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Como uma sentinela da manhã

· Reflexões para o Ano sacerdotal ·

O Ano que Bento XVI proclamou para os sacerdotes, em comemoração do 150º aniversário da morte do Santo Cura D'Ars, oferece a ocasião propícia para reflectir sobre o sacerdote, como ele se põe diante dos grandes desafios que a humanidade enfrenta e qual o papel que desempenha no drama do homem moderno. João Paulo II dizia no início do seu pontificado: «Este é um tempo maravilhoso para ser sacerdote». Animado pela consciência de que Cristo é o único Salvador do homem e que foi constituído ministro da redenção por meio do Sacramento da Ordem, o sacerdote é chamado a viver no mundo de hoje e no meio dos desafios que ele apresenta para o Evangelho de Cristo, com confiança e santa audácia. Esses desafios podem transformar-se num projecto de vida para os sacerdotes que desejam cumprir a missão de Cristo na Igreja deste novo milénio.

O sacerdote deve ser um homem de Deus. Como presbítero, possui o selo do sacramento. Por conseguinte, as suas vontade e faculdades devem ser imbuídas dos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2, 5). Se não estiver firme em Deus, corre o risco de ser levado pelo furacão da secularização. Portanto, deve ser um homem de oração, que escuta e medita a Palavra a fim de se afeiçoar amorosamente àquilo que Deus quer dele; deve celebrar os sacramentos com o fervor e a unção própria das coisas sagradas das quais se ocupa, consciente de que para ser homem de Deus deve fazer um esforço especial e resistir à vertigem da actividade constante e acelerada à qual o mundo moderno nos obriga.

Deve colaborar também com a graça divina para que a sua vida quotidiana reflicta a santidade que os sacramentos transmitem. Os sacramentos são eficazes ex opere a Christo operato, contudo é evidente que Deus concede a sua graça com mais abundância através dos sacerdotes, que se configuraram plenamente com seu Filho, sumo e eterno sacerdote da nova aliança.

O sacerdote é um homem profundamente consciente de que a salvação vem de Deus e, por conseguinte, não pode conceber que a solução do problema do homem está nos meios humanos ou nele como pessoa humana, por mais preparado e carismático que possa ser. Compreende que deve unir a sua acção e as suas palavras a uma profunda vida eucarística – quer na celebração quer na adoração – que, num certo sentido, o torna a ele mesmo eucarístico: isto é, alguém que se faz vítima e oblação, como sacerdote, para servir Cristo na missão de salvar as almas. A sua presença entre os homens, seus irmãos, deve ser a de uma sentinela da manhã, um anunciador das coisas do além, uma lembrança contínua de Deus para as almas, que encarna o amor de Deus neste mundo. O homem de Deus é o único que pode dar sentido ao homem e à sociedade de hoje, pois torna possível o encontro com o Deus-Amor. Narra-se uma belíssima história do Cura d'Ars, da qual inclusive foi erigida uma estátua: quando São João Maria Vianney foi pela primeira vez a Ars, perdeu-se ao longo do caminho. Pediu então a um jovem pastor que o guiasse e este levou-o até à aldeia. O sacerdote disse-lhe: «Tu indicaste-me a estrada para Ars, agora mostrar-te-ei o caminho para o Céu».

Ser homem de Deus não é imcompatível com o ter os pés no chão. O sacerdote é uma pessoa que não perde a própria objectividade, nem o realismo. Por um lado, sabe que a humanidade deve submeter o cosmos e dominá-lo, por outro, que aquilo pelo que o homem anseia só se encontra no céu, meta definitiva e objectivo da nossa peregrinação nesta terra. Não é a ciência que salva o homem, mas Cristo. O sacerdote não pode ceder ao horizontalismo ou ao naturalismo, porque acabaria por não ser mais necessário ao mundo e se confundiria com um mero trabalhador ou um agente social. Nunca se deve deixar levar pela visão redutiva do seu sacerdócio, porque então seria só um serviço ou uma função. O sacerdote é um servidor de Cristo para ser, a partir d'Ele, por meio d'Ele e com Ele, servidor dos homens.

