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Contra as mulheres escravizadas nas plantações

· Iniciativas de Mãos Unidas no Brasil ·

É difícil estabelecer se o café e o açúcar fizeram com que a Europa dos séculos XVII a XIX fosse deveras feliz, mas certamente estas duas plantas são responsáveis pela má sorte que atingiu dois continentes. Destruiu-se a América para obter mais terrenos para as plantar; esvaziou-se a África para obter mão-de-obra para as cultivar. Embora hoje já não se esvazia a África com o tráfico de escravos, são sempre os descendentes dos africanos que garantem os trabalhos exigidos para a cultivação e utilização destes precisos produtos da terra. Trabalhos longos, difíceis e nocivos à saúde.

A realidade, escondida por cifras de três zeros e vigorosamente dissimulada, constitui uma das acusações mais eloquentes ao estilo de vida contemporâneo. A escravidão, abolida, não foi esquecida. Subsiste, e não só a nível de cicatriz mas de chaga infetada.

Examinando-a, não olhamos para o passado; abre-se sobre a realidade de hoje, especialmente na do famigerado Nordeste, onde se enraíza mais do que em qualquer outro lugar por uma série de motivos que seria demasiado longo enumerar. Pelos produtos mencionados, a notícia chega do sertão pernambucano, e precisamente de uma zona chamada Bacia do Goitá, uma microrregião a cinquenta e cinco quilómetros da capital Recife, onde a cansativa colheita da cana de açúcar e o descascamento da mandioca são realizados pelas mulheres negras, as grandes inválidas da história. Os dois produtos são importantes porque alimentam a indústria local: a cana de açúcar acaba numa grande destilaria para a produção da cachaça (bebida alcoólica típica local), considerada a melhor do Brasil; a mandioca é apanágio de uma grande empresa de alimentos.

Para se opôr à exploração da mão-de-obra feminina (quatro arrobas de mandioca descascada, que exige um trabalho de 12-14 horas, é pago 4 reais, menos de um euro) em 1988 nasceu o «Centro das mulheres de Vitória de Santo Antão», que luta pela defesa dos direitos das trabalhadoras, que constituem 80% da força de trabalho. A Bacia do Goitá é famosa sobretudo pela mandioca, a melhor dizem, entre as sete mil espécies do túbero, mas só os donos de fazendas nas quais é cultivada aproveitam dos benefícios. Satisfeitos com os lucros a bom preço, eles não se preocuparam (e não se preocupam) em mudar os ambientes, os sistemas de trabalho e nem o comportamento ambíguo e vexatório em relação às operárias. Além de ter que trabalhar em ambientes insalubres, sem ar nem água potável, as mulheres, quase todas analfabetas, estão expostas a doenças de vários tipos, como tumores, doenças de pele, alergias, tudo resumido numa sequência cínica e inexorável: nascer, trabalhar, sofrer abusos de todos os tipos, dar à luz filhos, adoecer, passar fome, morrer.

Hoje, graças a um projeto financiado pela associação «Mãos unidas», uma onlus ligada à Igreja na Espanha, mais de cem mulheres que faziam parte do «centro das mulheres do Cabo» deixaram a velha faca de «raspadoras de mandioca» e deram início a uma pequena atividade empresarial que produz doces e salgados em três localidades da Bacia. Vendidos nas lojas, pelas ruas, diante de hospitais, escolas e universidades, doces e salgados foram aprovados pelo ministério e destinados ao grande público estudantil do Programa nacional de alimentação escolar (Pnae) até tornar-se o alimento «oficial» dos alunos de todas as escolas primárias e secundárias.

A atividade está nas mãos de trinta e seis mulheres reunidas em três grupos de doze cada um, todas afrodescendentes, felizes de poder oferecer aos filhos oportunidades que a elas foram negadas, começando pela escola, que os libertará das explorações dos fazendeiros que no âmbito das suas propriedades, quase sempre intituladas a um santo, restabeleceram uma forma de escravidão que causa vergonha a um país desenvolvido como o Brasil. (egidio picucci)

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21 de Outubro de 2019

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