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Diadema real

· A fundadora da abadia Mater Ecclesiae no lago d'Orta explica-nos o véu monástico ·

«Recebe o véu e o santo hábito, sinal da tua consagração, e não te esqueças nunca que foste adquirida por Cristo para servi-lo só a ele e ao seu Corpo que é a Igreja». Com esta fórmula, no dia da profissão perpétua e consagração, o bispo entrega à freira o véu e o hábito coral. A neo-consagrada canta: Posuit signum in faciem meam... «O Senhor meteu um selo no meu rosto, para que não admita outro esposo além dele».

A grande mística santa Gertrudes nos seus Exercícios espirituais, onde renova a sua consagração, rezava assim ao preparar-se para receber espiritualmente o véu: «Oh meu dilecto, deixa-me descansar à sombra da tua caridade... Ali recebo da tua mão o véu da pureza, que graças à tua guia e à tua direcção, levarei sem nenhuma mancha diante do tribunal da tua glória, com o fruto centuplicado de uma castidade que seja o espelho mais puro da inocência» (Exercícios espirituais, III).

O significado do véu é evidente. A freira, consagrada na virgindade para ser exclusivamente esposa de Cristo, deve subtrair-se ao olhar de outros possíveis pretendentes e amantes. Por isso ela vive retirada do mundo, no claustro (claustrum, de onde derivam os termos claustral e clausura), para estar sempre sob o olhar de Deus e agradar só a ele com a pureza e a intensidade do amor.

Portanto o véu é uma espécie de clausura na clausura, porque também dentro do mosteiro a monja tem um estilo de vida e um modo de relacionar-se com as outras claustrais muito reservado. Mas este costume não tem nada de oprimente, o véu é muito querido pela freira e vestido por ela com muita devoção: beija-o todas as vezes que o mete ou que o depõe.

Este, impedindo-a de divagar com os olhos, ajuda-a a manter o olhar do coração dirigido mais directamente para Deus, na contemplação do seu rosto sempre desejado e procurado. O véu também é o sinal do pudor que a esconde, em um certo sentido, ao seu próprio esposo. Sob esta luz, os Padres sempre leram o Cântico dos cânticos: «Ah! Como és bela, minha amiga! Como estás linda! Teus olhos são pombas, por detrás do teu véu... És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa, um jardim fechado, uma fonte selada» (4,1.12).

Estes magníficos versos exprimem a admiração e a comovida surpresa do esposo divino diante da esposa prometida, recolhida e revestida de uma humilde e delicada reserva. É o próprio mistério do amor virginal a pedir para ser delicadamente guardado atrás de um véu. Com são Paulo pode-se realmente exclamar que grande é «este mistério» virginal e nupcial» (cf. Efésios, 5, 32).

Com certeza, à mentalidade e à sensibilidade do nosso tempo é muito difícil entender e admitir este costume das monjas, contudo as vocações para a vida claustral não diminuem, para testemunhar o valor da fé na nossa sociedade tão secularizada e, na sua grande parte, também descristianizada.

Na realidade, a vocação monástica, por desígnio de Deus, serve para compensar a falta de fé que há no mundo. Não se trata de desprezo e esquecimento dele, mas é uma vida que exclui o compromisso com o mundano, com o que é corrupto, para se dedicar totalmente à oração e à ascese para benefício de toda a humanidade.

Portanto, a freira vive de modo sublime o mistério nupcial e materno no plano sobrenatural. O forte simbolismo do véu indica a generosidade e a intensidade com que a claustral faz dom de si a Deus por todos, ficando escondida, para ser completamente gratuita.

Não posso esquecer a emoção que senti no momento em que o bispo me entregou o véu abençoado: foi como se o céu se tivesse curvado sobre mim para me envolver na esfera do sagrado, na intimidade do coração de Cristo, à semelhança da Virgem Mãe Maria.

Quando o Papa Libério, no IV século, consagrou Marcelina, irmã do bispo Ambrósio de Milão, no momento em que lhe colocou na cabeça o véu religioso, todo o povo que enchia a basílica de São Pedro foi testemunha ao aplaudir e ao proclamar: Amém! Amém!

O rito litúrgico da velatio virginum é muito sugestivo. Antigamente o véu usava-se também de cor vermelha e significava que a virgem tinha sido resgatada com o sangue do esposo, Cristo. Por isso, em um dos seus lindíssimos sermões, santo Ambrósio – que pode ser definido “consagrador das virgens” - descreve assim uma mulher consagrada: «Ornada com todas as virtudes, envolvida no véu que se tornou purpúreo com o sangue do seu Senhor, ela avança como uma rainha trazendo sempre no seu corpo a morte de Cristo» (De institutione virginis, 17.109).

Á virgindade é também justamente atribuído o carácter de martírio. De facto, ela é considerada uma forma de martírio, por ser um vida totalmente doada. De consequência, é-lhe reconhecida também a dignidade real e é coroada pelo esposo, rei do universo. O véu, deste modo, assume também o significado de diadema real.

Poderá haver uma maior dignidade para a mulher? O próprio véu conserva-a na humildade. Na basílica de São Simpliciano, em Milão, há uma inscrição sepulcral do século V que diz simplesmente: Hic iacet Leuteria cum capite velato. Verso poético que entrega à memória da posteridade uma mulher que se distingue com o véu, sinal da consagração a Cristo, sinal de uma altíssima nobreza.

Ao falar do véu, não se pode deixar de dirigir a atenção à Virgem Imaculada, sempre representada com o véu e, por vezes, com um véu tão amplo que cobre o Menino Jesus que tem nos seus braços.

À volta dela, em todas as épocas, floresceu a mais bonita poesia. A ela são dirigidas as mais sentidas invocações para que estenda o seu véu sobre todos nós, sobre toda a humanidade da qual foi feita Mãe. «Virgem Mãe, filha do teu Filho – canta Dante – humilde e mais alta que qualquer outra criatura / termo fixo do eterno desígnio / Tu és aquela que a natureza humana / enobreceste de modo tal que o seu criador / não desdenhou fazer-se sua criatura... / Aqui és para nós luz meridiana / de caridade; e entre os mortais / és uma fonte viva de esperança. / Mulher, és tão grande e tanto vales, / que quem deseja graças e a ti não recorre, / é como se quisesse voar sem asas. / A tua bondade não socorre somente / quem pede, mas muitas vezes / livremente antecipa o pedido» (Paraíso XXXIII, 1-18).

Velada, mas presente – como a Virgem Maria – é a mulher que se dedica totalmente ao Senhor na oração. Ela não se torna um ser desencarnado e impassível, distante da gente comum, mas sim uma mulher capaz de amor oblativo e universal, completamente gratuito porque virgem.

É este o significado místico do véu na cabeça das mulheres consagradas, escondidas do mundo para estarem no coração do mundo e levarem todos os homens ao coração de Cristo, único esposo da Igreja, da humanidade que ele redimiu com o preço do seu sangue, para torná-la santa e imaculada na sua presença. Resplandecente daquela beleza espiritual que deve ser guardada de qualquer profanação, atrás do sagrado véu virginal.

A beneditina Anna Maria Canopi (1931) fundou a abadia Mater Ecclesiae na ilha de São Júlio, no lago d'Orta (Novara). Escritora fecunda e profunda erudita, é autora de muitos livros sobre a espiritualidade monástica e cristã. Colaborou na edição da Bíblia da Conferência episcopal italiana e no Catecismo da Igreja católica. Em 1993 preparou o texto da Via Crucis de João Paulo II. As fotografias desta página são de Sebastiana Papa (1932-2002).

Anna Maria Canopi

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21 de Agosto de 2019

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