Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

A contribuição da Igreja de Cabo Verde para a evangelização

· Em diálogo com Arlindo Gomes Furtado, primeiro cardeal cabo-verdiano ·

Cabo Verde desde sempre encruzilhada de povos e culturas, foi também o epicentro estratégico por excelência para a difusão do catolicismo na África e não só. De facto, a primeira diocese da África Subsariana é a da Ribeira Grande, fundada em 1533, na ilha de Santiago — sede da actual capital, Praia — com competência para toda a costa ocidental africana. Ribeira Grande, mais conhecida como Cidade Velha, é considerada o berço da Nação cabo-verdiana e, em 2009, foi reconhecida como património mundial pela UNESCO. Ali se encontra também a mais antiga igreja colonial do mundo: Igreja de Nossa Senhora do Rosário, erigida em 1495 em estilo manuelino e, provavelmente, foi precisamente à sombra da Igreja que o cabo-verdiano encontrou o seu primeiro espaço de liberdade. O reconhecimento da contribuição da Igreja de Cabo Verde para a evangelização é um dos temas destacados pelo primeiro cardeal da história de Cabo Verde, Arlindo Gomes Furtado, criado no Consistório de 14 de Fevereiro, nesta sua primeira entrevista concedida a «L'Osservatore Romano».

Eminência, qual é o significado de uma nomeação tão inesperada para Cabo Verde?

A notícia apanhou-nos a todos de surpresa, mas o povo exultou de alegria quer em Cabo Verde quer na Diáspora, porque esta nomeação representa o reconhecimento da história e do papel da Igreja em Cabo Verde, por ser a mais antiga diocese e pela responsabilidade que teve na evangelização da costa ocidental da África. Relativamente à minha pessoa, a partir de uma certa altura abandonei a incredulidade e a inquietude iniciais, entreguei tudo nas mãos de Jesus Cristo, ganhando uma grande serenidade. Nós estamos ao serviço da Igreja e, se o Papa achou por bem que eu pudesse dar o meu contributo, aqui estou eu. Nos desafios que tive de enfrentar na vida Cristo sempre me acompanhou, guiou e iluminou, continuando a tomar conta de quem, como eu, lhe pertence.

Quais são os maiores desafios que a comunidade católica em Cabo Verde tem de enfrentar?

O primeiro desafio para qualquer Igreja em qualquer altura é o problema da evangelização, porque é um processo nunca completamente terminado, especialmente agora que nos deparamos com uma invasão muito grande das seitas com propostas à primeira vista muito facilitadoras e cativantes. Trata-se de um grande desafio não só para o meu país, mas para a Igreja em qualquer parte do mundo globalizado. Aliás, todas essas seitas falam de Deus, confundindo os fiéis, os quais, impulsionados pela necessidade de vida espiritual, que muitas vezes é acompanhada por uma certa superficialidade a nível de compromisso na fé, passam com demasiada facilidade de um grupo religioso para outro. A evangelização deve incentivar as pessoas a comprometer-se pessoalmente com Jesus Cristo na sua Igreja e, ao mesmo tempo, convencê-las a assumir, como disse o Papa, a sua missão de discípulos missionários. Não se trata apenas de viver a própria fé, mas de fazer com que ela chegue a quem ainda não encontrou Jesus.

O fenómeno da secularização afecta todas as sociedades africanas, também o seu país não estará imune. Pode fazer-nos uma avaliação?

Ficamos muito surpreendidos com os mais recentes dados demográficos. Com efeito, das estatísticas do Censo de 2010, ficamos a saber que cerca de 10% dos cabo-verdianos se declara sem religião. Evidentemente, a rapidez com que a secularização avança também no nosso país está a ter grande repercussões. Penso que uma forma eficaz para limitar o fenómeno seja estar presente com a nossa pastoral no mundo universitário, das comunicações sociais e, em geral, da cultura, de modo a proporcionar mais oportunidades às pessoas para que possam compreender melhor quem é Jesus Cristo e sua proposta de vida.

Em que medida ter um cardeal cabo-verdiano poderá impelir a uma mais ampla adesão à Igreja Católica?

Eu vi despertar em Cabo Verde uma grande euforia, mesmo em pessoas que não têm muita ligação com a Igreja Católica. Este evento histórico suscitou uma mais profunda consciencialização das nossas raízes, portanto, da nossa matriz católica. Além disso, o cabo-verdiano, mesmo se pertence a outras confissões religiosas, está ciente de que a Igreja e a fé católica moldaram o nosso espírito de nação, a nossa identidade como povo, a nossa cultura; estou convencido de que isso terá um impacto positivo e nós religiosos devemos fazer de tudo para que a Igreja se apresente como uma comunidade aberta e acolhedora.

