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Coração pulsante

· Uma psicóloga narra os seus vinte anos de trabalho com as religiosas em África ·

Durante vinte anos, de 1993 até 2013, trabalhei para diversas ong – organizações não governamentais que desempenham projectos de cooperação – como psicóloga e segui sobretudo projectos sociais de apoio a grupos vulneráveis como mulheres, menores e famílias com dificuldades. Nos últimos sete anos trabalhei directamente com diversas religiosas.

Já nos meus primeiros trabalhos, nos Camarões e na África central, tinha notado que nas aldeias mais remotas, no fim das piores pistas de terra, há sempre uma pequena missão, muitas vezes só duas ou três irmãs, um pátio limpo e florido, uma cafeteira no fogão e biscoitos saborosos. Naquela altura trabalhava com ongs leigas mas com frequência os nossos partners no terreno eram as congregações ou as dioceses, que podiam garantir a continuação do serviço no fim do projecto. Conhecem as famílias, acompanham as últimas novidades, muitas vezes têm uma impressionante memória histórica pois muitas missões têm cinquenta anos, ou mais.

A irmã Maria Antonietta Marchese

No Benim fui trabalhar para uma ong criada directamente pela comunidade das salesianas em Cotonou, composta por uma dezena de mulheres de diversa proveniência. Na ong trabalham duas ou três irmãs, as outras ocupam-se da escola e da paróquia, mas a responsável dos projectos é sempre a mesma já há quinze anos, a irmã Maria Antonietta Marchese, nascida em Turim em 1942, mandada para Cotonou com cinquenta e oito anos, de modo específico para ajudar as meninas trabalhadoras. Com este objectivo foram criadas actividades e projectos que, no momento da minha partida, assistiam mais de cinco mil meninas por ano e o projecto continua, sempre renovado pela sua energia inesgotável.

Em Cotonou, centro comercial do Benim, quase setenta por cento das crianças trabalha ou contribui de modo activo para a economia familiar. Rapazes e raparigas de treze ou catorze anos mantêm os irmãos mais pequenos ou um dos pais doente. A competição e o mercado ditam regras atrozes que não poupam nem sequer os mais pequenos e na missão foram acolhidas meninas a partir dos seis anos para tirá-las do trabalho doméstico ou ambulante. Muitas vezes as meninas são vítimas de maus tratos e abusos, e à dureza do trabalho acrescentam-se as humilhações e as violências. A associação criou oásis precisamente dentro do mercado para acolher e ajudar estas meninas e jovens e para as reconduzir a uma vida de estudo, educação e serenidade.

Este oásis chama-se Maison de l'Esperance e tornou-se um ponto de referência para as meninas e as raparigas, mas também para todos aqueles pais que enviam as moças para a cidade e ficam aliviados por saberem que frequentam, pelo menos durante uma parte do dia, actividades de escola e formação. Além dos serviços sociais, de saúde e psicológicos, na Maison fazem-se cursos de formação entre os quais teve muito sucesso o de cozinha e pastelaria. Dele nasceu um serviço de catering muito procurado: das festas na embaixada alemã à recepção das delegações das Nações Unidas, o serviço de cozinha tradicional italiana alcançou um óptimo nível e conseguiu obter o serviço de catering da Nunciatura durante a visita de Bento XVI em Novembro de 2011.

as jovens do curso de saboaria em Cotonou em 2013

Antes da partida do Papa, as jovens do catering obtiveram uma fotografia com ele. Esta experiência foi muito importante para a sua formação e ajudou-as a reforçar a sua identidade profissional e pessoal. No futuro algumas delas irão trabalhar para diversos restaurantes e levarão com elas a foto com o Papa como testemunho do que são capazes de fazer.

Foram obtidos óptimos resultados em saboaria-cosmética. Também aqui as moças fazem um curso de base de seis meses para depois se inserirem nos laboratórios locais. Algumas delas depois decidem tornar-se empresárias e começam a produzir e a comerciar por conta própria. Virginie, por exemplo, decidiu trabalhar sozinha depois da terrível experiência de vendedora com uma comerciante que todos os dias a insultava e tratava mal. Além das técnicas de produção deve aprender a gerir as compras e as vendas, como poupar, como comprar as matérias primas. Os assistentes sociais da Maison ajudaram-na a criar a sua pequena empresa e em seis meses Virginie conseguiu tornar-se autónoma, começando a ter lucro com a sua actividade.

Outras moças, depois da formação, voltam para o mercado a vender, mas também naquele caso há um amadurecimento e uma tomada de consciência. As moças sabem que têm direitos e, em caso de dificuldade, podem apelar-se aos assistentes sociais para partilhar os seus problemas e procurar soluções. A Maison não foi criada para três ou cinco anos, mas para durar no tempo e acompanhar as jovens. Hoje com a cozinha e a cosmética, amanhã talvez com a informática e as línguas.

Claro que os financiadores são indispensáveis, que por vezes chegam de modo inesperado, como por exemplo para a formação cosmética. O fundador da sociedade Naturaequa, Luigi Barbieri, começou a comprar os sabões da Maison já em 2010 graças à amizade com a responsável italiana da formação, Elena Melani. A qualidade do produto tinha-o convencido imediatamente mas a manufactura era um pouco grosseira e com o tempo iniciou a dar sugestões para melhorar os processos e o uso das matérias primas. Luigi e Elena deste modo elaboraram diversas melhorias, do produto e da confecção, e isto permitiu que as jovens em formação se adequassem a standards mais altos de produção e, por conseguinte, criassem novos produtos de qualidade sempre maior. Iniciativas como esta criam e encorajam redes de apoio entre o norte e o sul e permitem criar business e solidariedade, fazendo conhecer estas realidades a um público mais amplo.

A mesma colaboração virtuosa encontra-se na formação em costura, que iniciou em 2003 graças à generosidade de um industrial têxtil. Este atelier oferece formação e trabalho a muitas jovens, que depois podem continuar a trabalhar em casa ou em outros laboratórios. Os grupos de apoio da Itália colaboraram enviando modelos e propostas e comprando depois a produção para a revender nos mercados natalícios. Em sete anos vi as jovens do atelier crescer e algumas delas tornaram-se mães e, em poucos anos, as crianças eram tantas que foi criada uma pequena creche na empresa. Esta creche contribui também para formar puericultoras graças aos programas elaborados por algumas professoras que vieram de visita. O percurso profissional foi sempre acompanhado por um caminho de escuta da comunidade, que permanece nos anos uma referência importante para as moças, as famílias e todos os que vêm bater à porta.

No longínquo Benim a irmã Maria Antonietta, mulher corajosa e inspirada, continua a ser o coração pulsante de uma grande rede de pessoas que veem nela, todos os dias, a realização de um ideal cristão de hospitalidade e humanidade.

Alessandra Ferri

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24 de Outubro de 2019

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