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Discriminação sexual grave crime contra a humanidade

· Discurso do Sumo Pontífice ao novo embaixador da República Federal da Alemanha ·

Bento XVI recebeu em solene audiência, na manhã de 7 de Novembro, Sua Excelência o Senhor Reinhard Schweppe, novo Embaixador da República Federal da Alemanha junto da Santa Sé, para a apresentação das Cartas que o acreditam no alto cargo. O Diplomata chegou ao pátio de São Dâmaso, no Palácio Apostólico do Vaticano, onde recebeu uma homenagem do pelotão da Guarda Suíça Pontifícia. Depois, com o Séquito, dirigiu-se para a sala Clementina, onde foi recebido pelo prefeito da Casa Pontifícia, D. James Michael Harvey, que o introduziu na presença do Sumo Pontífice na Biblioteca particular. Após a apresentação das Credenciais tiveram lugar a troca dos discursos e o diálogo privado. Depois da audiência na sala Clementina o Embaixador despediu-se do prefeito da Casa Pontifícia e visitou o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado. Estas foram as palavras do Papa.

ExcelênciaIlustre Senhor Embaixador

É para mim uma alegria dar-lhe as boas-vindas por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Federal da Alemanha junto da Santa Sé. Agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu e peço-lhe, Excelência, que transmita ao Presidente Federal, à Chanceler Federal e aos membros do Governo Federal o meu sincero agradecimento. Ao mesmo tempo, desejo garantir a todos os concidadãos alemães o meu profundo afecto e a minha benevolência. Temos ainda perante os olhos, de forma viva, as imagens jubilosas da minha viagem à Alemanha, em Setembro passado. As numerosas demonstrações de simpatia e de estima que me foram reservadas nas várias etapas da minha visita a Berlim, Erfurt, Etzelbach e Friburgo, superaram consideravelmente as expectativas. Em toda a parte, pude constatar como as pessoas anseiam pela verdade. Nós cristãos temos que testemunhar a verdade, a fim de lhe dar uma forma na vida pessoal, familiar e social.

A visita oficial de um Papa a Alemanha pode ser a ocasião para reflectir sobre o tipo de serviço a Igreja católica e a Santa Sé pode oferecer numa sociedade pluralista, como está presente na nossa pátria. Muitos contemporâneos acreditam que a influência do Cristianismo, como também de outras religiões, consiste em modelar uma determinada cultura e um certo estilo de vida na sociedade. Um grupo de crentes marca, através do próprio comportamento, algumas formas de vida social, que são adoptadas por outras pessoas, imprimindo deste modo na sociedade um carácter específico. Embora esta ideia não seja errada, todavia não é exaustiva da visão que a Igreja católica tem de si mesma. Sem dúvida, a Igreja é inclusive uma comunidade cultural e influencia deste modo as sociedades nas quais se encontra presente. Contudo, está convencida de não ter criado apenas aspectos culturais comuns de diferentes formas nos vários países, e de ter sido por sua vez moldada pelas suas tradições. Além disso, a Igreja católica está consciente de conhecer, através da sua fé, a verdade sobre o homem enquanto tal e portanto de ter o dever de intervir a favor dos valores que são válidos para os seres humanos, independentemente das várias culturas. Distingue entre a especificidade da sua fé e as verdades da razão, às quais a fé abre os olhos e o homem enquanto homem pode ter acesso independentemente desta fé. Felizmente, um patrocínio fundamental de todos os valores humanos universais tornou-se direito positivo na nossa Constituição de 1949 e nas declarações sobre os direitos do homem após a segunda guerra mundial, porque algumas pessoas, depois dos horrores da ditadura, reconheceram a sua validade universal, baseada na verdade antropológica, e transformaram-na na legislatura vigente. Hoje, debate-se de novo sobre os valores fundamentais do ser humano, quando se aborda o tema da dignidade do homem enquanto tal. Neste contexto a Igreja, além do âmbito da sua fé, considera seu dever defender, na totalidade da sociedade, a verdade e os valores, nos quais está em jogo a dignidade do homem. Portanto, citando um ponto particularmente importante, não temos o direito de julgar se um indivíduo é «já pessoa», ou «ainda pessoa», e ainda menos cabe a nós manipular o homem e querer, por assim dizer, criá-lo. Uma sociedade só é verdadeiramente humana quando protege sem reservas e respeita a dignidade de cada pessoa desde a concepção até ao momento da sua morte natural. Todavia, se decidisse «rejeitar» os membros que mais necessitam de tutela, impedir aos homens de ser homens, comportar-se-ia de maneira profundamente inumana e também de modo não verdadeiro em relação à igualdade — evidente para todas as pessoas de boa vontade — da dignidade de todos os seres humanos, em todas as fases da vida. Se a Santa Sé intervém no campo legislativo no que concerne às questões fundamentais da dignidade humana, que actualmente se apresentam em numerosos âmbitos da existência pré-natal do homem, não o faz a fim de impor a fé de forma indirecta, mas para defender valores que para todos são fundamentalmente inteligíveis como verdade da existência, não obstante interesses de outra natureza tentem ofuscar esta reflexão de várias formas.

Neste ponto, gostaria de abordar outro aspecto preocupante que, ao que parece, se propaga através de tendências materialistas e hedonistas sobretudo nos países do chamado mundo ocidental, ou seja, a discriminação sexual das mulheres. Cada pessoa, homem e mulher, está destinada a existir para o próximo. Uma relação que não respeita o facto de que o homem e a mulher têm a mesma dignidade, constitui um crime grave contra a humanidade. Já chegou o momento de limitar de forma enérgica a prostituição, assim como a ampla circulação de material com conteúdo erótico ou pornográfico, inclusive na Internet. A Santa Sé espera que o compromisso da Igreja católica na Alemanha contra estes males seja assumido de forma mais decisiva e clara.

No que diz respeito aos longos anos de relações cordiais entre a Alemanha e a Santa Sé, podemos observar em geral numerosos resultados positivos. É um bem que a Igreja católica na Alemanha tenha excelente possibilidade de acção, que possa anunciar o Evangelho livremente e ajudar as pessoas no âmbito de muitas estruturas caritativas e sociais. Estou verdadeiramente grato pelo apoio concreto oferecido a esta obra por parte das Instituições federais, regionais e municipais. Entre os vários aspectos de uma colaboração positiva e apreciável entre o Estado e a Igreja católica desejo citar, por exemplo, a tutela do direito eclesiástico do trabalho por parte do direito estatal, assim como o apoio oferecido às escolas e instituições católicas no âmbito caritativo, cuja obra serve, afinal de contas, para o bem-estar de todos os cidadãos.

Estimado Embaixador, desejo-lhe um bom início de missão diplomática e muito sucesso nesta tarefa. Ao mesmo tempo, garanto-lhe o apoio e a disponibilidade dos representantes da Cúria Romana no cumprimento dos seus deveres. Invoco de coração sobre a sua pessoa, a sua esposa, os seus colaboradores e as suas colaboradoras na Embaixada da República Federal da Alemanha junto da Santa Sé, a protecção constante de Deus e as suas Bênçãos abundantes.

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16 de Setembro de 2019

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