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Deitadas no asfalto a favor dos clandestinos

Entrevista à irmã Pat e à irmã JoAnn que trabalham no sistema carcerário de Chicago

«Como irmãs da misericórdia somos chamadas a ser solidárias com as nossas irmãs e os nossos irmãos imigrados clandestinamente». A irmã Pat Murphy e a irmã JoAnn Persch levaram a sério esta vocação e estão a fazer a sua parte ao ajudarem os onze milhões de imigrados desprovidos de documentos nos Estados Unidos. Durante anos desempenharam o seu ministério nas prisões de Chicago, no Illinois, trabalhando de modo especial no Broadview Immigration Processing Center, lugar onde os imigrados ilegais ficam até ao processo. As duas religiosas conheceram-se quando eram ainda jovens e não foi necessário muito tempo para que descobrissem que a espiritualidade e o sentido de justiça de ambas eram muito compatíveis. A participação em programas sobre a doutrina social da Igreja, gerida pelos jesuítas, ajudou-as a ouvir a chamada: dedicarem-se às questões de justiça. Hoje empenham-se a todos os níveis para contribuir para que o Congresso dos Estados Unidos aprove uma lei que permitiria a alguns jovens sem documentos e às suas famílias a possibilidade de obter a cidadania. «Somos mulheres de esperança, não não desanimaremos».

Por que vos interessastes pela imigração clandestina?

A justiça social esteve sempre no centro dos nossos interesses. Crescemos em cidades diversas, mas ambas fizemos parte de grupos de acção católica. A morte de três irmãs e de uma missionária leiga no Salvador de monsenhor Romero, dos jesuítas e da sua governanta, levou-nos a reagir. Foi esta, em parte, a nossa primeira chamada a dedicar-nos aos imigrantes e, no caso específico, aos refugiados da América central que fugiam da violência. Em 1990 inauguramos e começamos a gerir Su Casa , uma casa da comunidade católica para os refugiados da América central. Acolhíamos homens, mulheres e crianças oriundos daquelas terras, todos vítimas de torturas. Durante seis anos vivemos e trabalhamos em Su Casa , que ainda está aberta e acolhe mulheres e crianças hispânicas que não têm um tecto.

Depois apareceu também o Broadview Immigration Processing Center...

Em 2006 a nossa comunidade pediu-nos para ir conhecer “verdadeiros” imigrantes, portanto procuramos um novo desafio. Ouvimos falar de um advogado, Royal Berg, que precisamente naquele ano tinha decidido ir rezar no centro de imigração de Broadview onde as pessoas eram detidas à espera de controles. Unimo-nos a ele em Janeiro de 2007: entendemos que a nossa vocação era estar ali todas as sextas-feiras. Naquela primeira semana havia somente três irmãs da Misericórdia e o advogado. Agora todas as semanas participam por volta de quarenta pessoas. Cinco de nós entram antes que seja permitido o acesso aos familiares; duas dedicam-se às famílias fornecendo-lhes notícias sobre para onde irão os seus entes queridos e os endereços de casas seguras; outras falam com os que serão transferidos para outras estruturas à espera do julgamento.

Tivestes que conquistar a autorização para entrar no autocarro dos clandestinos e no centro.

É uma história longa. Falando com os familiares que vinham cumprimentar os presos, entendemos que devíamos estar presentes dentro da estrutura para lhes oferecer assistência pastoral. Pedimo-lo mas a resposta foi negativa. Então pusemo-nos de acordo com um grupo de manifestantes para nos deitarmos diante dos autocarros com destino ao aeroporto com o objectivo de denunciar a violação dos direitos humanos e religiosos. O facto que estivessem envolvidas na contestação duas irmãs vivazes e já um pouco idosas teve um grande eco nos mass media. Foi assim que os serviços dedicados à imigração nos chamaram: queriam negociar. O resultado foi que a partir de Abril de 2009 fomos autorizadas a entrar nos autocarros com destino ao aeroporto para rezar com os “passageiros”. Foram necessárias ainda outras negociações para que fôssemos autorizadas também a entrar para falar e rezar com os imigrantes clandestinos. Entretanto um grupo de apoio preparou uma projecto de lei para consentir que os agentes pastorais entrassem nas prisões do Illinois e se encontrassem com os presos por imigração clandestina. Éramos o que definiam “o rosto da lei”. E assim começámos a fazer pressão e no fim a lei foi aprovada. Estávamos em 2008. No entanto, tivemos que esperar até 2010 para podermos entrar concretamente. O nosso lema é: «Fazemo-lo de modo pacífico e respeitoso, mas nunca aceitamos um não como resposta».

Que relação estabeleceis com os detidos e com as suas famílias?

