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Cristo é o caminho justo para ser homens

· Celebração eucarística no Domingo de Ramos e Paixão do Senhor na Praça de São Pedro ·

Ser cristãos é a via que conduz ao «caminho justo», aquele mostrado por Jesus. Caminhar com Ele significa também caminhar com aqueles que o querem seguir e formam a sua comunidade, disse Bento XVI durante a celebração eucarística do Domingo de Ramos, realizada na Praça de São Pedro, no dia 28 de Março.

Amados irmãos e irmãs

Queridos jovens!

O Evangelho da bênção dos ramos, que ouvimos aqui reunidos na Praça de São Pedro, começa com a frase: «Jesus seguiu para diante, em direcção a Jerusalém» (Lc 19, 28). Logo no início da liturgia deste dia, a Igreja antecipa a sua resposta ao Evangelho, dizendo: «Sigamos o Senhor». Com isto o tema do Domingo de Ramos é claramente expresso. É o seguimento. Ser cristãos significa considerar o caminho de Jesus Cristo como o caminho justo para o ser homens – como aquele caminho que conduz à meta, a uma humanidade plenamente realizada e autêntica. De modo particular, gostaria de repetir a todos os jovens e moças, nesta XXV Jornada Mundial da Juventude, que ser cristãos é um caminho, ou melhor: uma peregrinação, um ir juntamente com Jesus Cristo. Um ir naquela direcção que Ele nos indicou e nos indica.

Mas de qual direcção se trata? Como se encontra? A frase do nosso Evangelho oferece duas indicações a este propósito. Em primeiro lugar diz que se trata de uma subida. Isto tem antes de tudo um significado muito concreto. Jericó, onde teve início a última parte da peregrinação de Jesus, encontra-se a 250 metros sob o nível do mar, enquanto que Jerusalém – a meta do caminho – está a 740-780 metros acima do nível do mar: uma subida de quase mil metros. Mas este caminho exterior é sobretudo uma imagem do movimento interior da existência, que se realiza no seguimento de Cristo: é uma subida à verdadeira altura do ser homens. O homem pode escolher um caminho confortável e afastar qualquer fadiga. Pode também orientar-se para baixo, para o vulgar. Pode precipitar no pântano da mentira e da desonestidade. Jesus caminha diante de nós, e vai para o alto. Ele conduz-nos para o que é grande, puro, conduz-nos para o ar saudável das alturas: para a vida segundo a verdade; para a coragem que não se deixa atemorizar pelas tagarelices das opiniões dominantes; para a paciência que suporta e apoia o outro. Ele conduz para a disponibilidade em relação aos sofredores, aos abandonados; para a fidelidade que está da parte do outro também quando a situação se torna difícil. Conduz para a disponibilidade a dar ajuda; para a bondade que não se deixa desarmar nem sequer pela ingratidão. Ele conduz-nos para o amor – conduz-nos para Deus.

«Jesus seguiu em diante, em direcção a Jerusalém». Se lermos esta palavra do Evangelho no contexto do caminho de Jesus no seu conjunto – um caminho que, precisamente, prossegue até ao fim dos tempos – podemos descobrir na indicação da meta «Jerusalém» diversos níveis. Antes de tudo deve entender-se naturalmente só o lugar «Jerusalém»: é a cidade na qual se encontrava o Templo de Deus, cuja unicidade devia aludir à unicidade do próprio Deus. Portanto, este lugar anuncia antes de tudo duas coisas: por um lado diz que Deus é um só em todo o mundo, supera imensamente todos os nossos lugares e tempos; é aquele Deus ao qual pertence toda a criação. É o Deus do qual todos os homens no mais profundo andam à procura e do qual de certa forma todos têm também conhecimento. Mas este Deus deu-se um nome. Deu-se a conhecer a nós, deu início a uma história com os homens; escolheu um homem – Abraão – como ponto de partida desta história. O Deus infinito é ao mesmo tempo o Deus próximo. Ele, que não pode ser encerrado em edifício algum, deseja contudo habitar entre nós, estar totalmente connosco.

Se Jesus juntamente com Israel peregrinante sobe a Jerusalém, é para celebrar com Israel a Páscoa: o memorial da libertação de Israel – memorial que, ao mesmo tempo, é sempre esperança da liberdade definitiva, que Deus doará. E Jesus caminha para esta festa consciente de ser Ele mesmo o Cordeiro no qual se cumprirá o que o Livro do Êxodo diz a este propósito: um cordeiro sem mancha, varão, que é imolado ao pôr do sol, diante dos olhos dos filhos de Israel «como rito perene» (cf. Êx 12, 5-6.14). E por fim Jesus sabe que a sua vida irá além: não terá na cruz o seu fim. Sabe que a sua vida arrancará o véu entre este mundo e o mundo de Deus; que Ele subirá ao trono de Deus e reconciliará Deus e o homem no seu corpo. Sabe que o seu corpo ressuscitado será o novo sacrifício e o novo Templo; que em volta d'Ele, da multidão dos Anjos e dos Santos, se formará a nova Jerusalém que está no céu e contudo já está também na terra, porque na sua paixão Ele abriu o confim entre céu e terra. O seu caminho conduz para além do cume do monte do Templo até à altura do próprio Deus: é esta a grande subida à qual Ele convida todos nós. Ele permanece sempre connosco na terra e está sempre junto de Deus, Ele guia-nos na terra e para além dela.

