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​A diferença afirmada pelo viver juntos

· A experiência do mosteiro de Bose contada por quem nele vive ·

«Que o senhor te abençoe à tua chegada e ao teu regresso». Homens e mulheres, mulheres e homens numa mesma Igreja e numa mesma comunidade: é esta a realidade diária da comunidade monástica de Bose. Aqui, monges e monjas juntos rezam, trabalham e praticam a hospitalidade. Qual é então a origem desta comunidade? Como surgiu? Quais são as riquezas e também as dificuldades deste «viver juntos»? Dois irmãos e duas irmãs responderam às nossas perguntas e abriram-nos as portas desta experiência profética. Fala primeiro Enzo Bianchi, fundador da comunidade.

«Inicialmente não havia um verdadeiro projecto de vida homens-mulheres; eu vim aqui só para iniciar um percurso de vida monástica, mas não pensava absolutamente numa organização homens-mulheres. Mas a segunda pessoa que se apresentou depois de um irmão foi uma mulher, muito convencida desta opção de vida, e por conseguinte tive que enfrentar o problema. Fui a Turim para me encontrar com o cardeal Pellegrino, que naquele momento se estava a ocupar do início da nossa comunidade, o qual me disse: «Tu não a procuraste, se o Senhor ta enviou, então é preciso acolhê-la». Acolhemo-la, e para que não estivesse sozinha com três irmãos fui a Grandchamp na Suíça à comunidade protestante a fim de perguntar se podiam enviar para a nossa comunidade algumas das suas religiosas. E foi um verdadeiro milagre porque cheguei no final da tarde e a irmã Minke disse-me que iriam rezar e pensar nisso. No dia seguinte enviaram a irmã Christiane que esteve connosco um ano, «emprestada», num certo sentido, pelas irmãs para que houvesse desde o início um núcleo de homens e de mulheres e não só uma mulher isolada. A partir daquele momento a comunidade teve que se pensar como comunidade formada por mulheres e homens».

Fotografias cedidas pelo Arquivo fotográfico de Bose

«Compreendi imediatamente – prossegue Bianchi – uma verdade: que para viver homens e mulheres juntos era importante que a diferença fosse afirmada. Por conseguinte, tinha que existir uma distinção, a fim de evitar a divisão entre o ramo feminino e o ramo masculino. Por isso quis que desde o início houvesse uma responsável das irmãs, para não ser eu o seu directo responsável, e assim foi. As duas comunidades puderam crer e crescer juntas porque há uma só regra, uma única liturgia, refeições na maior parte feitas juntos (no início comíamos sempre todos juntos) e por conseguinte um estilo de vida igual para todos. Começámos a viver tudo isto gradualmente e vimos que podia funcionar. Muito depressa sentimos e acolhemos as graças de «viver juntos» irmãos e irmãs. A primeira graça foi que os irmãos eram chamados a comportar-se já não como «ursos», mas a ser mais delicados, o que não significa mais femininos, mas mais atenciosos, e sobretudo eram chamados a viver a dimensão do «ocupar-se do irmão», ou seja, a deixar de viver como solitários que se encontram juntos. No respeitante às irmãs, verificámos que tinham adquirido uma «disciplina», uma forma de domínio da palavra diversa daquela das comunidades clássicas de religiosas: ou seja, falavam menos e eram menos tentadas a conversar ou murmurar entre elas. Estas duas coisas mostraram-nos que nos ajudávamos reciprocamente. Mas pouco a pouco apercebemo-nos de que era necessário de vez em quando que os irmãos e as irmãs tomassem as refeições separadamente, mas só esporadicamente, a fim de que as irmãs tivessem um espaço e uma refeição durante a qual podiam estar e falar entre elas na própria língua feminina e o mesmo era válido para nós irmãos (sem que isso se tornasse contudo um hábito, porque normalmente as refeições são consumidas juntos, os irmãos de um lado do refeitório e as irmãs do outro). Tudo isto foi muito útil porque mudou a linguagem usada no momento da refeição; por exemplo as irmãs têm uma linguagem muito mais «eclesial», enquanto nós irmãos temos a tendência a falar de coisas que dizem respeito em maior medida à vida concreta, quer monástica quer eclesial. Por conseguinte, o refeitório, lugar de intercâmbio, é também um lugar de formação, mesmo se podemos falar só durante uma refeição, porque a outra deve ser consumida em silêncio».

