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Da ausência à presença

O coração humano não pode sentir-se satisfeito sem o amor, sem a união com os entes queridos. Como na Eucaristia, também na família não podemos experimentar a alegria da comunhão, se primeiro não houver a presença, uma presença real e sólida. Não é um segredo que hoje em dia a família deve enfrentar numerosos desafios importantes. Muitas vezes analisamos as problemáticas e chegamos a propor soluções a partir de fora, ou seja, sob o ponto de vista da economia, das estruturas legais e sociais, ou então das mudanças culturais, que constituem factores externos relevantes para o bem-estar do ser humano; no entanto, o fortalecimento da vida familiar tem início a partir de dentro, sob o ponto de vista da pessoa e do desejo inato que cada um tem de amar e de ser amado. 

Sob a perspectiva pessoal, constatamos que não somente procuramos enfrentar os problemas sociais, mas que existe também uma profunda ferida interior, que deve ser curada, no coração e na própria alma da família e da vida familiar. Na presença de Jesus Cristo ao nosso lado no seio da Igreja, que nos fala através da Palavra e habita em nós na Eucaristia, podemos voltar a descobrir aquela presença que cura as chagas da ausência. Aprendermos a discernir a sua presença e estarmos sempre presentes para Ele abre-nos, por sua vez, à presença do próximo. Hoje vivemos uma crise que deriva da constatação de que, embora desejemos a presença de uma outra pessoa com a qual poder compartilhar a vida e nós mesmos, encontramos ao contrário a ausência. A ausência mais óbvia é aquela física, das pessoas entre si mesmas. O trabalho constitui uma parte integrante da vocação humana, mas pode tornar-se uma saída das dificuldades, muitas vezes árduas, de construir relacionamentos. O trabalho deveria permanecer ao serviço da vida familiar, e não em seu detrimento. Infelizmente, no mundo muitas famílias são separadas devido a circunstâncias que estão fora do seu controle, como a guerra e o terrorismo, que as impelem a fugir das suas habitações, ou então a pobreza, que as coloca em condições de aceitar qualquer tipo de trabalho, onde quer que se encontrem, contanto que possam sobreviver. Somos chamados a rezar e a trabalhar por uma sociedade mais justa, por uma sociedade que, até em épocas de crise, dê prioridade à família e à sua necessidade de unidade. Entre aqueles que as circunstâncias da vida tornam livres de escolher como transcorrer o próprio tempo existe uma ausência talvez ainda mais dolorosa, porque deriva de uma escolha. A ilusão de que possuir ou experimentar em maior medida possa preencher o vazio interior impele as pessoas a procurar bens, experiências ou prazeres. Estas buscas, por si só, não têm a capacidade de realizar os desejos mais profundos do coração humano. De maneira particular nas sociedades opulentas, existem muitas pessoas que procuram possuir e fazer cada vez mais, unicamente para se descobrir sempre mais insatisfeitas. Certa vez, passando diante de uma casa maravilhosa, com jardins verdejantes, fiz a uma minha amiga alguns comentários a tal propósito. «Eu conheço a proprietária – respondeu-me ela com olhos repletos de tristeza – que a cederia de bom grado para poder voltar a ter o seu marido e a família que ela esperava fazer crescer ali». Quando nos afastamos das pessoas mais próximas, daquelas cujo amor constitui uma riqueza autêntica, o sentido de isolamento pode tornar o vazio oprimente. O problema da ausência não é somente físico, mas também espiritual. Embora vivamos com alguém, podemos permanecer fechados à dádiva da outra pessoa. No drama de Karol Wojtyła, Raios de paternidade, Adam, o protagonista central, encontra-se no meio de uma multidão de trabalhadores no final de um dia cheio de dificuldades. Encontra-se no meio de muitas pessoas, mas sente-se completamente sozinho. Rejeitou tanto a paternidade de Deus, como a sua própria, considerando tais relações um peso para a sua liberdade pessoal. Experimenta um despertar, quando se dá conta de que, a partir do interior da sua família, foi ele mesmo que escolheu o seu isolamento, e que não está tanto sozinho quanto fechado. Foi o seu medo de se confiar a uma outra pessoa e de aceitar a responsabilidade por outra pessoa a origem da sua escolha de permanecer ausente em relação à comunidade. Assim, dá-se conta de que pode preferir apostar no amor, permitir-se a si mesmo de ser o «meu» de alguém e aceitar que alguém seja «meu». Recentemente, fiz uma pausa para comer com uma amiga num restaurante deveras lotado, na hora do almoço. A todas as mesas havia pessoas sentadas juntas; estavam em presença umas das outras, mas sem pronunciar nem sequer uma palavra. Todas controlavam as suas mensagens nos seus telemóveis ou no correio electrónico, ou ainda navegavam na rede. Tratava-se de uma imagem de «ausência real», ou seja, de incapacidade de estarem atentas ao dom do outro. Ela isola a pessoa, deixando-a sozinha na prisão do individualismo. No ícone da