Assim, na amplitude da subida de Jesus tornam-se visíveis as dimensões do nosso seguimento – a meta para a qual Ele nos quer conduzir: até às alturas de Deus, à comunhão com Deus, ao ser-com-Deus. É esta a verdadeira meta, e a comunhão com Ele é o caminho. A comunhão com Ele é um estar a caminho, uma subida permanente rumo à verdadeira altura da nossa chamada. Caminhar juntamente com Jesus é ao mesmo tempo um caminhar sempre no «nós» daqueles que desejam segui-l'O. Introduz-nos nesta comunidade. Dado que o caminho até à vida verdadeira, até um ser homens conformes com o modelo do Filho de Deus, Jesus Cristo, supera as nossas próprias forças, este caminhar é sempre também um ser guiados. Encontramo-nos, por assim dizer, num grupo com Jesus Cristo – juntamente com Ele na subida rumo às alturas de Deus. Ele atrai-nos e ampara-nos. Faz parte do seguimento de Cristo que nos deixemos integrar neste grupo; que aceitemos que sozinhos não o conseguimos. Faz parte dele este acto de humildade, o entrar no «nós» da Igreja; o unir-se ao seu grupo, a responsabilidade da comunhão – não romper a corda com a teimosia e o pedantismo. O crer humilde com a Igreja, como o estar atados ao grupo da subida para Deus, é uma condição essencial do seguimento. Deste estar no conjunto do grupo faz parte também o não se comportar como donos da Palavra de Deus, não correr atrás de uma ideia errada de emancipação. A humildade do «estar-com» é essencial para a subida. Também faz parte dela que nos Sacramentos nos deixemos sempre guiar de novo pela mão do Senhor; que nos deixemos purificar e corroborar por Ele; que aceitemos a disciplina da subida, até se estivermos cansados.

Por fim, devemos dizer ainda: a Cruz faz parte da subida para a altura de Jesus Cristo, da subida até à altura de Deus. Como nas vicissitudes deste mundo não se podem alcançar grandes resultados sem renúncia e exercitação árdua, assim como a alegria por uma grande descoberta cognoscitiva ou por uma verdadeira capacidade concreta está relacionada com a disciplina, aliás ligada à fadiga da aprendizagem, também o caminho para a própria vida, rumo à realização da própria humanidade está ligada à comunhão com Aquele que subiu à altura de Deus através da Cruz. Em última análise, a Cruz é expressão daquilo que o amor significa: só quem se perde a si mesmo, se encontra.

Resumindo: o seguimento de Cristo exige como primeiro passo o despertar da nostalgia pelo autêntico ser homens e assim despertar para Deus. Exige depois que se entre no grupo de quantos sobem, na comunhão da Igreja. No «nós» da Igreja entramos em comunhão com o «Tu» de Jesus Cristo e assim alcancemos o caminho para Deus. Além disso, é exigido que se ouça a Palavra de Jesus Cristo e que a vivamos: em fé, esperança e amor. Assim estamos a caminho rumo à Jerusalém definitiva e já desde agora, de algum modo, nos encontramos lá, na comunhão de todos os Santos de Deus.

A nossa peregrinação no seguimento de Cristo não vai em direcção a uma cidade terrena, mas à nova Cidade de Deus que cresce no meio deste mundo. A peregrinação para Jerusalém terrestre, contudo, pode ser precisamente também para nós cristãos um elemento útil para esta viagem maior. Eu próprio relacionei a minha peregrinação na Terra Santa do ano passado com três significados. Antes de tudo, tinha pensado que nos pode acontecer em tal ocasião o que São João diz no início da sua Primeira Carta: o que ouvimos, podemos de certo modo vê-lo e tocá-lo com as nossas mãos (cf. Jo 1, 1). A fé em Jesus Cristo não é uma invenção legendária. Ela funda-se numa história que aconteceu realmente. Por assim dizer, nós podemos contemplar e tocar esta história. É comovedor encontrar-se em Nazaré no lugar onde o Anjo apareceu a Maria e lhe transmitiu a tarefa de se tornar a Mãe do Redentor. É comovedor ir a Belém ao lugar onde o Verbo, que se fez carne, veio habitar entre nós; pôr os pés no terreno sagrado no qual Deus quis fazer-se homem e menino. É comovedor subir a escada para o Calvário até ao lugar no qual Jesus morreu por nós na Cruz. E por fim, estar diante do sepulcro vazio; rezar onde os seus despojos santos repousaram e onde no terceiro dia se verificou a ressurreição. Seguir os caminhos exteriores de Jesus deve ajudar-nos a caminhar mais jubilosamente e com uma nova certeza pelo caminho interior que Ele nos indicou e que é Ele mesmo.