«No respeitante à afectividade – acrescenta Bianchi – verificamos com o devido discernimento e como pessoas maduras, que os irmãos e as irmãs não se apaixonam (como todos pensam); não é este o problema, em quarenta anos nunca aconteceu. O verdadeiro problema é a ferida que existe entre homens e mulheres. Com efeito temos duas psicologias diversas. Por exemplo, durante os capítulos, quando devemos tomar decisões, apercebemo-nos que temos duas psicologias diferentes com reflexos muito diversos. Então é preciso harmonizá-las, sem as cancelar ou negar. É um trabalho que se faz dia após dia; por vezes é difícil, por causa desta ferida entre homem e mulher que toda a humanidade conhece e que também nós temos e vivemos, e que deve ser constantemente reconciliada e superada, não através de uma forma de compromisso, mas de um bem maior. Sobre este ponto não tivemos grandes problemas. O importante é que, quando uma pessoa vem aqui para uma vocação monacal, saiba viver com os homens se for uma mulher, e saiba viver com as mulheres se for um homem. O discernimento exerce-se sobre o facto de que se um homem diminui uma mulher e não considera a sua presença, significa que Bose não é o lugar justo para ele».

«Outro aspecto importante é que, no respeitante ao estudo, todos recebem a mesma formação e todos têm os mesmos meios e instrumentos, sem fazer diferenças. Mas deve haver uma mestra das noviças e um mestre dos noviços, porque no acompanhamento pessoal só uma mulher pode acompanhar outra mulher e só um homem pode acompanhar outro homem. Há depois outro ponto que diz respeito a um aspecto da castidade: uma mulher obedece mais facilmente a um homem do que um homem a uma mulher, e isto não é a castidade, é contra a castidade. Pois bem, as mulheres poderiam ser tentadas a obedecer a mim ou a entrar em concorrência comigo, e é por isso que nunca quis ser o director espiritual das irmãs. O meu papel é garantir a unidade dos dois ramos, mas nada tenho a ver directamente com as irmãs, para evitar projecções e ciúmes. As mulheres devem obedecer a uma mulher e os homens a um homem: é uma questão de castidade. Nos anos sessenta, em duas fundações novas houve muitos problemas afectivos, aliás, até sexuais em volta do fundador. Para esta finalidade os capítulos devem ser organizados de maneira muito firme e equilibrada a fim de evitar que os responsáveis ajam só entre si ou ao contrário de maneira solitária e isolada. Todas as decisões devem ser tomadas em conjunto, mas não pelos superiores. Aqui os capítulos são realizados uma vez por mês, e uma vez por ano tem lugar um capítulo de quatro dias durante os quais se tomam as decisões. Todos podem falar e todos têm direito de voto. Além disso, somos uma comunidade ecuménica e nesta óptica dar a palavra às mulheres faz crescer e ajuda o ecumenismo. O ecumenismo contribui também para sermos mais irmãos e irmãs: é o diálogo na diversidade. Nós não pedimos aos ortodoxos que se tornem católicos nem o contrário; as diferenças são necessárias e fazem a comunhão. Porque, se as diferenças fossem negadas, seria uma comunhão mortificadora».

Qual é hoje o seu maior desejo? «Seria ver que a Igreja aprende mais sobre o tema da autoridade da vida monástica», responde Bianchi. «Gostaria de uma autoridade exercida em maior medida segundo a forma monástica, ou seja, uma autoridade que ouve, que faz amadurecer as situações, que é mais sinodal e na qual as mulheres desempenham uma parte activa. De outra forma a Igreja vivê-la-á numa condição não só de pobreza mas também e sobretudo de miséria».

A irmã Maria dell'Orto, que faz parte da comunidade há mais de quarenta anos, foi a responsável das irmãs até 2009. Conta-nos como foram o início e os desafios diários da comunidade. «A comunidade nasceu não como o fruto de uma ideologia, mas de uma realidade (a chegada de uma irmã e de um irmão protestantes) e de uma questão levantada por Enzo Bianchi: «Contém porventura o Evangelho uma palavra que impediria à primeira irmã de viver esta experiência monástica? Não!». Houve por conseguinte uma obediência à realidade da vida e o Evangelho foi o critério para decidir. Foi uma primeira graça, extraordinária, que nos protegeu e animou até agora, mesmo se não foi fácil, mas a vida em si não é fácil. Portanto, procurámos viver segundo os grandes critérios da vida monástica tradicional; a inspiração monástica veio-nos das suas origens (António Pacomio, Basílio, Bento, e assim por diante) e procurámos os ensinamentos que podiam ser mais úteis para nós neste contexto de modernidade».