No que diz respeito ao Ano da vida consagrada, como se está a organizar a Igreja em Cabo Verde?

Os consagrados sempre desempenharam um papel significativo na história da evangelização do meu país, onde durante séculos os missionários foram decisivos para a edificação da Igreja, especialmente após a supressão do Seminário-Liceu de São Nicolau por parte da Primeira República portuguesa.

Nós bispos cabo-verdianos não pudemos participar na abertura oficial do Ano da Vida Consagrada, que ocorreu durante o primeiro domingo do Advento, porque estávamos ao mesmo tempo reunidos no Senegal com os outros membros da Conferência da Mauritânia, Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau. Contudo, logo depois elaboramos juntos um programa de actividades a serem realizadas ao longo do ano que, certamente, constituirão momentos de testemunho de unidade, sobretudo para reforçar a qualidade do nosso relacionamento com Deus. Deste modo, será possível despertar não só mais vocações para a vida consagrada, mas também para a vida familiar, que é o contexto privilegiado para as vocações.

Existe uma crise de vocações em Cabo Verde?

Actualmente as vocações sacerdotais, bem como o número de diocesanos estão a crescer. Nos últimos anos houve uma diminuição das vocações femininas, relativamente às masculinas, pela primeira vez a Diocese de Santiago tem agora dezanove estudantes no seminário maior e a Diocese de Mindelo tem sete, além de alguns estagiários. Portanto, em termos vocacionais no que diz respeito aos sacerdotes diocesanos estamos no melhor momento de sempre nessa fase; o que não quer dizer que devemos negligenciar a promoção das vocações para o futuro.

De que maneira a Igreja contribui para limitar a difusão da violência e da criminalidade na sociedade?

Efectivamente, temos assistido a um crescimento da violência em relação ao passado também em Cabo Verde. É o resultado da crise da família, embora muito tenha contribuído um índice de desemprego muito elevado, assim como uma certa mentalidade consumista. Por esta razão, a Igreja está a reforçar cada vez mais a pastoral familiar. Temos grupos de famílias, como por exemplo «A equipa de Nossa Senhora», que está em grande expansão, e também outro movimento «Jesus, Maria e José», que admitem no seu seio pessoas casadas civilmente, casadas na Igreja, as que vivem a união de facto, mães ou pais solteiros, viúvas ou viúvos, porque é importante que todos se sintam acolhidos, amados e tenham a oportunidade de partilhar as suas vidas, os aspectos positivos e negativos, desde que seja num ambiente de confiança mútua e de fé, de espiritualidade.

E os jovens?

A pastoral juvenil, que está em plena fase de desenvolvimento, oferece aos jovens a oportunidade de se encontrarem, de conviverem, de rezarem juntos, a fim de receber uma adequada formação humana e espiritual. Em particular, estamos a relançar o escutismo, o que consideramos um processo muito interessante de educação juvenil, pois lhes confere os instrumentos para superar as dificuldades e singrar na vida mesmo profissional, sobretudo contando com a amizade dos colegas e dos outros que em Cristo são irmãos. Quando há esperança, optimismo, perspectivas e confiança em Jesus, quando podem contar com o outro, os jovens mais dificilmente se deixam levar pela violência. Trata-se de um trabalho a longo prazo, que requer a contribuição de todos os parceiros sociais. Aproveito para lembrar o importante trabalho realizado pelos sacerdotes no território, que com resultados palpáveis, foram capazes de gerir a questão da reconciliação entre grupos juvenis antes rivais entre eles.

O Santo Padre fala muitas vezes de dinamismo missionário, sobretudo nas periferias: é o caso de Cabo Verde?

Na verdade, hoje todos os baptizados são missionários, como recorda o próprio Papa. Por conseguinte, quando neste contexto falamos de missionários, queremos dizer todos os religiosos e religiosas provenientes de outros países, ou os próprios cabo-verdianos, os diocesanos, os catequistas, as famílias católicas, os pais e os educadores. Devemos adquirir outra dimensão, ou seja, a de ser portadores da Palavra de Jesus Cristo. Santa Teresinha do Menino Jesus, nunca foi missionária no exterior, no entanto, ela é padroeira das missões, precisamente graças à oração que dedicava a esta causa fundamental. É muito importante que todos assumam o próprio papel, de modo que toda a Igreja seja missionária e, como diz o Papa Francisco, manifeste abertura e não fechamento, aceitando a missão do anúncio e do testemunho de Cristo: não apenas uma Igreja de portas abertas, para acolher, mas propriamente uma Igreja em saída.

Alícia Lopes Araújo

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

13 de Dezembro de 2018

NOTÍCIAS RELACIONADAS