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Descasquei a cebola

· Missa em Santa Marta ·

Há muitos «cristãos que se pavoneiam», doentes de vaidade, que «vivem para aparecer e para se mostrar». Assim acabam por transformar a sua vida numa «bolha de sabão», bela mas efémera, e saem por aí com demasiada maquilhagem, talvez procurando também fazer boa impressão, agitando «cheques para as obras da Igreja» ou recordando que são «parentes de tal bispo». Mas agindo assim levam uma vida falsa, enganando-se a si mesmos. Ao contrário, o que conta é «a verdade, a realidade concreta do Evangelho». Foi com um encorajamento «talvez um pouco cruel mas genuíno» que o Papa pediu aos cristãos para considerar só a sua «vida com o Senhor», sem mandar tocar trombetas».

Durante a missa celebrada em Santa Marta na manhã de 25 de Setembro, Francisco comentou o célebre trecho do livro de Coélet — «vaidade das vaidades» (1, 2-11) — proposto pela liturgia do dia, observando que ele não é «pessimista» como poderia parecer. Ao contrário, diz-nos a «verdade», ou seja, que «tudo passa e se não tivermos algo de consistente, também nós passaremos, como tudo».

O trecho da Escritura «começa com uma palavra-chave: vaidade». Com efeito, «a vida de uma pessoa pode ser forte, na qual se fazem muitas coisas boas». Mas «há também a tentação» de a transformar numa «vida de vaidades, de viver por coisas inconsistentes, que passam». Em síntese, a tentação é de «viver para aparecer, para se mostrar: e isto não só entre os pagãos, mas também entre pessoas de fé, entre os cristãos». Jesus «repreendia severamente os vaidosos». Assim, «aos doutores da lei dizia que não deviam passear pelas praças com roupas de luxo: pareciam príncipes!». E admoestava-os: «Vós amais isto, não a verdade». E dizia aos vaidosos: «Quando rezardes, por favor não vos mostreis. Não oreis para que vos vejam». Em síntese, Jesus sugere o comportamento oposto: «Reza escondido, no teu quarto — tu e o Senhor — sem te mostrares». E ainda: «Quando ajudardes os pobres, por favor não mandeis tocar trombetas mas fazei-o às escondidas. O Pai vê tudo, e isto é suficiente».

Mas o vaidoso pensa: «Ofereço este cheque para as obras da Igreja» e mostra-o. E talvez «depois, ao contrário, burla a Igreja». Este é o modo de agir do vaidoso que, afinal, «vive para aparecer». E a tais pessoas o Senhor diz expressamente: «Quando jejuardes, não vos mostreis melancólicos e tristes, para que todos vejam que jejuais. Jejuai, fazei penitência com alegria, de modo que ninguém se dê conta».

Francisco alertou contra a tentação da «vaidade, que é viver para aparecer, para se mostrar». E reconheceu: «Talvez o que vos digo seja um pouco cruel, mas é a verdade», pois «os cristãos que vivem para aparecer parecem pavões: pavoneiam-se!», e dizem: «Sou cristão, sou parente daquele sacerdote, daquela religiosa, de tal bispo; a minha família é cristã, somos todos bons». Mas o que conta não é vangloriar-se de algo, porque o essencial é só «a tua vida com o Senhor». Depois, o Papa fez algumas perguntas: «Como rezas? Como vai a tua vida nas obras de misericórdia? Visitas os doentes?». Em síntese, é preciso ser concreto, ver «a realidade». E «por isso Jesus diz que devemos construir a nossa casa, a nossa vida cristã, na rocha, na verdade». Mas «os vaidosos edificam a sua casa na areia e ela cai, a vida cristã desaba porque não é capaz de resistir às tentações».

Hoje «muitos cristãos vivem para aparecer». E «a sua vida parece uma bolha de sabão, bela, com todas as cores, mas só dura um segundo». «Também quando admiramos alguns monumentos fúnebres pensamos que é vaidade, porque a verdade nos faz voltar à terra nua, como dizia Paulo VI». De resto, «o que nos espera é a terra nua, a nossa verdade final». Entretanto, «vanglorio-me ou realizo algo? Faço o bem? Procuro Deus? Rezo?». Por isso é preciso apostar nas «coisas consistentes». Mas «a vaidade é falsa, fantasiosa, engana o vaidoso: primeiro finge ser, mas no final julga ser o que diz. Crê, coitado».

Foi o que aconteceu com o tetrarca Herodes (Lc 9, 7-9): «Quando Jesus apareceu, ele ficou perplexo. Nas suas fantasias, pensava: “Ma será ele João, que eu mandei decapitar? Será outro?”». A reacção de Herodes demonstra que «a vaidade semeia inquietações negativas, tira a paz». Em síntese, a vaidade «é como as pessoas que se maquilham demais e depois têm medo de se molhar na chuva e que toda a maquilhagem seja eliminada». Por isso, «a vaidade não nos dá paz: só a verdade nos dá a paz».

Portanto, «pensemos hoje nos conselhos de Jesus, para edificar a nossa vida na rocha. Ele é a rocha. A única rocha é Jesus!».

Mas «pensemos nesta proposta do diabo, que até a Jesus tentou com a vaidade no deserto», propondo-lhe: «Vem comigo, vamos ao templo, façamos um espectáculo: lança-te do pináculo e todos acreditarão em ti». Verdadeiramente, o diabo apresentou a Jesus «a vaidade numa bandeja».

Por todos estes motivos, afirmou o Pontífice, a vaidade «é uma doença espiritual muito grave». É significativo que «os padres egípcios do deserto diziam que a vaidade é uma tentação contra a qual devemos lutar a vida inteira, porque ela volta sempre para nos privar da verdade». E «para nos fazer compreender isto, diziam ainda: é como a cebola; pegas nela e começas a descascá-la. Descascas a vaidade um pouco hoje, um pouco amanhã» e vais em frente «a vida inteira, descascando a vaidade para a derrotar». Assim, «no final ficas contente: eliminei a vaidade, descasquei a cebola. Mas permanece o cheiro da cebola nas tuas mãos».

Francisco concluiu a meditação pedindo, em oração «ao Senhor, a graça de não sermos vaidosos», mas de «sermos autênticos, com a verdade da realidade e do Evangelho».

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18 de Fevereiro de 2019

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