«A vida monástica entre irmãos e irmãs – prossegue Maria – nos primórdios do cristianismo não era organizada, porque a vida de Jesus teve pouco peso neste sentido. Por exemplo, para se inspirar no Evangelho, muitas vezes foi feita referência às cartas apostólicas, que já contêm muitas «ignomínias». Ao contrário, se tivéssemos feito referência ao Evangelho poderíamos ter constatado os numerosos relacionamentos de Jesus com as mulheres e o seu chamar discípulos quer aos homens quer às mulheres. Por exemplo, em Lucas 11, 27, quando uma mulher lhe diz: «bem-aventurado o ventre que te trouxe e o seio que te amamentou!», Jesus responde «bem-aventurados sejam os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática!». Por conseguinte, este convite a viver o Evangelho é válido tanto para os homens como para as mulheres. Viver todos os dias uma vida monástica homens e mulheres juntamente com membros de outras Igrejas, quando se conhece o peso dos seus sofrimentos, e as provações enfrentadas pelas mulheres numa cultura masculina dominante, é uma felicidade imensa. Mesmo se por vezes é difícil, mas a vida é difícil: a vida dos cônjuges, dos sacerdotes, das pessoas sozinhas. Pois viver deveras significa aceitar a diferença, a diferença entre homens e mulheres mas também entre mulheres e entre homens, e inclusive com os hóspedes: tudo isto é um exercício de liberdade. Aprende-se a não usar os outros, a não crer que seja algo adquirido de uma vez para sempre, procura-se ouvir. Trata-se portanto da dificuldade de viver o dia-a-dia na liberdade, no serviço recíproco, porque no fundo o Evangelho é isto. Procura-se ser nós mesmos, para bem de todos. Descobre-se que se vê melhor graças aos outros. Jesus ensinou-nos o amor na liberdade e transmitiu-nos palavras autênticas para a vida humana. Por exemplo não viver para si próprios é o único modo para não se angustiar neste mundo e para não ter medo do dia nem da noite que virão (em Bose, quase nenhuma porta se fecha à chave). Não é heroísmo, é a coisa mais inteligente no mundo».

«Aprender a viver a alteridade, a não viver ideologicamente, a não nos culparmos uns aos outros, a libertar-nos dos preconceitos, aprender a viver o hoje de Deus no encontro com o próximo: esta é a nossa oportunidade. O irmão e a irmã são uma oportunidade para nos libertarmos do nosso passado ou dos nossos determinismos, para constatar que o peso do nosso passado não nos impede de viver. O mais difícil é libertar-nos de todas as nossas ideologias, pois não somos nem vítimas nem carnífices nas nossas relações com os outros. Na vida monástica há uma grande pobreza porque todos os nossos sofrimentos psicológicos, as nossas fragilidades, estão “sob a luz do sol”, todos os vêem. Portanto, aprendes que não estás no mundo para esconder as tuas debilidades nem para seres apoiado e aprovado, e nem para obrigares os outros a dizer-te “sim, sim”. Aprendes gradualmente a reconhecer aos outros a liberdade de estar aqui e que nós vivemos graças ao facto de os irmãos e as irmãs estarem aqui. Portanto, trata-se de aprender a viver a afectividade na liberdade. No fundo Jesus ensinou-nos a não ter medo da nossa pequenez, isto significa que amar a vida dos outros é a única salvação para todas as nossas fragilidades. Quando estamos envolvidos na sua vida, quando somos, por assim dizer, seduzidos por aquilo que são e que fazem, quando olhamos para eles com interesse, então o medo para nós mesmos desvanece e sentimo-nos imediatamente livres».

Por vezes, arrepende-se da sua escolha? «Sempre soube que além daqui nunca teria podido viver realmente, não porque aqui é melhor que qualquer outro lugar lá fora, não, mas porque este lugar me permitiu viver e cuidar sem angústia da pobreza que sou».

Irmã Antonella é actualmente a responsável das irmãs; é monja há mais de vinte anos. Explica-nos como se organiza o trabalho entre irmãos e irmãs. «Quando uma pessoa chega à comunidade, discernimos em primeiro lugar as necessidades da comunidade e as capacidades daquela pessoa; em seguida, é inserida num laboratório onde trabalhará. Existem laboratórios geridos só por irmãos e alguns só por irmãs, e outros ainda dirigidos por ambos, como por exemplo o trabalho no jardim ou também na hospedaria. Procuramos viver esta disponibilidade conforme as necessidades e não decidir de forma absoluta quem se ocupa de uma coisa ou de outra. Indubitavelmente, há uma riqueza neste modo de viver o trabalho juntos graças aos intercâmbios; uma diversidade também na maneira de enfrentar a mesma problemática ou no modo de organizar, e quando se trabalha em grupo é possível encontrar muitos elementos que podem ser úteis para a actividade ou tornar o trabalho mais simples».