Trindade, de Andrej Rublëv, vemos o exacto contrário desta ausência real. As três pessoas divinas estão sentadas à mesa, enquanto fitam umas no rosto dos outros. As cabeças inclinadas do Filho e do Espírito Santo, que se encontram voltadas para o Pai, exprimem uma reverência atenta em relação àquele que é como eles, mas também pessoalmente Único. A sua abertura recíproca não os encerra em si mesmos. Pelo contrário, abre-os a uma comunhão compartilhada com quantos admiram esta imagem. O quarto lugar à mesa situa-se do lado do espectador, que está convidado não apenas a compartilhar a refeição, mas inclusive a entrar de maneira mais íntima na presença das três figuras, e a participar na alegria da sua comunhão de vida. É possível descobrir de novo o dom da presença real em família, mas é necessário um modo de pensar e de agir intencional e contracultural. A presença pressupõe a escolha de permanecer com o outro. Esta escolha é, por si só, uma afirmação do outro. A opção de estar com uma pessoa significa: «És digno do meu tempo. Permanecer contigo é bonito, porque és belo!». No entanto, mais em profundidade, a escolha de prestar atenção ao outro, enquanto estamos juntos, exprime um amor preferencial. Ou seja: «Tu és a pessoa mais importante para mim neste momento. Tu és mais relevante do que este negócio, do que este telefonema, do que este e-mail». A sucessão de muitos destes momentos, com o passar do tempo, torna-se para a pessoa uma garantia de amor, a base de um profundo vínculo de comunhão. Depois desta escolha que exprime uma preferência pela outra pessoa, a presença è sucessivamente mediada pelo olhar. Quando Deus criou o mundo, o seu olhar reflectiu o mundo e comunicou a bondade de tudo aquilo que Ele tinha criado. Depois de ter feito a pessoa humana, homem e mulher à imagem divina, o olhar de Deus sugeriu a afirmação de que eles eram algo bom. O primeiro olhar que Adão e Eva trocaram entre si estava repleto de maravilha e de admiração, um olhar que rejubilava ao ver o outro com quem poder compartilhar a própria vida num encontro plenamente pessoal. Hans Urs von Balthasar escreve com frequência a propósito do olhar da mãe que comunica ao filho a bondade da sua pessoa, despertando a criança para a realidade de ser amada. Na família, cada pessoa é convidada a fixar o olhar sobre o outro, a transmitir com um olhar de admiração e de carinho a beleza que se admira no próximo. Isto é fundamental, a fim de que um esteja presente para o outro. Além da visão, a presença confia-se à audição, e mais do que à audição, à escuta. A iconografia tradicional reflecte a importância de ver e de sentir. As pessoas representadas nos ícones têm olhos e orelhas grandes, mas em geral a sua boca é pequena. Esta representação constitui uma instrução para a oração atenta. Ou seja, convida quantos rezam a olhar e a ouvir, mas a falar pouco. Esta atitude é sem dúvida fundamental para a oração, mas é-o inclusive para uma presença atenta em relação ao próximo. As pessoas que vivem nas cidades populosas são muitas vezes as mais sozinhas. Circundadas por tantos cidadãos, na realidade não se encontram na presença atenta de ninguém. Isto pode facilmente acontecer até mesmo em família. O activismo da vida moderna pode absorver em tal medida o nosso tempo e a nossa atenção, que chegamos a reservá-los muito pouco às pessoas de casa. A presença contínua do barulho e a superabundância de palavras podem tornar-nos surdos à voz dos outros. Corremos o perigo de nos tornarmos estranhos que vivem numa mesma casa. Olhar e ouvir constituem os primeiros elementos da hospitalidade, do acolhimento e da dádiva da presença real. A verdade desta dinâmica é evidente na visita de Jesus à casa de Marta e Maria, em Betânia, do modo como é descrita no Evangelho de Lucas. Marta trabalha diligentemente para demonstrar a sua hospitalidade em relação a Jesus. Prepara um almoço que poderia oferecer uma oportunidade de comunhão da mente e do coração, mas prepara-o com grande distracção do espírito. O problema não é o seu gesto, mas acima de tudo o seu espírito de activismo. Concentrando-se demais no trabalho que levava a cabo, perdeu de vista a relação, que constitui o motivo do seu trabalho. Maria, por sua vez, compreende o primado do relacionamento com o hóspede. Está consciente de que olhar e ouvir são gestos necessários, se quiser estar presente diante de Jesus. Nisto consiste a primeira hospitalidade, o dom de atenção amorosa em relação ao próximo. Esta atenção cheia de amor pode levar à acção. A vida familiar está repleta de gestos de serviço, mas a fim de que tais acções comuniquem o amor que lhes dá origem, é necessário primeiro estarmos presentes uns aos outros. A presença revela o amor, e a presença duradoura revela o amor imutável. Foi isto que nos ensinou Jesus Cristo, mediante os dons da Eucaristia e do Espírito Santo. Antes de voltar para o Pai, Ele assegurou aos seus discípulos: «Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Aqui subsiste o desejo de Deus de permanecer ao