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A coragem de Maria Zhu-Wu

· A santa do mês narrada por Marc Lindeijer ·

Zhujiahe é uma pequena aldeia situada na vasta planície cinzenta da China setentrional, na fronteira entre as províncias de Zhili e Shandong. Traduzido, o nome significa «rio da família Zhu». Diversos membros daquela família converteram-se ao catolicismo durante o século XVIII, quando os jesuítas de Pequim chegaram à província de Zhili. No início do século XIX a família Zhu estabeleceu-se nas proximidades do rio, dando-lhe o seu nome. Em 1990 a aldeia tinha cerca de 300 habitantes, que viviam em pequenas casas baixinhas de barro, aninhadas entre vastas extensões irregulares de sorgo e dominadas por uma igreja simples, com o telhado plano e uma outra fachada; do topo da mesma, a cruz dominava sobre o campo.

O pastor da comunidade católica de Zhujiahe era o jesuíta francês Léon-Ignace Mangin, de quarenta e dois anos e missionário na China desde 1882. Na aldeia era assistido por um sábio de meia-idade, Zhu Dianxuan, hábil administrador e muito experiente também na arte da guerra. A sua esposa de cinquenta anos, Maria Zhu-Wu, era muito estimada pelos habitantes da aldeia: uma mulher gentil de grande fé, no seu serviço a Deus dava prioridade à assistência aos pobres. Sem nunca procurar a fama nem a glória, estas três pessoas encontraram-se no meio do massacre de cristãos mais violento que se verificou durante a revolta dos boxers.

Não é necessário explicar aqui a história da revolta, nem as maquinações políticas e a guerra que a tinham desencadeado. Para os habitantes de Zhujiahe tinham pouca importância quando, no Verão de 1900, acolheram milhares de refugiados católicos das aldeias vizinhas. Isso tinha levado a população a chegar a 3000 habitantes, ou seja, dez vezes mais dos habituais, quando a 17 de Julho foram atacados por 4500 homens bem armados, as forças conjuntas dos boxer e do exército imperial. Poucos dias antes, os habitantes da aldeia, protegidos pelas fortificações construídas por Zhu Dianxuan, não obstante tudo tinham conseguido defender-se dos ataques e até conquistar um canhão do inimigo. Padre Mangin e o seu irmão de hábito jesuíta Paul Denn, também ele refugiado em Zhujiahe, tinham celebrado a missa todas as manhãs e confessado ao longo do dia; à noite tinham-se alternado com guardas aos bastiões. No dia seguinte, Zhu Dianxuan, o único líder perito entre os mais de mil homens capazes de defender a aldeia, subiu nos bastiões para usar o canhão contra as forças inimigas. Mas naquela mesma noite, quando já mais de metade dos seus homens tinha morrido na batalha, o canhão explodiu no peito de Zhu Dianxuan. Mangin, que se encontrava ali perto, correu para junto do homem moribundo e deu-lhe a extrema unção. No terceiro dia, quando a situação já parecia sem esperança, alguns conseguiram fugir, deixando para trás quem era muito débil, especialmente mulheres e crianças.

Quando na madrugada de 20 de Julho os soldados se apoderaram da aldeia, as primeiras pessoas que mataram foram um grupo de virgens da paróquia e de catequistas. A mercê do pânico, oitenta e cinco mulheres e crianças fugiram rumo ao orfanato, onde saltaram no poço, morrendo afogadas ou sufocadas. Dizem que o seu pranto e os seus gritos se ouviram por dois dias.

A maioria dos habitantes da aldeia, cerca de mil, refugiou-se na igreja, assistida espiritualmente por dois sacerdotes jesuítas. Mangin e Denn, sob imensa pressão para celebrar uma última missa, sentaram-se nos degraus diante do altar, ouvindo as confissões, enquanto a maior parte das pessoas ficaram de joelhos em oração ou simplesmente à espera. Maria Zhu-Wu, presumivelmente em luto pelo marido, permaneceu calma, exortando todos a confiar em Deus e a rezar à Mãe celeste. Por volta das nove de manhã, os agressores arrombaram a porta e começaram a disparar em todas as direcções dentro da igreja, até quando se encheu de fumaça. O pânico difundiu-se e, entrementes, as pessoas eram assassinadas, mas os sacerdotes conseguiram uni-las em oração, recitando juntos o Confiteor e o acto de contrição, depois deram a absolvição geral enquanto as armas continuavam a disparar contra as pessoas.

Aqui Maria Zhu-Wu elevou-se a uma particular grandeza: levantou-se e pôs-se com os braços estendidos em frente do padre Mangin, usando o próprio corpo como escudo. Não muito tempo mais tarde, uma bala atingiu-a e ela caiu diante do balaústre do altar. Também Mangin, com o rosário numa mão e com o crucifixo na outra, foi em breve vítima dos homens armados. Depois os boxers aferrolharam a igreja e deram-lhe fogo. A maioria de quantos se tinham refugiado dentro dela morreram por causa da fumaça inalada, os últimos – entre eles Mangin e Denn – morreram queimados quando, por fim, o tecto da igreja desabou. Apenas 500 católicos conseguiram sobreviver ao massacre fugindo ou renegando a religião; poucos outros, principalmente mulheres, foram vendidos como escravos ou levados como prisioneiros para Pequim, onde provavelmente acabaram nalgum prostíbulo.

Mas Maria Zhu-Wu continua a viver em Zhujiahe, o rio da família Zhu, transformado num rio de sangue. Enquanto o seu marido tinha defendido a aldeia contra o inimigo estrangeiro, ela reforçou a fé e a coragem interior das pessoas, sacrificando até a própria vida para salvar o seu pastor. Em 1955 Pio XII proclamou-a beata, juntamente com os dois jesuítas e outros 53 mártires; todos foram canonizados em 2000 por João Paulo II.

Marc Lindeijer (Países Baixos, 1966) estudou história na universidade católica de Nijmegen. Entrou na Companhia de Jesus em 1994 e foi ordenado sacerdote em 2002. Desde 2009 trabalha na cúria geral dos jesuítas como assistente do postulador-geral.

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24 de Agosto de 2019

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