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Dom e contradição

Lucas 1, 57-66

João Batista foi um extraordinário profeta, mestre e amigo de Jesus. No seu seguimento, e depois até ao fim, Jesus aprendeu muitas coisas de Deus. Para os discípulos de Jesus, a sua importância é tão grande que no Evangelho somente dele e de Jesus se narram a anunciação, o nascimento, o ministério profético e a pregação por cuja causa ambos foram assassinados.

Como cada uma das páginas evangélicas, também aquela do nascimento de João não é uma simples crónica, mas muito mais. Descreve a participação invisível da misericórdia do Deus de Israel na história de Zacarias e de Isabel, um casal de idosos, pessoas fiéis ao Senhor que, sem desanimar, suportavam a dolorosa falta de filhos.

Arcabas, «Jean le Baptiste»

Vista na sua esterilidade e na sua fé, Isabel é a primeira mulher e a primeira pobreza que abre o Evangelho de Lucas, que é boa nova para os homens pobres e para as mulheres pobres. Na Bíblia, as numerosas mulheres estéreis, e precisamente por este motivo humilhadas, estão ali como testemunhas preciosas da intervenção do Senhor naqueles seus filhos impossíveis e prometidos, dos quais o Senhor tem necessidade.

No nascimento de João, os vizinhos e parentes compreenderam que em Isabel Deus tinha exaltado a própria misericórdia. Protagonista deste nascimento, assim como de toda a vida de João e do Evangelho que começa com ele, é a misericórdia do Senhor, aquela promessa eterna a Abraão.

Eis que Isabel e Zacarias nos servem de ensinamento, consolação e correção. Eles são mestres de liberdade e de parrésia, em relação às tradições familiares e religiosas. A quantos desejam impor-lhe o nome do seu pai Zacarias, segundo a tradição, Isabel opõe com firmeza o seu não, referindo a palavra do Anjo: «Chamar-se-á João». Mas não acreditarão nela. Isabel, a primeira mulher do Evangelho, anuncia a palavra do Anjo, na qual ela acreditou, e não é tida em consideração, precisamente como acontecerá com as mulheres no fim do Evangelho: acreditam, anunciam e ninguém crê nelas.

Também Zacarias, o sacerdote primeiro emudecido e depois exultante, nos serve de lição. Ele e a sua esposa, descendentes de Araão, teriam finalmente podido transmitir o poder e a honra sacerdotal ao seu filho varão. Mas agora o filho que a misericórdia de Deus lhes concede desiludirá totalmente as suas expetativas: já não será sacerdote, mas profeta, e um grande profeta. Para Zacarias, aceitar as palavras do Arcanjo Gabriel equivale a aceitar que a dádiva de Deus, que é aquele filho, seja para ele a grande renúncia: já não poderá transmitir o seu poder sacerdotal a João. Esta grande dificuldade emudece-o. Ele deve aceitar uma verdadeira diminuição. Permanecendo no deserto e não no Templo, João inicia Jesus na compreensão de que para os seus discípulos o sacerdócio de Araão acabou para sempre, porque o Senhor tem necessidade de encarnação, e não já de mediação. Com a sua dificuldade de aderir à palavra de Deus, Zacarias ensina-nos que o dom de Deus é sempre para nós uma realização milagrosa e, mais cedo ou mais tarde, também uma grande contradição.

 ícone da igreja da Natividade de João Batista (g. Kainske, hoje Kujbysev)

A diminuição, que João Batista reconhecerá como própria verdade e alegria diante de Jesus, já é delineada como a vocação do seu pai perante o próprio filho, uma paternidade que é kenosis. Esta será a verdadeira herança que o Filho João saberá aceitar. Ele será profeta, crescerá e fortalecer-se-á no deserto, e viverá a sua vocação de voz que no deserto clama a palavra de Deus. Renunciando ao Templo, João levará a ouvir a palavra de Deus também aqueles que tinham sido excluídos do Templo. O Evangelho abre-se delineando já, para os discípulos de Jesus, o fim do Templo e de todas as formas de exclusão religiosa, que é a pedra angular de qualquer sacralidade, de qualquer espaço e função sagrada. Com efeito, irão ter com João Batista publicanos e pecadores, já não excluídos da escuta da palavra de Deus. E Jesus levará a um florescimento extraordinário a lição dada por ele: Jesus, que se opôs sempre a todas as formas de exclusão, além de aceitar com compaixão e de oferecer a paz a toda a humanidade sofredora e excluída, não excluirá nem sequer as mulheres da sua comunidade!

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25 de Agosto de 2019

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