Na formação do homem de Deus, a devoção à Virgem Maria, como mãe, modelo de virtude e, sobretudo, protectora celeste, desempenha um papel muito particular. A sua relação com os sacerdotes, ministros de Cristo, deriva da relação entre a divina maternidade de Maria e o sacerdócio de Cristo. Os sacerdotes são seus filhos predilectos e no coração do sacerdote deve ressoar o conselho de São Bernardo: «Nos perigos, na angústia, na incerteza, invoca Maria. Que o seu nome nunca abandone os teus lábios e o teu coração. E para obter o apoio da sua oração, não cesses de imitar o exemplo da sua vida. Seguindo-a, não te perderás; rezando-lhe, não conhecerás o desespero; pensando nela, não errarás. Se Ela te apoiar, não afundarás; se Ela te proteger, nada temerás; sob a sua guia não terás medo da fadiga; com a sua protecção chegarás ao porto».

O sacerdote, exactamente porque se dirige à eternidade e ajuda os homens no seu caminho para o céu, deve construir a caridade, pois ela é a virtude que, de qualquer modo, antecipa o céu aqui na terra.

Antes de tudo, a caridade é para Deus e é a virtude que permite ao sacerdote ser um homem de Deus. Desta caridade brota aquela para com os outro, que tem diversos aspectos. O primeiro, o mais fundamental, é pôr sempre no centro de cada acção, pensamento e palavra, o bem da pessoa que temos ao nosso lado. Não é bom para a Igreja que alguns sacerdotes se preocupem mais com as estruturas que com as pessoas com as quais se relacionam quotidianamente. Recordo que uma vez Madre Teresa de Calcutá, ao ser interpelada sobre o facto de que não procurava uma solução para as estruturas que provocavam injustiças, esclareceu que havia já muitos que buscavam melhorá-las, enquanto ela procurava fazer com que cada pessoa entre os mais pobres dos pobres fosse cuidada segundo a própria dignidade de filho de Deus.

O sacerdote que procura o bem da pessoa, não tenta reduzi-la a um número ou estatística. Não que as estatísticas sejam más, ao contrário, creio que ofereçam uma ajuda aos desafios pastorais que a Igreja enfrenta, mas não se podem reduzir as pessoas a meros números.

Construir a caridade significa construir também a comunhão. A Igreja é comunhão; como disse São Cipriano: «É um povo que deriva a sua unidade da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo». O próprio sacerdócio tem uma «forma comunitária radical» e só pode ser exercido na comunhão. A primeira dimensão desta comunhão é a hierárquica, a comunhão com o Santo Padre, centro visível da unidade na Igreja, e com o próprio bispo, pastor da Igreja particular.

O sacerdote é construtor de comunhão dentro do presbitério diocesano. Todos os sacerdotes de uma Igreja particular participam no único sacerdócio de Cristo pastor. E esta união sacramental deve traduzir-se em relações interpessoais cheias de caridade e de ajuda recíproca. O sacerdote é chamado inclusive a receber com gratidão e a conduzir para a comunhão os diversos carismas presentes na sua paróquia ou diocese. O seu coração estará aberto às diversas formas de vida consagrada e aos novos movimentos aprovados pela autoridade competente. São dons do Espírito para a Igreja e devem ser acolhidos sem preconceitos. Neles muitos fiéis encontram caminhos específicos de santidade cristã e formas concretas para participar na acção evangelizadora da Igreja.

O sacerdote constrói a comunhão juntamente com todo o povo de Deus e não concebe a Igreja de forma dialéctica, como oposição entre o ministério ordenado e o sacerdócio baptismal que é próprio de todos os fiéis. Uma das figuras consagradas pelo Concílio para representar a Igreja foi a do povo de Deus. Neste povo, que é também Corpo de Cristo, todos temos a mesma dignidade de filhos de Deus e unidos caminhamos para a meta definitiva, o céu. E a diferença essencial, não simplesmente gradual, entre o ministério ordenado e a função dos leigos não só não rompe a unidade mas, ao contrário, enriquece-a.

