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Duas maternidades extraordinárias

A narração da visitação (Lc 1, 39-45), muitas vezes considerada como modelo do encontro fecundo entre mulheres, faz compreender como o reconhecimento recíproco ajuda a discernir e a preservar os sinais da transformação que abrangem a história. Maria e Isabel, ambas portadoras de um mistério que pede para ser acolhido e protegido a fim de vir à luz, ao reconhecer-se reciprocamente apoiam-se e fortalecem-se. Através das suas ações corajosas, mas silenciosas, realizam-se as promessas proféticas. A primeira e a nova criação entrelaçam-se, deixando entender que fazem parte de um único desígnio.

Rogier van der Weyden, «Visitação» (aprox. 1435, detalhe); na página precedente: o mesmo tema elaborado por He Qi

Isabel, a mulher idosa e estéril que, pela graça, se torna mãe além de qualquer possibilidade, parece a figura da humanidade cansada e árida, cujo fruto, já inesperado, brota como destilado da espremedura final, constituindo a semente viva na qual o novo poderá implantar-se. Maria, ao contrário, exprime o despertar da inocência originária que permaneceu incontaminada desde o princípio e preservada no íntimo da humanidade. A saudação do arcanjo Gabriel, o homem forte de Deus, à «cheia de graça», realça a fortaleza da alma enraizada no Espírito. Alude ao estado de graça que a virgem de Nazaré encarna.

Os cinco meses de escondimento de Isabel representam um tempo velado em que o Espírito Santo age no segredo, faz amadurecer as condições. Aludem aos primeiros cinco dias da criação em que os seres vivos permanecem inocentes e inconscientes no ventre de Deus. Evocam o estado de criatura, a oferta pura de Abel, mas também a multiplicação dos cinco pães que no deserto saciam cinco mil pessoas, porque a humanidade é chamada a responder, a doar o que tem.

A anunciação ocorre no sexto mês de gravidez de Isabel. Sexto é o dia da criação do homem, tempo ainda em ação que a encarnação da Palavra leva ao cumprimento. Todavia, «aquele que nascerá» e será «chamado Filho de Deus» só poderá manifestar a sua plenitude humana se for acolhido, e será recebido precisamente por aqueles que antes terão seguido o precursor, abrindo-se à voz de João Batista que chama à conversão.

Num determinado momento as duas maternidades convergem. Logo a seguir ao anúncio, Maria vai às pressas visitar Isabel. A necessidade de verificar, de se confrontar com ela, torna-se urgente. A pressa é a consequência da inquietação. Tudo é demasiado grande, insustentável. Não obstante o consentimento, a sua humanidade sente-se inadequada. Todos os recursos entram em ação para enfrentar o novo, tão tumultuoso. A montanha indica o lugar mais elevado do velho mundo, que está em contacto com o céu, aberto ao anúncio porque a nova criação não pode surgir de outro lado, mas deve enraizar-se na primeira Criação para a transformar dentro, para regenerar o que se tornou pesado, desprovido de vida, morto.

No momento em que se encontram, Maria e Isabel reconhecem-se imediatamente através dos seus filhos que no ventre sobressaltam. O que transpõe as mães é totalmente conatural à realidade dos filhos da graça. A saudação de Maria é sentida como passagem de uma força vivificadora. A semente viva no seio da velha humanidade, como centelha alcançada pelo fogo, é inundada pela luz que emana do «fruto abençoado» provocando o abandono imediato de Isabel que, cheia de Espírito Santo, instantaneamente, reconhece a «bendita» entre todas as mulheres, a mãe do seu Senhor.

O encontro entre a virgem mãe, encarnação da força criadora no seu pleno fulgor, e a velha mãe, símbolo da humanidade cansada que oferece através do filho a melhor parte de si, constitui então a premissa do cumprimento. Na época da obscuridade, o reconhecimento recíproco ajuda as duas mulheres a permanecer fiéis à obra misteriosa que as investe e da qual se tornaram instrumento aceitando, protegendo, mantendo o silêncio, mas ao mesmo tempo deixando desabrochar a sabedoria do coração e confiando-se sem reservas. A narração destaca a leveza da graça quando age sem encontrar resistências.

Nos Evangelhos Maria pronuncia poucas palavras, mas o Magnificat pode considerar-se o selo que ratifica o fiat. Exprime a plenitude da visão profética, o ponto culminante que marca a passagem da inocência para a consciência, o nascimento de uma consciência capaz de ver a obra regeneradora que o Espírito Santo realiza na humanidade.

Portanto, a visitação torna-se modelo de um encontro entre mulheres que ajuda o feminino a encarnar-se. Não é o presumível reconhecimento do mundo que o faz viver e ser, mas é o conhecer-se em si mesmo através do reconhecimento que as mulheres se conferem reciprocamente, valorizando as suas potencialidades intrínsecas, ajudando-se a permanecer abertas ao milagre que a ação criadora promove constantemente no invisível e que deve ser protegida no silêncio, com humildade, paciência, firmeza e abandono total para amadurecer e vir à luz. Somente o facto de se conhecer e de se reconhecer no íntimo confere o enraizamento necessário para a expansão.

Antonella Lumini

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22 de Agosto de 2019

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