Quando vamos à Terra Santa como peregrinos, também vamos lá – e este é o segundo aspecto – como mensageiros da paz, com a oração pela paz; com o convite a todos para fazer naquele lugar, que tem no nome a palavra «paz», o possível para que ele se torne deveras um lugar de paz. Assim, esta peregrinação é ao mesmo tempo – como terceiro aspecto – um encorajamento para os cristãos a permanecer no país das suas origens e a comprometer-se intensamente nela pela paz.

Voltemos mais uma vez à liturgia do Domingo de Ramos. Na oração com a qual são abençoad0s os ramos de palmeira nós rezamos para que na comunhão com Cristo possamos dar o fruto de boas obras. De uma interpretação errada de São Paulo, desenvolveu-se repetidamente, durante a história e também hoje, a opinião de que as boas obras não fariam parte do ser cristãos, contudo seriam insignificantes para a salvação do homem. Mas se Paulo diz que as obras não podem justificar o homem, com isto não se opõe à importância do agir recto e, se ele fala do fim da Lei, não declara superados e irrelevantes os Dez Mandamentos. Não há necessidade agora de reflectir sobre a amplitude da questão que interessava ao Apóstolo. É importante realçar que com a palavra «Lei» ele não indica os Dez Mandamentos, mas o estilo de vida complexo mediante o qual Israel se devia proteger contra as tentações do paganismo. Mas agora Cristo trouxe Deus aos pagãos. A eles não é imposta esta forma de distinção. É-lhes dado como Lei unicamente Cristo. Mas isto significa o amor a Deus e ao próximo e tudo o que dele faz parte. Fazem parte deste amor os mandamentos lidos de modo novo e mais profundo a partir de Cristo, aqueles mandamentos que mais não são do que regras fundamentais do verdadeiro amor: antes de tudo e como princípio fundamental a adoração de Deus, a primazia de Deus, que os primeiros três Mandamentos expressam. Eles dizem-nos: sem Deus nada tem o êxito justo. Quem e como é este Deus sabemo-lo a partir da pessoa de Jesus Cristo. Seguem depois a santidade da família (quarto Mandamento), a santidade da vida (quinto Mandamento), o ordenamento do matrimónio (sexto Mandamento), o ordenamento social (sétimo Mandamento) e por fim a inviolabilidade da verdade (oitavo Mandamento). Tudo isto é hoje da máxima actualidade e precisamente também no sentido de São Paulo – se lermos totalmente as suas Cartas. «Dar fruto com as boas obras»: no início da Semana Santa peçamos ao Senhor que conceda cada vez mais a todos nós este fruto.

No final do Evangelho para a bênção dos ramos ouvimos a aclamação com que os peregrinos saúdam Jesus às portas de Jerusalém. É a palavra do Salmo 118 (117), que originariamente os sacerdotes da Cidade Santa proclamavam aos peregrinos, mas que, entretanto, se tinha tornado expressão da esperança messiânica: «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor» (Sl 118[117], 26; Lc 19, 38). Os peregrinos vêem em Jesus o Esperado, que vem em nome do Senhor, aliás, segundo o Evangelho de São Lucas, inserem mais uma palavra: «Bendito seja Aquele que vem, o rei, em nome do Senhor». E prosseguem com uma aclamação que recorda a mensagem dos Anjos no Natal, mas modificam-na de modo que faz reflectir. Os Anjos tinham falado da glória de Deus no mais alto dos céus e da paz na terra para os homens de boa vontade. Os peregrinos na entrada da Cidade Santa dizem: «Paz no céu e glória nas alturas!». Sabem muito bem que na terra não há paz. E sabem que o lugar da paz é o céu – sabem que faz parte da essência do céu ser lugar de paz. Assim esta aclamação é expressão de um sofrimento profundo e, ao mesmo tempo, é oração de esperança: Aquele que vem em nome do Senhor traga à terra o que está nos céus. A sua realeza torne-se a realeza de Deus, presença do céu na terra. A Igreja, antes da consagração eucarística, canta a palavra do Salmo com a qual Jesus é saudado antes da sua entrada na Cidade Santa: ela saúda Jesus como o Rei que, provindo de Deus, em nome de Deus entra no meio de nós. Também hoje esta jubilosa saudação é sempre súplica e esperança. Rezemos ao Senhor para que nos traga o céu: a glória de Deus e a paz dos homens. Entendemos esta saudação no espírito do pedido do Pai Nosso: «Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu!». Sabemos que o céu é céu, lugar da glória e da paz, porque ali reina totalmente a vontade de Deus. E sabemos que a terra não é céu enquanto nela não se realiza a vontade de Deus. Portanto, saudemos Jesus que vem do céu e peçamos-lhe que nos ajude a conhecer e a fazer a vontade de Deus. Que a realeza de Deus entre no mundo e assim ele seja repleto com o esplendor da paz. Amém.

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22 de Setembro de 2019

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