Algumas destas pessoas são presas durante meses ou até mesmo anos. Muitas delas apresentam-se com regularidade, portanto conseguimos estabelecer uma ligação que, em parte, continua também depois. Um dos detidos que veio ter connosco tinha a esposa e um filho em Chicago. Eles começaram a vir a Broadview e assim também os conhecemos. O marido agora está fora sob caução e portanto às vezes participa na vigília. Fomos à sua casa e eles veio à nossa. Estamos a rezar para que o homem não seja transferido quando houver o processo. Agora temos um programa pós-detenção e muitas das pessoas que hospedamos e assistimos estabelecem uma ligação estreita connosco e com o nosso pessoal. Se cuidamos deles é porque não têm uma família neste país, não têm a autorização para trabalhar e para serem ouvidos no tribunal, por vezes, têm que esperar anos.

Também ides todas as semanas à prisão do distrito de McHenry.

Às terças-feiras uma esquadra composta por uns quinze homens e mulheres vai à prisão do distrito de McHenry. Os presos inscrevem-se numa lista para se encontrarem connosco. Trata-se de visitas em contacto pessoal e directo, porque nos encontramos com eles numa sala. Dialogamos, fornecemos-lhe informações sobre o que acontece quando se é repatriados, transmitimos mensagens quando nos pedem para fazer algum telefonema, distribuímos material de leitura religioso e Bíblias, se o desejam. Terminamos sempre com uma oração. Dizem-nos também pelo que desejam que rezemos, nós escrevemo-lo e enviámo-lo às diversas comunidades confessionais. Quando não têm dinheiro para telefonar para casa ou comprar o necessário, depositamos dez dólares na conta deles para as despesas pessoais.

Por que é importante para os Estados Unidos que se trabalhe no campo da imigração? Quais são os problemas fundamentais para resolver?

A imigração é um ponto central no nosso país e na nossa Igreja. Quando fazemos um discurso público, com frequência usamos as bases das Escrituras para explicar a nossa necessidade de ser hospitaleiros e de acolher os outros. A questão mais importante é a unidade da família. Continuamos a ver famílias dilaceradas, crianças sem pais, cônjuges deixados sozinhos, assistimos ao surgir de uma nova categoria de pobres, onde com frequência a família era sólida e as pessoas eram membros produtivos da sociedade.

O Papa Francisco condenou a globalização da indiferença, propondo uma globalização da fraternidade. Como pode uma globalização da fraternidade ajudar a resolver as questões relativas à imigração?

Gostamos muito da homilia pronunciada em Lampedusa. Citámo-la nos nossos discursos e muitas vezes distribuímos uma cópia dela. A globalização da indiferença é letal para a questão da imigração e para o mundo em geral. É uma homilia com tanta força: que dom seria a globalização da fraternidade! Significaria viver o Evangelho. Muitas vezes dizemos: é difícil praticar o Evangelho. Isto porque vivemos numa cultura de isolamento e de medo. Não haveria o problema da imigração se praticássemos a globalização da fraternidade. Em vez de reconhecer que somos irmãos e irmãs, vivemos na cultura do nós e do eles: estamos convencidos que se os outros não são como nós, não podem ser bons.

O Papa convidou a ajudar os que estão nas periferias. Que papel têm desempenham as religiosas na ajuda aos marginalizados e que dons específicos possuem as mulheres ao prestar esta ajuda?

As religiosas estão na vanguarda do trabalho com os marginalizados. A nossa comunidade está comprometida a trabalhar com os pobres e os oprimidos, mas isto vale para todas as religiosas. Vamos onde há necessidade e trabalhamos com todos. Devemos demonstrar às nossas irmãs e nossos irmãos que não estão sós. Temos a capacidade de nos colocarmos do seu lado e de falar a favor dos que não podem ou não sabem fazê-lo. As mulheres são dotadas de gentileza e de sentido materno, mas também são muito fortes e é próprio do instinto materno proteger os indefesos e colocar-se do lado deles. Não devemos ter medo de arriscar por amor ao Evangelho.

Em 1990 a irmã Pat Murphy e a irmã JoAnn Persch fundaram em Chicago a comunidade católica para trabalhadores Su Casa, destinada aos refugiados da América central que pedem asilo e que sobreviveram às torturas. Alguns anos depois, abriram a Casa Notre Dame para as mulheres que se curavam de dependências e para os seus filhos. Hoje trabalham como voluntárias de justiça para as irmãs da Misericórdia de Chicago, na área do West/Midwest. Criaram e agora coordenam a comissão interconfessional para os imigrantes detidos.

Elizabeth Simari

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24 de Agosto de 2019

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