Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Defensor da verdade na expectativa da felicidade eterna

· Mensagem de Bento XVI ao organizador do congresso sobre Newman na Pontifícia Universidade Gregoriana ·

Por ocasião do simpósio sobre a figura e a obra do beato John Henry Newman realizado em Roma nos dias 22 e 23 de Novembro na Pontifícia Universidade Gregoriana, o Papa enviou a seguinte mensagem ao director do International Centre of Newman Friends, organizador do congresso.

Ao Reverendo Padre

Hermann Geissler, f.s.o.

Director do International Centre

of Newman Friends

Enquanto ainda está viva em mim a alegria por ter podido proclamar beato o Cardeal John Henry Newman, durante a minha recente viagem ao Reino Unido, dirijo uma cordial saudação a Vossa Reverência, aos ilustres Relatores e a todos os participantes no Simpósio organizado em Roma pelo Centro Internacional Amigos de Newman. Expresso o meu apreço pelo tema escolhido: «A primazia de Deus na vida e nos escritos do beato John Henry Newman». De facto, com ele é posto na justa evidência o teocentrismo como perspectiva fundamental que caracterizou a personalidade e a obra do grande teólogo inglês.

Todos sabem que o jovem Newman, não obstante tivesse podido conhecer, graças à mãe, a «religião da Bíblia», atravessou um período de dificuldades e dúvidas. De facto, aos catorze anos sofreu a influência de filósofos como Hume e Voltaire e, reconhecendo-se nas suas objecções contra a religião, orientou-se, segundo a moda humanista e liberal desse tempo, para uma espécie de deísmo.

No ano seguinte, contudo, Newman recebeu a graça da conversão, encontrando repouso «no pensamento de só dois seres absolutos e luminosamente evidentes em si mesmos, eu mesmo e o meu Criador» (J.H. Newman, Apologia pro vita sua, Milão 2001, pp. 137-138). Descobriu portanto a verdade objectiva de um Deus pessoal e vivo, que fala à consciência e revela ao homem a sua condição de criatura. Compreendeu a sua dependência no pertencer Àquele que é o princípio de todas as coisas, encontrando assim n’Ele a origem e o sentido da identidade e singularidade pessoal. É esta particular experiência que constitui a base para a primazia de Deus na vida de Newman.

Depois da conversão, ele deixou-se guiar por dois critérios fundamentais — tirados do livro A força da verdade, do calvinista Thomas Scott — que manifestam plenamente a primazia de Deus na sua vida. O primeiro: «a santidade mais que a paz» (ibid., p. 139), documenta a sua firme vontade de aderir ao Mestre interior com a própria consciência, de se abandonar confiantemente ao Pai e de viver na fidelidade à verdade reconhecida. Estes ideais teriam exigido em seguida «um preço elevado». De facto, Newman, quer como anglicano quer como católico, teve que sofrer muitas provações, desilusões e incompreensões. Contudo, nunca cedeu a falsos compromissos, nem se contentou com fáceis consentimentos. Permaneceu sempre honesto na busca da verdade, fiel às chamadas da própria consciência e propenso para o ideal da santidade.

O segundo mote escolhido por Newman: «o crescimento é a única expressão de vida» (ibidem), expressa completamente a sua disposição a uma conversão contínua, transformação e crescimento interior, sempre confiadamente apoiado em Deus. Descobriu assim a sua vocação ao serviço da Palavra de Deus e, inspirando-se nos Padres da Igreja para ser mais esclarecido, propôs uma verdadeira reforma do anglicanismo, aderindo por fim à Igreja católica. Resumiu a própria experiência de crescimento, na fidelidade a si mesmo e à vontade do Senhor, com as conhecidas palavras: «Aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações» (J. H. Newman, O desenvolvimento da doutrina cristã, Milão 2002, p. 75). E Newman foi ao longo de toda a sua existência uma pessoa que se converteu, que se transformou, e deste modo permaneceu sempre o mesmo, e tornou-se cada vez mais ele mesmo.

O horizonte da primazia de Deus marca em profundidade também as numerosas publicações de Newman. No citado ensaio sobre O desenvolvimento da doutrina cristã, escreveu: «Há uma verdade; há uma só verdade; ... a busca da verdade não deve ser satisfação de curiosidade; a aquisição da verdade não se assemelha minimamente à excitação por uma descoberta; o nosso espírito está submetido à verdade, portanto não é superior a ela e deve não tanto discorrer sobre ela, como venerá-la» (pp. 344-345). A primazia de Deus traduz-se portanto, para Newman, na primazia da verdade, uma verdade que deve ser procurada antes de tudo predispondo a própria interioridade ao acolhimento, num confronto aberto e sincero com todos, e que descobre o seu ápice no encontro com Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo 12, 6). Newman deu portanto testemunho da Verdade também com a sua riquíssima produção literária indo da teologia à poesia, da filosofia à pedagogia, da exegese à história do cristianismo, dos romances às meditações e orações.

Apresentando e defendendo a Verdade, Newman foi sempre atento também a encontrar a linguagem apropriada, a fórmula justa e o tom adequado. Procurou nunca ofender e prestar testemunho à gentil luz interior ( «kindly light» ), esforçando-se por convencer com a humildade, a alegria e a paciência. Numa oração dirigida a São Filipe Néri escreveu: «Que o meu aspecto seja sempre aberto e alegre, e as minhas palavras gentis e agradáveis, como convém àqueles que, qualquer que seja o estado da sua vida, gozam do maior de todos os bens, do favor de Deus e da expectativa da felicidade eterna» (J.H. Newman, Meditações e orações, Milão 2002, pp. 193-194).

Ao beato John Henry Newman, mestre ao ensinar-nos que a primazia de Deus é a primazia da verdade e do amor, confio as reflexões e o trabalho deste Simpósio, enquanto, por intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja, me alegro por conceder a Vossa Excelência e a todos os participantes a implorada Bênção Apostólica, penhor de abundantes favores celestes.

Vaticano, 18 de Novembro de 2010.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

22 de Setembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS