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Diante de Deus e diante dos homens

Face à situação grave e vergonhosa que a Igreja na Irlanda está a viver há já demasiados anos, Bento XVI tomou a decisão de dirigir aos católicos do país uma carta que pela sua coragem não tem precedentes: um documento evangélico para responder a um inaudito obscurecimento da luz do Evangelho, que o Papa quis publicar depois de se ter encontrado com os bispos irlandeses convocados em Roma. Declarando a sua profunda preocupação, Bento XVI afirma partilhar a perturbação, o assombro e a sensação de traição sentidos por muitos católicos por actos pecaminosos e criminosos e pelo modo como eles foram enfrentados pelas autoridades da Igreja no país.

A amargura e a severidade do texto papal evocam a carta, perdida, que o apóstolo Paulo recorda ter escrito aos Coríntios «com o coração contrito e com muitas lágrimas», não para aumentar a tristeza da sua comunidade mas para a sustentar com o seu amor. Assim o documento dirigido aos católicos da Irlanda foi escrito para não esconder o mal feito – diante de Deus e diante dos homens – e sobretudo para olhar em frente. Antes de tudo, porque a horrenda culpa dos abusos perpetrados contra  menores seja reparada segundo a justiça e segundo o Evangelho.

Para fazer isto, os católicos irlandeses devem reconsiderar a sua grande e muitas vezes heróica história cristã, da qual nos últimos decénios a Igreja no país não soube ser digna, descuidando o património da tradição e confundindo a renovação querida pelo Vaticano II. Em particular, não foi observado o direito canónico, que está ao serviço do Evangelho e da pessoa humana, com consequências desastrosas na admissão ao sacerdócio e na formação dos eclesiásticos, cobrindo por fim as faltas para evitar escândalos.

O diagnóstico lúcido e severo da carta é perfeitamente coerente com a obra quase tricenal do cardeal Ratzinger, resumido na sua exclamação durante a Via-Sacra a 25 de Março de 2005, poucos dias antes da morte de João Paulo II: «Quanta sujidade há na Igreja, e precisamente entre aqueles, no sacerdócio, que deveriam pertencer completamente a Ele!». E é coerente com quanto como Papa fez desde o dia da eleição, também para a Irlanda: já a 28 de Outubro de 2006 exortou os bispos do país a «estabelecer a verdade a respeito daquilo que aconteceu no passado, dar todos os passos que forem necessários para impedir que ele volte a ocorrer, assegurar que os princípios da justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, dar alívio às vítimas e a todas as pessoas que foram atingidas por estes crimes hediondos». A quem sofreu os abusos o Papa dirige «com humildade» palavras claras e comovedoras, declarando mais uma vez vergonha e remorso, consciente de que para algumas vítimas agora é «difícil até entrar numa igreja» mas garantindo-lhes que poderão ser curadas precisamente pelas feridas de Cristo. E aos jovens recomenda que mantenham o olhar fixo em Jesus, «porque ele nunca trairá a vossa confiança». Confiança traída pelo contrário pelos culpados, que deverão responder a Deus e aos tribunais. A eles, e aos bispos que procederam mal, a carta dirige expressões muito severas para contribuir para um processo, que será longo, de penitência e cura. Com o olhar dirigido para o único Senhor que pode renovar todas as coisas.

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23 de Setembro de 2019

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