Quando somos acolhidos por vós, irmãos e irmãs, percebemos e intuímos uma grande harmonia entre vós: como explica isso? «Não saberia dizer», responde irmã Antonella. «Nós vivemos a vida do dia-a-dia de forma muito simples. Cada um de nós deve ser também guardião de uma forma de solidão para si mesmo, para poder crescer interiormente como pessoa. Isto possibilita um crescimento que, por sua vez, permite confrontar-nos com os outros sem medo de perder algo neste encontro. E a harmonia e a fluidez entre nós provêm deste dia-a-dia vivido muito simplesmente sem estar na defensiva, mas mostrando-nos tal como somos, com aquela compreensão de saber que estamos juntos na diferença».

Como age esta escuta quotidiana todos juntos da mesma Palavra de Deus durante os tempos fortes litúrgicos? «Durante a Lectio divina, a comunidade reúne-se para reflectir a partir da luz da Palavra de Deus sobre a sua vida. Além disso, cada semana temos uma Lectio divina todos juntos e de facto esta partilha da Palavra é uma grande ajuda para o caminho da comunidade: consolida a vida em comum. Assim cada um de nós é chamado a pôr-se em questão num ímpeto de conversão a fim de voltar a estar em sintonia com o corpo comunitário».

Quais foram as suas alegrias ao longo destes vinte anos? «As minhas alegrias – responde ainda irmã Antonella – encontram-se sobretudo na vida comunitária, ou seja, consistem em viver uma vida fraterna simples, sadia e profundamente misericordiosa. Senti tanto a misericórdia dos meus irmãos e das minhas irmãs e isto ajudou-me muito a renovar constantemente o meu modo de ser e o meu comportamento em relação a eles, graças à sua correcção fraterna deveras misericordiosa. É um modo de recomeçar juntos e é a minha maior alegria, que aprecio sempre. No que diz respeito às dificuldades, são relativas à mudança pessoal, que é sempre difícil [sorri], e também às relações pessoais, quando não conseguimos ouvir-nos, compreender-nos, porque não é o momento certo ou porque é necessária muita paciência. Uma das coisas mais difíceis é a comunicação: quer dizer, aprender continuamente a ouvir-se sem acreditar que é um facto adquirido de uma vez por todas. Tudo isso exige de nós um profundo crescimento humano, que não procura imitar o outro mas que nos pede para ser felizes por aquilo que somos, mesmo sabendo que homens e mulheres se exprimem numa linguagem completamente diferente. Esta vida comunitária é portanto um verdadeiro dom de Deus (não é um projecto humano) sobre o qual devemos vigiar constantemente e que exige muita memória, atenção e gratidão».

Frei Goffredo, assistente de Bianchi, está na comunidade há vinte e dois anos. Pedimos-lhe para compartilhar connosco as suas reflexões sobre a vida comum entre irmãos e irmãs. «Desde o início fui atraído pelo carisma do prior Enzo Bianchi e pela vida comunitária que aqui se vivia, homens e mulheres juntos, e também pela vida comum ecuménica. Esta riqueza homem-mulher deve ser aprendida, cultivada e assimilada. Assim tornamo-nos mais humanos. A vida normal é feita de homens e de mulheres; por conseguinte, um verdadeiro percurso de humanização realiza-se quando homens e mulheres se unem para um caminho de diversidade e de alteridade. A diversidade não deve causar medo, porque é uma ajuda e uma riqueza. Não se trata de fazer uma lista das diferenças entre homens e mulheres; ao contrário, devemos viver como mulheres ou como homens. Com efeito, são dois modos de estar no mundo que existem desde as origens; trata-se, por conseguinte, de viver uma diferença essencial e natural. É difícil viver esta vida comum colocando juntos dois modos diversos de enfrentar a realidade. Mas é também e sobretudo um desafio, porque para chegar a uma visão global e unificada, devemos partir de dois pontos de vista diversos para depois conseguir ver juntos a realidade. Os homens têm um próprio modo de ver a realidade e as mulheres outro, mas é normal, sendo a realidade tanto masculina quanto feminina. Vê-la juntos é difícil mas é uma verdadeira riqueza, porque juntos é possível vê-la melhor. Hoje seria para mim muito difícil viver numa comunidade unicamente de homens».

«O nosso caminho de vida comum – conclui frei Goffredo – é inédito: homens e mulheres celibatários que vivem juntos sem serem casados. Portanto, para nós trata-se de encontrar um acordo diferente, mas que esteja enraizado na vida monástica e no Evangelho».

Catherine Aubin

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20 de Agosto de 2019

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