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Como três irmãs

· O cardeal Barbarigo e as mulheres ·

Entre os séculos XVII e XVIII foi o cardeal Marco Antonio Barbarigo quem encarnou o ideal do bispo delineado pelo concílio de Trento, tornando-se um autêntico pai e pastor. O sentimento pastoral de Barbarigo está expresso no escrito Disinganni per i vescovi, onde afirmava: «O Bispo e os súbditos devem estar sempre juntos, dado que estes sem aqueles morrem e aqueles sem estes perecem… o bispo deve cuidar de todos: do pobre artesão, da viúva abandonada, do mísero pupilo». Estas convicções pessoais levaram Barbarigo a realizar um projecto pastoral que previa a reforma e a formação do clero com a fundação do seminário, a visita pastoral e a celebração dos sínodos diocesanos. A tudo isto ele acrescentou a promoção humana, cristã e social da mulher, como ponto qualificante do seu ministério episcopal.

Barbarigo já tinha esta atenção pela mulher desde jovem sacerdote, quando pediu ao patriarca de Veneza a autorização para ensinar a doutrina cristã também às mulheres e às jovens, e a partir do início do seu episcopado propôs-se «contribuir para a boa vivência cristã de todas as famílias, para a boa educação das mulheres, especialmente das jovens». Realizou este desejo, objecto da sua oração, através de três mulheres: santa Rosa Venerini, santa Lúcia Filippini e Catarina Comaschi. Com esta última deu novo vigor a um antigo mosteiro em Montefiascone, fundando o Instituto do «Divino Amore», ao passo que com Rosa Venerini e Lúcia Filippini fundou «escolas», que depois foram chamadas «pias», em todos os centros da diocese. A vontade e a acção do cardeal foram tão firmes que de 1692 a 1694, anos da sua colaboração com Rosa Venerini, foram abertas onze escolas, em seguida dirigidas por Lúcia Filippini, que as moldou com o seu carisma pessoal e o seu método educativo. Através destas mulheres, o cardeal Barbarigo abriu novos espaços à mulher na Igreja, inserindo-a na própria vida pastoral, reconhecendo o seu papel educativo e apostólico.

Os laços e a colaboração pastoral foram particularmente intensos e «filiais» com Lúcia Filippini, que o cardeal conheceu em 1688 em Tarquinia e, em seguida, levou consigo para Montefiascone fazendo com que fosse acolhida como educanda no conservatório de Santa Clara. Homem de experiência, o novo bispo tinha reconhecido nela «uma índole óptima» e «a grande abertura de talento e capacidade». Estes dotes, assim como a sensibilidade da jovem surpreenderam também Rosa Venerini que vivia com ela no mesmo conservatório. Foi precisamente esta mestra mais velha e com maior experiência quem apresentou Lúcia ao prelado, como pessoa adequada para continuar a obra das escolas. Não obstante a jovem idade de Lúcia, Barbarigo concordou com a sugestão e Filippini aceitou aquele encargo, que se transformou em missão.

Ela revelou-se discípula autêntica do cardeal tornando-se mestra missionária e apóstola. Assim a descreve o seu primeiro biógrafo: «Mulher verdadeiramente apostólica, sendo catequista, educadora de mulheres, ajuda das prostitutas e amiga dos pobres e ela mesma escreve: “Se dependesse de mim multiplicar-me-ia em cada canto da terra para poder gritar de todos os lados e dizer a todas as pessoas de qualquer sexo, idade e condição: Amai a Deus, Amai a Deus! Oh meu Deus! Por que não me transformais em muitas Lúcias, de modo que multiplicando-me possa dilatar por todas as partes a Vossa glória?”». Tinha respondido assim ao convite do cardeal: «Lúcia, Lúcia, ide pelas estradas e pelas praças e procurai aleijados, coxos e débeis e fazei que este lugar se encha».

Precisamente as estradas e as praças foram os lugares da missão de Lúcia; percorrendo-as, chamava jovens e mulheres para a sua escola, que desde o início se distingui pelo seu carácter popular. As escolas foram casas abertas e acolhedoras onde se ensinava a formação da personalidade e crescimento religioso através do trabalho manual, a reflexão religiosa, o estudo e a oração.

Não é difícil imaginar o impacto social que este ensinamento teve sobre as famílias e mesmo sobre as comunidades. A mulher já não dependia de uma outra pessoa, mas ela própria compreendia e podia exprimir-se: foi dado um primeiro passo fundamental no caminho de emancipação da mulher.

Com a instituição das Mestras Pias, das quais Lúcia foi a pedra angular, o cardeal Barbarigo marcou um ponto substancial na inserção da mulher na vida eclesial. O cardeal quis mulheres inseridas pastoralmente no apostolado paroquial, criando assim «um terceiro estado de vida», como afirmam as Regras, para executar a missão pastoral, sem estar vinculadas aos votos religiosos, a fim de ficar precisamente à disposição da vida apostólica da Igreja. Desta forma, Barbarigo abriu o caminho para o apostolado das mulheres no catolicismo depois do concílio de Trento, e isso foi possível graças à colaboração com a mestra, unidos na caridade pastoral. Se foi decisiva a personalidade do cardeal, não menos significativas foram a sensibilidade feminina e a ternura de Lúcia que ajudou o cardeal a amadurecer na paternidade episcopal.

Marco Antonio Barbarigo e Lúcia Filippini unem-se àqueles casais de santos que marcaram a vida da Igreja como Francisco e Clara de Assis, Francisco de Sales e Francisca de Chantal. Uma colaboração que foi particularmente fecunda para a vida da Igreja e continuará a sê-lo também no futuro.

Fabio Fabene

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25 de Agosto de 2019

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