nosso lado, expresso da maneira mais completa mediante a sua Encarnação, a sua vinda ao meio de nós como um de nós. Nele e na sua fidelidade encontra-se o primeiro e o mais profundo remédio para a ausência real. Ele está deveras presente, infinitamente atento, enquanto escolhe sem cessar de estar ao nosso lado e em nós. E nunca se encontra atarefado demais para nos ouvir, para sentir os desejos do nosso coração, que somente Ele pode realizar. Jesus encontra-nos nos acontecimentos comuns da nossa vida quotidiana, do mesmo modo como encontra a mulher de Samaria, sentada ao lado do poço, reconhecendo a nossa sede de amor e oferecendo-se para a saciar. Ele oferece-nos, como fez em relação a ela, o dom da água viva que jorra a partir de dentro. E ensina-nos a prestar-lhe culto em Espírito e em verdade, a reconhecer que cada momento pode ser um ponto de encontro com Aquele que tem sede do nosso amor, do mesmo modo como nós temos sede do seu. Ele manda-nos a compartilhar com as pessoas que amamos o convite a encontrá-lo. E torna-nos testemunhas do poder de salvação da sua presença. Jesus encontra-nos do mesmo modo como encontrou os discípulos desanimados ao longo do caminho de Emaús. E empreende connosco um diálogo, profundamente interessado nas nossas expectativas e nos nossos sonhos, nas nossas decepções e nas nossas dúvidas. Além disso, participa no nosso desprazer e, mediante a sua palavra, lança luz sobre as nossas interrogações. E caminha ao nosso lado pelas veredas que nós percorremos, sentando-se à mesa connosco e fazendo-se reconhecer através da fracção do pão. Na sua presença aprendemos a ser amados. Este amor, incondicional e incessante, instila-nos a paz para acolher os outros, a liberdade interior para escolher estar presente para eles, um olhar renovado para os contemplar de maneira amorosa e a paciência para os ouvir com um coração afável. Hoje, o esforço de estarmos presentes uns aos outros constitui um desafio mais exigente do que nunca. Abundam as oportunidades de participar em eventos e actividades, de aceder a informações do mundo inteiro e no entretenimento sob demanda. Por mais que estas oportunidades possam ser fortificantes, uma gama de possibilidades tão vasta pode criar a ilusão de um tempo ilimitado e de um compromisso infinito. Podemos esquecer-nos dos limites da nossa humanidade. Sim, podemos contar com centenas de «amigos» através das redes sociais, mas no final somente conseguimos conhecer de maneira profunda poucas pessoas. Ao perseguirmos esta multiplicidade de vínculos superficiais, corremos o risco de nunca manter relacionamentos profundos. Às vezes despertamos para a necessidade de resistir de maneira consciente à superficialidade que nos mantém à tona na vida. Podemos também ser vítimas das publicidades do consumismo, que prometem gratificações instantâneas dos nossos sentidos e das nossas emoções. Se pararmos para meditar sobre as nossas experiências, descobriremos que para nos conhecermos em profundidade a nós próprios e o próximo, é preciso que sejamos pacientes para crescer no conhecimento e no amor ao longo do tempo. A nova descoberta da riqueza do amor, que a família possui em comunhão, pressupõe um renovado compromisso em prol da presença real. Convida a escolher transcorrer o próprio tempo com o próximo. Exorta cada um a estar atento, a ouvir e a rejubilar no outro, cuja diferença constitui um enriquecimento e não uma ameaça. Na presença do Santíssimo Sacramento, encontramo-nos sentados aos pés do Mestre que pode ajudar-nos a aprender como permanecer firmes na presença do próximo e, por conseguinte, como estar atentos à beleza de cada pessoa diferente de nós. Descobrimos em Cristo, que se nos torna presente na Eucaristia, e dentro de nós através do seu Espírito Santo que habita em nós, a verdade de que o amor é a presença permanente. Na sua doutrina social, a Igreja afirma reiteradamente que a sociedade somente é forte na medida em que o for também a família. A família é vigorosa unicamente na medida em que o for inclusive o amor, que vincula cada um aos outros. O amor no seio da família só é forte na medida em que o for também o nosso compromisso a estar realmente presentes e, de tal modo, de nos amarmos uns aos outros, como fomos amados primeiro.

a autora

Mary Madeline Todd é uma religiosa dominicana da Congregação de Santa Cecília em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos da América. Depois de ter alcançado a licenciatura em literatura, obteve o doutoramento em sagrada teologia na Pontifícia Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Entre as suas publicações, citamos as seguintes: «Two Women and the Lord; the Prophetic Vocation of Women in the Church and the World», em «Promise and Challenge» (editado por Mary Rice Hasson, Huntington, «Our Sunday Visitor», 2015). Actualmente é professora assistente de teologia no Aquinas College de Nashville.

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18 de Agosto de 2019

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