Na pregação e na vida de Cristo, era evidente a atenção que Ele prestava aos mais pobres. A atenção para com o mais necessitado é algo que deve formar a prioridade pastoral do sacerdote. Ajudar e enfrentar as necessidades das pessoas é próprio do cristão, e muito mais do sacerdote. Hoje à necessidade de bens materiais acrescentam-se muitas outras, que se tornaram urgentes: a solidão da velhice, a depressão e o abandono de tantas pessoas nas grandes cidades, as diversas dependências muitas vezes exploradas por organizações ou indivíduos sedentos de lucro, a infância deixada ao seu destino sem alimentação nem educação.

O sacerdote encontra-se onde há mais necessidade de consolação e de anúncio dos bens eternos, onde estão os mais indefesos. O sacerdote é aquele que dá esperança com a sua palavra e acção a fim de que as situações de miséria sejam aliviadas. Não obstante tantos progressos tecnológicos, nem sempre as pessoas têm a possibilidade de receber vantagens deste desenvolvimento e encontram-se sozinhas e abandonadas.

Em certa medida, o sacerdote tem também a responsabilidade da promoção de sociedades justas. Não compete a ele trabalhar nas estruturas políticas, sindicais e económicas; não é chamado a ser construtor da cidade terrena, mas não pode esquecer o mundo no qual vive. Ele pode e deve cooperar com a promoção de uma sociedade mais justa e em conformidade com a vontade de Deus, mediante a pregação dos valores evangélicos e a formação das consciências. Esta é a sua contribuição específica. Não se exclui que ele possa denunciar as situações injustas, mas o amor pelos seus irmãos requer que vá além, até à raiz: conseguir mudar os corações daqueles que provocam tais situações. Não tenta contrapor, mas unir e obter que nessas situações haja compreensão recíproca, perdão e responsabilidade efectiva da parte de quem pode melhorar a realidade. Só assim é possível construir uma nova sociedade, pois sem mudar os corações, os rancores seriam um peso que manteria as pessoas ancoradas no passado, sem esperança e sempre à mercê da violência destruidora.

Enfim, na construção da caridade, o sacerdote deve praticá-la sempre na verdade. Realizaria um péssimo serviço como pastor de almas, se por um conceito equívoco de caridade abandonasse a verdade. Às almas é preciso dizer a verdade, desvendar-lhes o valor da mesma e ajudá-las a amá-la; é necessário mostrar toda a verdade que Deus revelou no Evangelho de Cristo e que o magistério da Igreja transmite. Não se pode reduzir nem mudar a verdade para «fazer um bem pastoral». Em todo o caso, pode-se aplicar a lei da gradualidade, porém nunca tergiversar sobre a verdade. Bento XVI afirma na sua encíclica Caritas in veritate que só na verdade a caridade resplandece e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade.

O sacerdote é um pastor de almas, que cuida das suas ovelhas e está disponível para oferecer a vida por elas. Não se pode subestimar o valor dessa doação, dessa paixão, que deve arder no coração de todos os sacerdotes. Ele é como Cristo, que oferece a sua vida por elas e é estimulado pelo seu amor por elas. E ainda, além dessa doação que se faz realidade dia após dia, instrui as almas com a sadia doutrina católica. Ensina-lhes a fé através de uma catequese adequada, com todos os meios possíveis, porque o povo de Deus tem necessidade urgente de conhecer a fé para não se deixar arrastar por outras ideias pseudo-religiosas. O sacerdote deve sobretudo ser guia e pastor dos seus irmãos com um estilo de vida virtuoso, alimentado pela oração e pelo contacto com a eucaristia.

A atenção pelas almas concretiza-se sobremaneira na administração do sacramento da reconciliação. O sacerdote está sempre à disposição dos fiéis para ouvir as suas confissões. É ali, na solidão do confessionário, que se vive a batalha mais decisiva para a alma do mundo. É ali que a graça de Deus toca profundamente as pessoas por meio da humanidade do sacerdote.

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16 de Setembro de 2019

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