outros santos aproximavam-se curiosos — as disputas são raras no paraíso — até que chegou santo Afonso, insigne jurista napolitano, que instituiu imediatamente um verdadeiro inquérito. As santas pareciam-lhe iguais, vestidas do mesmo modo, ambas conscientes da estirpe a qual pertenciam, mas sem o querer demonstrar: como devem agir as verdadeiras santas, obviamente.

Afonso dirigiu-se àquela que estava à sua direita, perguntando-lhe de onde vinha e porque fora canonizada. Ema respondeu que nascera em Gurk, na Estíria, e depois da morte do marido e do filho em batalha — eram tempos duros para os homens — herdara os imensos bens do condado de Sann. Finalmente livre de administrar a grande riqueza como queria, destinara uma parte deles aos pobres, e outra à fundação de dois mosteiros, um para monges e outro para monjas. «Assim que consegui — acrescentou — também eu me retirei no mosteiro feminino, em cuja igreja ainda hoje está conservado e é venerado o meu corpo».

Quase indignada, sobressaltou imediatamente a outra Ema: «Mas aquela que tu narras é a minha vida! Sou eu, Ema da Saxónia, viúva, que doei todos os meus bens à Igreja e aos pobres, dedicando-me unicamente ao bem do meu próximo. Tu copiaste-me, queres ser como eu! O meu corpo está conservado na catedral de Brema, e uma relíquia — a minha mão incorrupta — está conservada em Werden. Trata-se de uma prova segura de santidade!».

Então, Afonso procurou fazer referência às provas escritas, aos documentos — como se sabe, as relíquias nunca são de confiança — mas para nenhuma das duas existiam documentos coevos: as primeiras hagiografias remontavam a séculos depois da morte delas, e por conseguinte não eram muito confiáveis. Enquanto o coitado do Afonso se esforçava para encontrar uma solução, as duas Emas tranquilizaram-se e começaram a fazer amizade, sobretudo a bisbilhotar sobre as mulheres que, mais ou menos dignamente, tinham o seu nome.

Se pela sufragista Emma Pankhurst ambas sentiam uma inquieta atração, incertas se condenar ou aderir, elas declaravam-se fervorosas admiradoras da atriz Emma Thompson. Mas aquilo que mais as unia era a aversão feroz por uma Ema que nunca tinha existido seriamente, mas que não obstante tudo, se tornara muito mais conhecida e famosa do que elas mesmas: Emma Bovary! Que vergonha, diziam, o nosso nome levado tão mal... e além disso na boca de todos...

Afonso procurava intervir para as acalmar — no paraíso todos procuram ser bons — para lhes recordar que nem todas as mulheres eram tão felizardas de permanecer viúvas jovens e muito ricas, como acontecera com as duas. Mas não conseguia ser ouvido.

Além disso, permanecia insolúvel a questão do lugar, que devia ser um só. Lucas, o verdadeiro intelectual do paraíso, que lia sempre, recordou-se repentinamente de ter lido que às vezes, ao escrever as lendas hagiográficas, ao propagar os cultos, duas santas foram unificadas numa única figura, que continha numa só vida ambas as experiências, ou então que uma única santa, por motivos de culto local, fora dividida em dois lugares de culto, cada qual com a sua relíquia. Talvez tenha sido este o caso das duas Emas, que no mesmo período levaram vidas tão semelhantes entre si.

Diante desta ligeira insinuação, as duas santas aliaram-se e resolveram sozinhas a situação: o lugar seria ocupado por turnos, um dia por cada uma delas. A outra aproveitaria a liberdade para dar um passeio, para descansar. Assim, a paz voltou a reinar no paraíso, e ambas as santas de nome Ema viveram felizes e contentes para a eternidade.

Lucetta Scaraffia ensinou história contemporânea na universidade de Roma La Sapienza. É membro da Comissão nacional italiana para a bioética e consultora do Pontifício Conselho para a promoção da nova evangelização. Entre os seus livros: La Chiesa delle donne (com Giulia Galeotti, 2015), Le porte del paradiso (2015), La santa degli impossibili (2014), Per una storia dell’eugenetica (com Oddone Camerana, 2013) e Due in una carne (com Margherita Pelaja, 2008), Francesca Cabrini. Tra la terra e il cielo (2003).

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22 de Agosto de 2019

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